Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > INDÚSTRIA FONOGRÁFICA

Tubarões pedem ajuda!

Por lgarcia em 08/08/2001 na edição 133

INDÚSTRIA FONOGRÁFICA

Bruno Dorfman Buys (*)

Dizem os presidentes de gravadoras de música (em entrevista veiculada no caderno "Ilustrada", da Folha de S.Paulo, 25/7/01) que a pirataria está lhes tomando o negócio, e que se algo não for feito por autoridades e pela vigilância da lei, logo o panorama musical brasileiro estará deserto. Não será mais um negócio rentável produzir discos de artistas brasileiros. Números da ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Discos) sustentam que o mercado caiu muito em número de vendas, e isso se deve à pirataria.

São veementes em defender seu negócio, mas esquivos em justificar suas escolhas musicais. Quando perguntados pelo repórter se "desde o estouro do sertanejo e do axé não colocaram qualidade lá atrás na fila das prioridades, não sonegaram o papel educativo que tinham antes?" a resposta foi: "É natural assim. Você pontencializa o axé, não pode fazer nascer o axé." E mais adiante: "Às vezes é necessário que as companhias criem produtos de marketing para suprir a falta de artistas criadores que não estão bons para criar naquela hora.". Ou "Nunca mais viveremos a Bossa Nova nem a Jovem Guarda. Não há jeito de viver de novo. Temos que entender que o mundo vai para a frente. As músicas podem se tornar mais simples numa época e mais complicadas noutra, vai depender muito do que o público queira."

A íntegra da entrevista sugere que esses presidentes de gravadoras estejam imbuídos do sentimento de defesa da música popular brasileira, e a defendem através do combate à pirataria. E justificam a campanha antipirataria pela relação direta entre a saúde do seu negócio e a saúde dos seus contratados (os artistas). E mais: de alguma maneira eles têm acesso direto e privilegiado a alguma espécie de "consenso" sobre o que o mercado quer ouvir (mercado aqui em itálico porque é a forma como eles sempre se referem a nós, ouvintes e amantes de música).

Ora, a pirataria prospera onde há uma lacuna. Lacuna de prestação de serviços. Se o que as gravadoras alegam está certo, e realmente existem grandes esquemas internacionais de pirataria, por que é tão absurdamente mais barato fazer um disco pirata? Em qualquer esquina de qualquer cidade um CD pirata custa entre 3 reais e 7 reais. Ao passo em que um CD comprado em loja está por 25 reais, em média. Não dá para acreditar que esta diferença seja devida a direitos autorais. Artistas diferentes reclamam do que eles consideram "uma miséria" que as gravadoras pagam de direito autoral sobre cada disco vendido, para não citar os contratos draconianos que eles têm que assinar, principalmente os estreantes. O Ecad, órgão responsável pela arrecadação de direitos autorais, tornou-se qualquer coisa menos órgão de arrecadação. Artistas como Lobão e Zeca Baleiro criticam fortemente a atuação do Ecad, bem como da indústria fonográfica.


Música na rede

A pirataria vai até onde o fornecedor oficial não vai. Em cidades pequenas e muito pequenas, o CD disponível é o CD pirata, trazido por algum vendedor ambulante de algum centro maior. Em muitas cidades brasileiras não existe loja de discos porque não é negócio montar uma, não dá lucro. E o ouvinte de música, como fica? A pirataria fornece o que o público quer, em tiragens menores de CD?s de artistas que já saíram do catálogo das grandes gravadoras. Vá até a loja da esquina e pergunte se tem algum CD da Celi Campelo ou do Sidney Magal. Pergunte se tem CD da Blitz. O que o público quer é aquilo que as gravadoras lançam? E quem é que tem o direito de agendar o menu musical das pessoas? Se nem todo mundo quer ouvir pagode, axé e sertanejo, então as gravadoras têm que abrir espaço e tolerar a competição. Ou então disputar junto.

Por outro lado, as gravadoras, no momento de posar de defensoras da MPB, deveriam, pelo menos, respeitar a inteligência do leitor. O mundo da música brasileira só é defendido por elas na cabeça de seus presidentes. Quem de fato defende os músicos brasileiros são os milhares de donos de bares, cabarés, boates e casas noturnas que apostam e lhes dão espaço para tocarem sua música. É onde eles tocam durante muito anos antes de algum dono de gravadora resolver lhes dar atenção. São os alunos para quem muitos deles dão aulas de músicas durante muito tempo, antes de estourarem no mercado. E mais do que tudo: somos nós, ouvintes que os acompanhamos, pagamos ingressos de shows e os assistimos, freqüentemente na chuva e na lama, como foi nos Rock?s in Rio I e II. E compramos CD?s em lojas pelo absurdo de 25 reais, incluídos aí a margem de lucro de uma cadeia de caça-níqueis que não cabe no espaço deste texto.

Por fim, a internet: dizem eles, no site da ABPD, que o MP3 "é um programa que permite baixar músicas digitais pela internet, e reproduzi-las várias vezes para depois revendê-las em formato de CD". Isto não só está errado como também julga que todo mundo que baixa arquivos pela rede usa de má-fé. Quem ouve música pela internet procura um serviço que as gravadoras não prestam. O MP3, na verdade, é um formato de arquivo que representa uma das maiores inovações em mídia digital da atualidade. A cópia de arquivos pela internet tem um perfil muito diferente da pirataria denunciada pela indústria fonográfica. E a julgar pelo crescimento dos meios de transmissão digital, a indústria fonográfica está, finalmente, com os dias contados. O serviço de distribuição que elas prestavam está a caminho de se tornar obsoleto. E as grandes gravadoras continuam a fazer vista grossa a este crescimento, achando que podem competir escondendo-se atrás do monopólio que exercem sobre a distribuição de música ao grande público ? e, quando surge uma oportunidade, choramingando para a autoridade da lei, contra a pirataria). Nenhuma delas até hoje tem alguma proposta concreta de distribuição de música digital pela internet. Talvez seja um dos únicos nichos do mercado de informação que acham que pode continuar crescendo sem dar a mínima para a rede.

(*) Biólogo e redator da revista ComCiência. E-mail <bbuys@obelix.unicamp.br>

    
    
                     

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