Sábado, 16 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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TV colombiana usa P&B contra a violência

Por lgarcia em 05/10/1999 na edição 76

Finalmente, é preciso considerar outra importante possível explicação para as mudanças no Jornal Nacional: a pressão exercida por outras redes de televisão e demais competidores no mercado de comunicação. Apesar de sua posição de virtual monopólio, dominando cerca de 80% da audiência nacional (Amaral e Guimarães, 1994), a Rede Globo tem sido confrontada no campo do telejornalismo pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), seu principal competidor no mercado de televisão. Em 1988, o SBT contratou Boris Casoy, jornalista da Folha de S.Paulo, para a ser o âncora do seu noticiário do horário nobre, o TJ Brasil. Casoy se tornou o primeiro âncora da televisão brasileira, pois recebeu não só a tarefa de apresentar as notícias, mas também de atuar como editor-geral do noticiário. O apresentador também desenvolveu um novo estilo, dando sua opinião sobre temas polêmicos, separando-se da forma mais “fria” e objetiva através da qual os apresentadores da Globo apareciam na tela [Em julho de 1997 Bóris Casoy deixou o SBT e passou a apresentar o telejornal da TV Record]. Em um relatório interno elaborado pelo seu departamento de jornalismo em 1991, o SBT definiu as características do projeto do novo telejornal. A combinação dos índices de audiência com credibilidade é apresentada como o objetivo central da estratégia da emissora. O documento desenvolve uma comparação interessante entre o departamento de jornalismo do SBT e o Jornal Nacional da Globo: “queremos ter um jornal que seja tão bom quanto o Jornal Nacional, com ritmo, beleza plástica, grandes reportagens … Enfim, show e emoção. Só que queremos ter isso e mais a isenção” (ver Squirra, 1993, p. 141). Portanto, o SBT construiu uma estratégia baseada na falta de neutralidade do Jornal Nacional, identificando uma das principais debilidades do seu principal competidor: a imagem de uma rede de televisão governista.

O SBT desafiou o jornalismo da Globo não apenas através do TJ Brasil e Boris Casoy, mas também através do programa Aqui Agora. O programa começou em maio de 1991 e passou a se destacar pelo seu estilo “sensacionalista” e pela cobertura de crimes e violência urbana. O Aqui Agora levou para a televisão um popular jornalista do rádio, Gil Gomes, conhecido pelo seu programa que apresentava casos de violência na cidade de São Paulo. Gomes se tornou uma das principais atrações do Aqui Agora, relatando crimes com seu estilo dramático característico. O programa também inovou ao desenvolver um estilo realista de apresentação das notícias. Um certo senso de naturalismo foi construído através de uma produção precária e da “baixa qualidade” das imagens, com a câmara balançando enquanto o repórter corre ao lado dos policiais ao perseguir suspeitos e criminosos pelas ruas de São Paulo (Bucci, 1993, p. 104). O programa provou ser popular principalmente na cidade de São Paulo, onde os 10% iniciais da audiência cresceram para 20% em outubro de 1992 [“O rosto da periferia”, Veja, n. 47, 18 de novembro de 1992, pp. 98-103].

Portanto, uma das possíveis explicações para a substituição de Cid Moreira pela Globo seria uma reação ao jornalismo praticado por seu principal oponente, o SBT. Para evitar a perda dos seus índices de audiência, a Globo seria obrigada a adotar um novo estilo jornalístico, mais imparcial. Para tal, seria importante substituir Cid Moreira, já que sua imagem estava profundamente associada ao tipo de jornalismo historicamente praticado pela emissora. Algumas evidências sugerem que esta interpretação é correta. De fato, o Jornal Nacional tem enfrentado um declínio crescente dos seus índices de audiência. Se na década de 1980 a audiência média do programa estava nos 60% dos domicílios com TV, entre 1993 e 1994 estes índices baixaram para 50% [“Turbulência na rota do Boeing”, Imprensa, nº 80, maio de 1994, p. 30]. De acordo com a revista Imprensa, este declínio teve lugar quando o SBT criou uma segunda edição do programa Aqui Agora às 20 horas, o horário do Jornal Nacional [idem, p. 32]. Todavia, o Jornal Nacional mantém sua posição como o principal telejornal do país, com uma audiência diária estimada em 41 milhões de pessoas [Dados da home page da Rede Globo <http://www.redeglobo.com.br>]. A estratégia do SBT de ganhar audiência teve um sucesso apenas parcial: os seus programas de notícia (TJ Brasil e Aqui Agora) não alcançaram mais de 20% da audiência, em comparação dos mais de 40% do Jornal Nacional.

Mas se a tentativa do SBT de conquistar audiência teve um sucesso limitado, a principal competidora da Rede Globo obteve melhores resultados na área da credibilidade. A revista Imprensa encomendou outra pesquisa ao Instituto Gallup com o objetivo de verificar como os brasileiros avaliavam o desempenho dos telejornais [“A imagem dos telejornais: o povo acusa”, Imprensa, n. 105, junho de 1996, pp. 24-28. O Instituto Gallup entrevistou 639 indivíduos na cidade de São Paulo, entre 25 e 27 de maio de 1996]. A Tabela 1 apresenta alguns dos resultados. Os dados da pesquisa são contraditórios. Como explicar que as mesmas pessoas que afirmaram que a Globo apresenta os fatos como realmente acontecem e informa mais corretamente o público também afirmaram que a emissora é a que mais distorce os fatos? Esta contradição indica que o tema da credibilidade dos telejornais é bastante complexo. No caso do Jornal Nacional, a evidência sugere um baixo nível de credibilidade relacionado à sua vinculação ao governo e outros interesses. Como mostra a Tabela 1, o Jornal Nacional é visto como o noticiário que mais defende interesses econômicos. Ao mesmo tempo, como vimos anteriormente, Cid Moreira desfrutava de altos níveis de credibilidade quando foi substituído pela emissora. Esta aparente contradição pode ser explicada se considerarmos a possibilidade de que o público pode confiar na forma do noticiário enquanto fonte neutra de informação e no apresentador enquanto personalidade, ao mesmo tempo em que permanece crítico com relação à imagem da emissora e ao seu papel político, tendo assim menos confiança no conteúdo do telejornal [Daniel Hallin (1996) sugere que a credibilidade do noticiário de televisão entre o público é baseado mais na forma que no conteúdo; em outras palavras, no seu caráter visual e pessoal (p. 89). De modo similar, Stam (1985) argumenta que parte da credibilidade da televisão é resultado do fato de que imagens dão à audiência a impressão de um acesso direto e não-mediado à realidade.]. Em outras palavras, o gênero “noticiário” e a personalidade do apresentador podem desfrutar altos níveis de credibilidade ao mesmo tempo em que a imagem da emissora permanece negativa.

TABELA 1

Opinião pública sobre os telejornais

Pergunta: Quais destas redes têm telejornais que …

Emissora

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