Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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TV e jornalistas na linha de tiro

Por lgarcia em 30/01/2002 na edição 157

PROFISSÃO DE RISCO

Antônio Brasil (*)

A pergunta está no ar: televisão e jornalista são alvos militares?

Tenho razões pessoais para me preocupar
com a segurança da televisão e dos jornalistas.
Acredito no principal meio de comunicação de massa
do planeta e respeito os profissionais que arriscam suas vidas
para
conhecermos as notícias e
evitarmos as guerras. Mas quando televisão e jornalista
se tornam alvos militares, é hora de parar para pensar
sobre a nossa responsabilidade ou a nossa cumplicidade com as
agressões contra os princípios mais básicos
da liberdade de imprensa, do direito à informação
e do direito à vida. Destruir uma emissora de TV ou matar
jornalistas deveria provocar uma indignação proporcional
ao risco e à constância dessas novas ameaças.
Mas, ao contrário, parece que convivemos com esse novo
quadro com indiferença cada vez mais acentuada.

Os jornais deram manchetes e as TVs mostraram mas poucas pessoas
se importaram: "Israel ataca prédio da TV palestina"
(Jornal do Brasil, 20/1/02, pág. 15). "Única
TV independente da Rússia é fechada" (O Globo,
23/1/02, pág. 30). Ou a divulgação dos últimos
relatórios que denunciam: "9 jornalistas foram mortos
no Afeganistão" (Reporters Sans Frontiére <http://www.rsf.fr>),
e "37 jornalistas morreram em 2001" (Committe to Protect
Journalists <http://www.cpj.org/index.html>)

No Brasil, pudemos assistir nos telejornais as imagens impressionantes da recente destruição de mais uma emissora de televisão. Numa estranha e irônica contradição, a TV sempre se supera e mostra o até mesmo o seu próprio fim. Dessa vez foi em Ramalah, na Palestina. Em mais uma retaliação militar aos atentados suicidas, tropas israelenses decidiram destruir o prédio e as instalações da PBC (Palestinian Broadcasting Corporation ou a "Voz da Palestina"). Seria somente mais capítulo explosivo do infindável e insolúvel conflito do Oriente Médio. Mas essas mesmas imagens nos remetem a outras, do bombardeio da TV da Iugoslávia em Belgrado pelas forças da OTAN durante a guerra do Kosovo, em abril de 99. E num plano menos violento ? mas não menos perigoso ou ameaçador ?, a nova Rússia de Putin se adianta aos fatos e fecha a TV6, a "última TV independente" (Jornal do Brasil, pág. 10, 23/1/02). Se essa moda pega….

Esse padrão já assusta a todos que acreditam na imprensa livre e democrática. Nem sempre temos a imprensa que queremos, acreditamos ou merecemos ? mas lutamos sempre por ela. Muita gente, com certeza, preferia um mundo sem as notícias dos jornalistas e as imagens da TV. O brasileiro bem sabe disso. Mas para os novos estrategistas militares de uma era pós-Vietnã, a televisão, o rádio e todos nós jornalistas nos tornamos numa ameaça considerável, mas facilmente identificável e neutralizável. Já é mais do que um mero acidente ou tendência incendiar emissoras de televisão assim como tentar eliminar ou, pelo menos, afastar os profissionais da notícia de todos os conflitos.

Valeu a pena?

Nas guerras modernas, a televisão e os jornalistas tendem a se tornar alvos militares fundamentais. A sorte (ou azar) do Afeganistão é que havia anos os talibãs já tinham abolido tanto a televisão como os jornalistas. Mas mesmo assim, pergunta-se: que fim teria levado tal TV al-Jazeera? É a própria, aquela "perigosíssima" emissora alternativa baseada no Qatar que parecia desafiar o poderio da CNN e da uníssona mídia ocidental. Aquela "televisãozinha" que ousava enviar as únicas imagens de Cabul no início da guerra americana contra o terrorismo. Resposta: também se tornou alvo militar e teve o seu escritório em Cabul bombardeado pela aviação americana. Numa seqüência ainda mais previsível, al-Jazeera desapareceu subitamente da mídia assim como Bin Landen, seus fanáticos seguidores e tantos outros personagens. Fizeram o seu papel.

Liberdades civis arduamente conquistadas foram rapidamente suspensas e muitos armamentos e espaço na mídia foram vendidos. Continuamos a entender muito pouco, mas isso é um outro problema. Esses personagens, certamente vão cair no esquecimento da mídia e conseqüentemente do público em geral. Hoje, temos coisas mais importantes para ver e pensar, e nos preocupar ? pelo menos por enquanto.

Ao que tudo indica, a partir de agora, não teremos somente a verdade como a primeira vítima de uma guerra. Contabilizamos as televisões e os jornalistas que nelas trabalham como passíveis de ataques fulminantes e amplamente justificáveis. Alvos militares tradicionais ? tal qual um depósito de munição ou uma ponte ? passam a ter importância secundária se comparados com a ameaça maior representada por uma televisão ou pela presença sempre indesejável de jornalistas nos novos conflitos eletrônicos. A guerra moderna prescinde das imagens dramáticas e incômodas de gente morrendo ? essas "imagens sujas e incontroláveis" que se tornaram ameaças constantes de um fim prematuro ou obstáculo intransponível para o eterno recomeço dos novos conflitos localizados.

Sempre que uma televisão, qualquer televisão, de qualquer lugar do mundo é destruída ou fechada, seja lá por que motivo, o mundo fica um pouco mais perto das unanimidades e da escuridão. Quando um jornalista é morto, a verdade se torna um pouco mais distante.

Insisto: 9 colegas nossos morreram somente no Afeganistão durante poucas semanas de conflito. Eram todos profissionais experientes e conscientes dos seus riscos. Sete deles morreram em uma única semana. Em todos os anos de guerra no Vietnã, 45 jornalistas perderam a vida. Num contraste assustador, 37 jornalistas foram mortos em todo o mundo em 2001. São dados que ameaçam a todos nós. Nunca a notícia e a verdade custaram tanto prejuízo e a perda de tantas vidas.

Ao avaliarmos os últimos resultados em nossa mídia, terá mesmo valido a pena?

(*) Jornalista, coordenador do laboratório de televisão, professor de telejornalismo da UERJ e doutorando em Ciência da informação pelo IBICT / UFRJ

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