Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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TV enfrenta internet

Por lgarcia em 25/09/2002 na edição 191

NOVA GUERRA NO IRAQUE

Antônio Brasil (*)

Para muitos analistas políticos e jornalistas internacionais, a guerra contra o Iraque é inevitável. Pura questão de tempo. Os americanos, com ou sem o apoio da ONU, já teriam se decidido por uma nova estratégia de "ações preventivas" contra os seus mais novos "inimigos". Mais um caso de antigos aliados que já cumpriram seus objetivos, mas se perverteram pelo caminho ao se tornarem "diabólicos" e dispensáveis. Sentindo-se ameaçados, isolados e sempre muito bem-armados, os americanos parecem repetir antigas fórmulas políticas dos anos de chumbo na América Latina, ao buscar um "consenso" mundial: "primeiro, eliminamos os inimigos, depois os indecisos, e por último… os tímidos".

Mas se a política externa americana e os militares insistem em que a guerra é inevitável, é hora de perguntarmos: como será a cobertura da imprensa e, principalmente, como será a cobertura da televisão numa nova guerra contra o Iraque? E a internet? Será que a rede já conseguiria ameaçar a hegemonia dos noticiários de TV?

Segundo o presidente da CNN International, Chris Cramer, que participou recentemente da International Broadcast Convention em Amsterdã, divulgado pelo site da BBC International <http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/2260955.stm>, a próxima guerra pode até não ser no Iraque, mas será ferozmente disputada entre o poder das TVs e a rapidez dos sites de notícia da internet.

Também é claro que as grandes redes de TV não estariam dispostas a perder terreno facilmente para os novos competidores. Cramer fez questão de lembrar que a televisão está preparada. A próxima guerra já vai poder contar com uma tecnologia ainda mais poderosa: a nova geração de videofones ? aqueles pequenos computadores ligados a câmeras digitais que transmitiram som e imagens da Guerra do Afeganistão (e de qualquer lugar do mundo) via internet; e uma nova geração de jornalistas altamente qualificados tanto em termos técnicos como em capacidade profissional.

Assim como no cinema, esta "nova geração" está sendo preparada para participar de uma verdadeira jornada "contra" as velhas estrelas do jornalismo: os grandes equipamentos de TV, as grandes equipes e os altos salários de algumas "popstars" do velho telejornalismo. Essa next generation, verdadeiros "guerrilheiros da notícia", estariam sendo treinados para atuar com competência e disposição em diferentes tipos de mídias, utilizando-se de novas táticas e linguagens.

Contra o consenso, imagens

Segundo o presidente da CNN, esse novo jornalista deve ter as qualificações para combinar ou escolher recursos técnicos e linguagens a serem utilizados em cada matéria. As guerras, os novos tempos e os objetivos jornalísticos parecem justificar os meios.

Apesar dos problemas de credibilidade junto ao público, da crise econômica, do alto custo financeiro da cobertura da Guerra do Afeganistão, sem contar o próprio custo em vidas de jornalistas (9 morreram em menos de 3 meses), os americanos sem dúvida estão se preparando para mais um show de notícias com novas armas. Guerra rende muita audiência para o jornalismo de TV ? e muito dinheiro para a indústria bélica americana.

O maior problema para as emissoras num eventual conflito no Iraque, no entanto, pode não ser uma inusitada competição com a internet. A questão principal ainda envolve os donos da festa: os militares. Como convencê-los de que jornalista sério e responsável não atrapalha uma boa guerra? Como evitar uma verdadeira "invasão" de jornalistas independentes, ou "pára-quedistas", como diz Cramer?

Por outro lado, a "nova geração" de militares aprendeu muito desde os tempos difíceis do Vietnã: hoje, bom jornalista é jornalista bem vigiado e longe dos campos de batalha. E as imagens? São ainda mais perigosas do que as armas do inimigo. O rígido controle do acesso às unidades militares e a seleção criteriosa de jornalistas mais "simpáticos" e "identificados" garantem os objetivos políticos do governo, e se tornaram emblemáticos dos novos tempos. Uma guerra com poucos jornalistas, sem muitas notícias e sem imagens. Para isso, nada como o sistema de pool. Essa solução criativa reúne num mesmo saco, ou num mesmo "navio", veículos que deveriam estar competindo. Todos bem distantes do perigo e da notícia. Tudo em nome de uma segurança nacional e da segurança do jornalista.

Jornalista independente ou "pára-quedista" é sempre uma ameaça. Ele pode ver o que não deve e subverter o imprescindível apoio do front interno. Do público, deve-se esperar o apoio irrestrito ou, pelo menos, indiferença e ignorância. A censura ou a restrição aos jornalistas nas novas guerras é uma desculpa muito conveniente para os eventuais e inevitáveis erros técnicos de operações "cirúrgicas", verdadeiros videogames sem vítimas visíveis. Esses pequenos "acidentes" numa guerra "quase" perfeita estarão sendo devidamente preservados dos olhares e das câmeras dos "grandes" jornalistas.

O problema é como controlar os "pequenos". Eles não costumam obedecer ou respeitar a "ordem" das novas guerras, e se tornam um pesadelo para os donos da festa, os militares. As alternativas à censura de imagens também são muito criativas. Elas incluem a utilização cada vez mais freqüente de satélites particulares de observação para invadir os campos de batalha ou para contradizer as "verdades" dos militares e do jornalismo de "consenso" da grande mídia.

À frente dos velhos pioneiros

Por outro lado, a opção pelas novas tecnologias e pelas pequenas equipes não deixa de ser uma resposta criativa das próprias redes de TV americanas às restrições da cobertura das guerras recentes. É claro que também é uma boa alternativa financeira em tempos de vacas cada vez mais magras, principalmente na cobertura internacional. E a crise é uma boa oportunidade para "ousadias" num meio tão conservador e pouco criativo como o telejornalismo.

Na palestra em Amsterdã, Chris Cramer declarou que está muito preocupado com seus novos concorrentes: a internet. O baixo custo e a rapidez com que os pequenos sites já conseguem divulgar as principais notícias estão afetando radicalmente a forma com que as grandes redes "apuram" suas próprias matérias. "A corrida para ser o primeiro num cenário de notícias durante 24 horas tem representado um alto custo em termos de precisão, com um aumento na especulação", alerta Cramer.

O presidente da CNN também fez questão de dizer: "Temos cada vez menos tempo para julgamentos editoriais quando existe a possibilidade de colocar no ar, a qualquer momento, uma transmissão ao vivo da nossa própria história."

Ele, sem dúvida, reconhece a importância dos novos meios alternativos para a democratização da informação, mas não comete o erro de subestimar o potencial da competição: "Esses meios podem ser alternativos e pouco convencionais, mas já são, hoje, freqüentemente, os primeiros a dar as notícias."

É bom relembrar que tanto a prestigiosa CNN e seu presidente sabem muito bem do que estão falando. Eles reconhecem a ameaça da rede e se lembram de suas próprias trajetórias. Há alguns anos, a pequena e criativa CNN ousava desafiar as poderosas redes de TV americanas, ao buscar espaço para uma nova forma de fazer telejornalismo. A CNN era então chamada "pejorativamente", pelos grandes, de Chicken Noodles News (notícias de canja de galinha)! Nos anos 70, poucos acreditavam no poder de uma rede de notícias 24 horas em canais de TV por assinatura, com equipes e salários muito reduzidos se comparados às "estrelas" do telejornalismo americano das grandes redes. Eles acabaram perdendo espaço precioso para os "nanicos" da CNN e, hoje, lutam pela sobrevivência num cenário ainda mais hostil.

Os sites com notícias atualizadas durante as 24 horas do dia pela internet, com todos os diversos recursos de convergência das mídias, com idéias muito criativas de baixo custo e com profissionais muito jovens, mas extremamente qualificados e ambiciosos, podem repetir o caminho percorrido pelos velhos pioneiros da CNN. Quem viver e sobreviver, certamente, verá!

(*) Jornalista, coordenador do Laboratório de TV, professor de Telejornalismo e doutorando em Ciência da Informação pelo convênio IBICT/UFRJ

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