Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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U.S. News volta atrás: Fallows fica menos de 2 anos no cargo

Por lgarcia em 05/07/1998 na edição 48

Argemiro Ferreira, de Nova York

 

* Setembro, 1996 – A revista U.S. News & World Report, 2,2 milhões de exemplares por semana, é abalada por terremoto editorial: o jornalista James Fallows, duro crítico dos comentaristas políticos de Washington, assume a direção e afasta vários deles, inclusive algumas estrelas.

* Junho, 1998 – Fallows é demitido após meses de boatos, iniciados em novembro de 1997, quando o dono da revista, o incorporador imobiliário Mortimer Zuckerman, nomeou Harold (Harry) Evans para vice-presidente e diretor editorial do grupo, que inclui ainda o Daily News de Nova York.

“Não acho que ele tinha uma boa razão para fazer essa mudança. Mas é o dono, tinha todo o direito”, disse Fallows no dia 30 de junho, no memorando de despedida, de 19 páginas, que leu para o resto da equipe. “Se o dono e o editor ‘divergem’ sobre a orientação da revista, o que prevalece é o ponto de vista do dono”, afirmou ainda, resignado.

Mas o episódio também envolveu intrigas palacianas mal explicadas. Como fora derrubado dos cargos de presidente e publisher da editora (de livros) Random House antes de ser contratado por Zuckerman, Evans queria afirmar-se. Desde novembro tentava assumir a responsabilidade pela revista, provocando a especulação de que estava em rota de colisão com Fallows.

Consumada a demissão, ele próprio apareceu para se dizer no controle da situação. “Foi minha responsabilidade e foi minha decisão”, afirmou Evans à imprensa. “Não quero entrar em detalhes mas achei que era hora de mudar”. No que foi secundado pela voz do dono: “O cargo é do Harry, a responsabilidade é do Harry, a autoridade é dele”, disse Zuckerman.

Susceptibilidades de cúpula à parte, o próprio Fallows sugeriu que vinha divergindo profundamente de Zuckerman sobre a orientação da revista. E citou em particular o exemplo da “pouca” cobertura dada pela U.S. News ao assassinato do criador de moda Gianni Versace. Ao contrário do editor, o dono achou que o assunto merecia mais espaço.

Sem especificar o que via de errado em Fallows, Harry Evans anunciou o substituto – Stephen G. Smith, editor do National Journal (semanário sobre governo e política), ex-ocupante de altos cargos em Time, Newsweek e jornais. A promessa de Smith é a de “melhorar o formato e o desenho”, “mais ritmo, fotos, boxes e matérias mais curtas para ganhar a atenção do leitor”.

Certamente um projeto pouco ambicioso – muito aquém das expectativas criadas por Fallows em 1996, quando acabara de publicar o livro Breaking the News: How the Media Undermine American Democracy (Notícia em Primeira Mão – Como a Mídia Subverte a Democracia Americana), cujo conteúdo irritara grandes celebridades do jornalismo em Washington.

Era uma denúncia vigorosa precisamente contra o que Fallows chama de “jornalistas-celebridades” – aqueles projetados em especial pela TV e que acabam por prostituir as próprias opiniões, freqüentemente comprometidas pela confraternização promíscua com as fontes e com grandes corporações que os contratam para fazer palestras pelo país.

Também chamados pundits, eles hoje aparecem até em certos filmes de Hollywood, geralmente como eles próprios. É o caso, por exemplo, de Cokie Roberts (comentarista da rede de televisão ABC e da rede pública de rádio, NPR) e seu marido Steve Roberts, repórter especial e comentarista da ABC no rádio e do programa Washington Week in Review na rede PBS.

O exemplo dos dois, que ainda assinam juntos uma coluna sindicalizada, distribuída a dezenas de jornais, é apontado no livro quase como símbolo do comportamento pouco ético dos jornalistas-celebridades, que ganham bom dinheiro na profissão e ainda usam o status para fazer uma fortuna como palestrantes contratados graças à projeção conquistada na TV.

Antes mesmo de assumir o cargo de editor geral da U.S. News & World Report, Fallows tinha tomado a iniciativa de anunciar o afastamento de Steve Roberts, que fazia uma coluna na revista, e mais uma boa parte da alta cúpula da redação – inclusive o editor-executivo Peter Bernstein, o editor adjunto Christopher Ma e mais três editores-gerentes.

Para ele, eram “mudanças estruturais”. Achou conveniente fazê-las antes mesmo de assumir porque já conhecia suficientemente a redação e os profissionais, nenhum dos quais foi sumariamente demitido (todos receberam “pacotes financeiros generosos”, como explicou). Só o caso específico de Steve Roberts foi considerado traumático.

Valeram a pena os 23 meses de Fallows? “Estou tremendamente orgulhoso do que nós fizemos. Espero que vocês também”, disse ele no memorando de despedida. “Esta revista está muito melhor do que era há dois anos. O crédito cabe a vocês – e vocês têm também minha gratidão”. Mas em matéria de números, nada foi anunciado por Fallows ou pela direção da empresa. A circulação de U. S. News continua em terceiro lugar, com 2,2 milhões de exemplares por semana, abaixo de Time (4,2 milhões) e Newsweek (3,2 milhões). Diz Evans: “Não quero fazer qualquer crítica a Jim Fallows. É um jornalista de alto nível, que deu contribuição significativa para a revista. Em especial no recrutamento de redatores e editores talentosos”.

Ao contrário do que houve há dois anos, quando as mudanças dramáticas de Fallows eram acompanhadas com expectativa, a fase de Smith começa sem entusiasmo. Entende-se. Smith é igual aos outros. Fallows tinha biografia (passara os últimos 17 anos à frente da respeitada Atlantic Monthly), uma visão crítica do modelo atual da mídia e um projeto.

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