Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > CASA DOS ARTISTAS

Ulisses Mattos

Por lgarcia em 19/12/2001 na edição 152

CASA DOS ARTISTAS

"Tá ligado, big bróder?" copyright Jornal do Brasil, 16/12/01

"O índice de audiência será algo fantástico. E o tempo de duração não deve ficar no limite do horário previsto, não. Hoje, o último episódio de Casa dos artistas, do SBT, deve fazer a Globo conhecer a maior derrota na guerra da audiência desde 1984, quando foi massacrada pela extinta Manchete ao deixar a emissora transmitir sozinha o desfile das escolas de samba do Rio e obter uma média de 80% da audiência.

Naquele carnaval, não havia ninguém na concorrência controlando os passistas a cada minuto para vencer o embate com a Globo. Nesta noite, há. O mestre da sala de estar, Silvio Santos, vai comandar a cada instante o ritmo do programa, chamando votações, freando choros e incitando ânimos, de olho nos índices de audiência. E, como nos desfiles, periga a atração varar madrugada adentro. ??Deve ir até duas da madrugada. A intenção do Silvio é pegar o Fantástico e atropelar o No limite também??, diz um executivo envolvido no projeto, que, como o resto da equipe, prefere ficar no anonimato. Só para usar um termo popularizado por Alexandre Frota, vai ser uma coça, bróder.

Patrão – Toda a produção de Casa é muito reservada ao falar sobre o assunto, já que o programa é ??do patrão??. E como Silvio Santos crê que as surpresas são sua maior arma, ninguém ousa desobedecer, o que explica o fato de Casa dos artistas não ter sido divulgado até o dia do lançamento, em 28 de outubro – mesma data da estréia da terceira versão de No limite, na Globo. Na cabeça de Silvio, o que começou em segredo tem que terminar em mistério.

Até por isso, o público não tem idéia de como será a escolha do vencedor da competição, que levará o prêmio de R$ 300 mil (o segundo colocado fica com R$ 100 mil). Oficialmente, consta que os participantes não mais votarão entre si. Então os telespectadores terão que escolher entre Supla, Bárbara Paz, Alexandre Frota, Patrícia Coelho e Mari Alexandre em suas ligações? Não é por aí. ??Não posso revelar. Mas o público terá boas surpresas a cada rodada de votação??, diz o diretor de engenharia Alfonso Aurim, responsável pela adaptação da mansão para o programa. Ele, no entanto, sinaliza que o público não será chamado para votar apenas uma vez, ficando encarregado de eliminar artistas durante todo o programa.

Na reta final da corrida pelo prêmio, Supla, que tem como campanha sua paixão pela música – usaria o dinheiro para investir na carreira-, é o queridinho do público. Mas os outros finalistas arriscam estratégias para comover os telespectadores. Bárbara tem como plataforma sua dramática história pessoal: é órfã e diz que não consegue emplacar como atriz por causa das cicatrizes no rosto. Frota garante que usará o dinheiro para ajudar um menino com câncer. Mari Alexandre diz que estava desempregada e chora o tempo todo. E Patrícia busca o sonho da juventude classe média: independência financeira e projeção na carreira artística (ela é cantora, gente).

Chororô – Apesar da franca preferência do público por Supla, a mãe do criador da japa girl, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, estará na mansão para dar uma força ao filhão, de 35 anos. A produção de Casa dos artistas chamou parentes, esposas, maridos, namorados – ou qualquer outra categoria que desperte lágrimas nos participantes isolados do mundo há sete semanas – para assistir, escondidos num cômodo da mansão, ao desfecho da atração."

"A casa dos presidentes" copyright no. (www.no.com.br)l, 13/12/01

"Duzentas mil pessoas já responderam ao convite que a Globo espalhou por todo o país. Sim, querem ser convidadas para todas as festas. Sim, querem ficar com muita grana no banco. Sim, estão cansadas de participar do show de realidade sem ganhar nada por isso e querem repetir Supla. Virar a mesa. Entrar no jogo como o sujeito estabanado e sair dele abonado. Se as páginas de economia falassem do país real, pegariam as fichas de inscrição dos candidatos ao Big Brother Brasil e fariam um retrato de como vamos. Foi um ano trágico. Os economistas sérios vêem um 2002 pior. Inscreva-se.

A temporada se encerra neste domingo, exatamente no momento em que o SBT levar ao ar o último capítulo de Casa dos Artistas. A Globo estará mostrando no mesmo horário o desfecho de No Limite. Vai ser um surra ao estilo grego, homérica. Se no início do ano alguém dissesse que 2001 fecharia com as torres do World Trade Center no chão e a Vênus Platinada abalada por Silvio bin Santos, internariam. Como isso repercutirá em 2002 já está claro. A televisão vai repetir o gesto dos políticos no ano eleitoral e apertar mais forte a mão do populacho. Uma cesta básica para quem votar no governador do nordeste, R$ 300 mil para quem suportar o vizinho de quarto na casa dos anônimos, dos artistas e muitas outras que serão armadas nos estúdios.

Estamos preparados? Posso perguntar? O Brasil está preparado para ver o Brasil na TV?

Domingo passado, o ator Taiguara disse que tinha saído da Casa dos Artistas e passado pela Casa dos Bandidos, na periferia de São Paulo, onde tem amigos também. Um dos condôminos desta última, armado de vários calibres, teria se prontificado a, se fosse de interesse do Taiguara, dar um susto em Alexandre Frota e Mateus Carriére, condôminos da primeira. Achavam que os dois não tinham se comportado muito bem com o ator. Ao lado de Taiguara, no estúdio, estava o apresentador Sílvio Santos, que meses atrás teve uma filha seqüestrada e ele próprio ficou refém de um seqüestrador durante toda uma manhã. Riu-se.

Exatamente 30 anos depois de Amaral Neto, que ocupava aquele mesmo horário, na Globo, Taiguara voltava a mostrar a pororoca aos brasileiros. Não mais na forma estudantil das águas do Amazonas crescendo e destruindo tudo que encontram pelas margens. Mas a nova pororoca, tão urbanamente brasileira, do encontro harmonioso das águas da ordem e da desordem. Ninguém estranhou. Um ator, líder de audiência tão familiar e careta durante 45 dias, anunciando o orgulho de conviver tão íntimo da marginalidade – embora Taiguara tivesse tido a elegância civilizada de dispensar os bandidos de mais aquela tarefa em suas agendas conturbadas.

Não se assuste, não é uma ameaça. Mas os amigos do Taiguara voltarão em 2002. Vem aí o ruído sujo numa televisão que parece insuportavelmente sufocada pelos maneirismos tecnológicos, pela artificialidade dos estúdios, pelos roteiros discutidos na Casa de Criação e pela mão de força dos bonifácios e seus sobrinhos. Chegou a hora de respirar o perfume de outros manos e outras minas, tá ligado? O homem comum ganhou a parada do ibope e bagunçou a programação visual do Hans Donner. Quem diria? Barbara Paz, cheia de cicatrizes, locatária de um conjugado, órfã, solitária, tremendo sotaque gaúcho, tchê!, é a nova namoradinha do Brasil.

Pode ser que 2002 entre para a história como o ano em que o Brasil finalmente ouviu Cazuza e mostrou não a cara, que é um texto muito anos 80, muito arrumadinho para a televisão sem papas na língua dos novos tempos – mas pode ser o ano em que o Brasil mostrou os cornos. Os críticos, esses delicados, não vão gostar. Somos feios e quem viu os falsos inocentes do Teste da Fidelidade sabe mais: quanta deselegância! Falamos alto e quem viu o teste de conhecimentos gerais que os artistas se aplicaram na Casa do SBT percebeu: quanta ignorância! Mas estes heróis de 2001, mais aquele analfabeto que passou no vestibular, vão – estamos preparados? – permanecer no ar. O povo não é bobo de achar que a Globo o é. Sem a liderança das tardes de sábado, eternamente atrás do Gugu aos domingos, mordida em todos os pedaços da audiência, é hora de rasgar o script e inventar um modo próprio de falar com esse novo país.

Um ano eleitoral é, por princípio, de definição – e isso também vai forçar a televisão a se olhar no espelho, de preferência daqueles tão na moda que, sem que se saiba, têm uma câmera atrás. A crise da Globo é não refletir essa gente, seus valores e anseios. E, pelo que já se vê no horário eleitoral, os políticos vão repetir o mesmo erro. No momento em que sai vitoriosa uma televisão de ritos menos pomposos, onde artista e bandido estão liberados para se anunciar irmãos, os candidatos à presidência vêm para as urnas de 2002 ao cabresto das enganações marqueteiras. Estão, mais uma vez, na contramão do eleitor.

O ideal democrático do Brasil de hoje seria, 45 dias antes da eleição, trancar todos eles – a Roseana e o Lula, o Ciro e a Patrícia Pilar, Garotinho e a Marta Suplicy, o José Serra e a Heloísa Helena, mais o João Gordo e a Soninha – numa Casa dos Presidentes e passar esta novela da vida real em telão nas praças. Os políticos, tudo chapa branca, não ouviram a lição de Alexandre Frota e continuam ignorantemente frios. A chapa esquentou, senhores."

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