Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > ACADEMIA

Um autor e seus contos de bar

Por lgarcia em 22/08/2001 na edição 135

RELANÇAMENTO

O escritor mineiro Jeferson de Andrade relançou seu novo livro de um jeito diferente: fez um tour pelos bares de Tiradentes, MG, que promovia seu IV Festival de Gastronomia. No sábado, dia 25/8, o lançamento será mais tradicional: a partir das 17h, ele terá tarde de autógrafos na Livraria Spix e Martius, no Centro Cultural Yves Alves, na Rua Direita, 168.

A obra, originalmente lançada em 1978 pela Editora Codecri, a mesma que publicava O Pasquim, é o que Jeferson chama de "livro de bolso". Coletânea de contos, Um homem bebe cerveja no bar do Odilon é um deles e dá título ao livro. A mesma fotografia de Walter Firmo, consagrado profissional da imprensa brasileira, que ilustrava a capa na primeira edição, volta nesta edição de bolso, com projeto gráfico de Juliano Andrade, filho do autor.

Jeferson de Andrade é o autor de Anna de Assis ? história de um trágico amor, depoimento de Judith Ribeiro de Assis a respeito de sua mãe, Anna, e o pai, Dilermando de Assis, que matou o escritor Euclides da Cunha em 1909. O livro foi best-seller no país e, adaptado para televisão pela TV Globo, virou a minissérie Desejo, que teve nos papéis principais Vera Fischer, Tarcísio Meira e Guilherme Fontes.

Com a colaboração do jornalista Joel Silveira, Jeferson escreveu Um jornal assassinado ? a última batalha do Correio da Manhã, contando a história do jornal carioca fechado durante a ditadura militar. Em 1999, Jeferson de Andrade publicou Um peixe nada em minha memória. Escreveu também, entre seus nove livros publicados, um romance-reportagem que conta a história do Clube de Regatas Flamengo e retrata o comportamento de seus fanáticos torcedores. Com capa de Ziraldo, o título é Para sempre, Flamengo.

"Um homem bebe cerveja no bar do Odilon é uma história que ressalta a importância de um bar na vida de uma cidade", conta Jeferson. "Não é assim sem alguma razão que, para a divulgação do livro, o apoio venha da Cantina do Lucas, bar que é patrimônio cultural de Belo Horizonte." Jeferson precisou do patrocínio. "Infelizmente, as grandes editoras ignoram quase sempre o conto, que, alegam, não tem consumo", diz. "O jeito é voltar a apelar ao meio marginal, levando o livro para ser vendido em bares, bancas, mercados etc." Este não é, porém, um meio estranho a Jeferson. "Foi assim que uma geração de escritores começou na década de 70 a lutar pelo fim da ditadura militar", lembra. "Agora, é o recomeço, desta vez contra a ditadura implacável do capitalismo."

Mineiro de Paraguaçu, nascido em 14 de julho de 1947, Jeferson foi para Belo Horizonte. Depois, morou 15 anos no Rio de Janeiro e quatro em São Paulo. Voltou para Belo Horizonte em 1995.

Como escritor, estreou em revistas literárias no início da década de 70, publicando contos. Foi um dos organizadores do Manifesto dos Intelectuais contra a censura, em 1976, e fez parte da comitiva que esteve em Brasília para a entrega do documento ao ministro da Justiça da época. Como editor, lançou publicações mimeografadas em Minas Gerais. No Rio, foi editor de livros da Codecri, a editora do Pasquim. Passou para a Record em 1979, exercendo de junho de 1984 a dezembro de 1986 a função de editor de autores brasileiros.

De 1997 a 1999, escreveu crítica literária e fez reportagens culturais para o Estado de Minas. É editor e proprietário do jornal de bairro Folha do Padre Eustáquio, com circulação mensal na região noroeste de Belo Horizonte. "O único espaço explícito na minha história é o bar do Odilon", conta ele. "Mas a cidade está implicitamente presente em todos os momentos do transcorrer da narrativa."

(*) "Um homem bebe cerveja no bar do Odilon", 24 páginas formato 11 x 13, R$ 3,50. Página Aberta Editora. Informações: (31) 3411-8303 ? 031-9112-6852 (Editora); (31) 3222-1070/9967-5569 (Simone); e-mail: <jefersonandrade@hotmail.com>

ACADEMIA

"O jornalista Joel Silveira, 82 anos, sabe que tem poucas chances de conquistar a vaga de Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras. Mas, para este sergipano, que gosta de repetir que sempre foi ?meio esquerdinha?, vale a máxima segundo a qual o importante é competir. Ou melhor, confundir. ?Quero mesmo é atrapalhar a festa dessa literata de terceira ordem. Não é possível que ela seja a única candidata. Zélia Gattai nunca foi escritora e só conseguia lançar livros porque o Jorge Amado levava os originais dela para a editora?, afirma o jornalista, com 60 anos de carreira e prestes a lançar seus 39? livro, Memórias de alegria.

A candidatura de Joel Silveira à cadeira de número 23 – que foi de Machado de Assis e José de Alencar – já conquistou, pelo menos, um voto. Acadêmico desde 1986, o escritor Lêdo Ivo acredita que o nome do jornalista honra a casa fundada há 103 anos e afirma que nunca houve unanimidade em torno do de Zélia Gattai, viúva do escritor baiano morto no último dia 6. ?Não é aceitável que as eleições na ABL sejam monitoradas pelos suplementos culturais dos jornais. A academia é a instituição mais importante do país e tem seus próprios critérios literários e estéticos. A cadeira de um imortal não faz parte dos bens dele e não deve estar na herança.?

? Lêdo Ivo lembra que não é a primeira vez que um parente reivindica a vaga de outro. ?As viúvas do Clóvis Bevilacqua e do José Honório Rodrigues tentaram a mesma coisa. A filha do Dias Gomes também.? Para ele, Zélia poderia se candidatar a qualquer cadeira, menos à de Jorge Amado. ?A ética condena essa atitude?, afirma o escritor, que abriria mão de seu voto se Zélia Gattai fosse candidata única. ?A academia vai ficar incompleta sem um escritor como o Joel Silveira. Trocaria toda minha obra por um ponto-e-vírgula dele. Ele tem o meu reconhecimento e o meu voto.?

Joel Silveira diz não contar apenas com o apoio de Lêdo Ivo. ?Outros acadêmicos me procuraram, mas prefiro não revelar os nomes?, conta o jornalista, que há quatro meses, na última eleição ocorrida na ABL, retirou sua candidatura em benefício do jurista Raimundo Faoro. ?O Raimundo merecia esse gesto. Também não disputaria com o Rubem Fonseca, que é um escritor muito melhor do que eu?, reconhece ele, que não abriria mão de enfrentar o escritor Paulo Coelho, por exemplo. ?Ele é esquisito, mesmo assim tem mais chances do que a Zélia. Não gosto do que ele escreve, mas não dá para negar os méritos de um autor lido em mais de 70 países.?

? Jorge Amado, no entanto, não merece o reconhecimento do jornalista. Admirador do escritor baiano na juventude, Joel Silveira conta que sofreu uma grande decepção quando trabalhou com ele em 1939. ?Ele me chamou para escrever em um jornal financiado pelo governo alemão. Mas, ele recebia o dinheiro dos alemães e não pagava a gente?, acusa.

O jornalista também despreza o estilo literário de Jorge Amado. ?Ele escrevia sobre as mesmas coisas: os bordéis, as prostitutas, os coronéis.? Joel lamenta, ainda, que o escritor baiano tenha mudado em outro aspecto de sua vida. ?A primeira mulher dele, Marieta, era linda e bem-humorada. Não sei o que ele viu nessa tampinha da Zélia. Tenho raiva da arrogância dela, desse sentimentalismo barato com molho de acarajé.?

Apesar de anunciar que entrou na briga só por consideração aos acadêmicos e insistir que ?não seria justo que eles ficassem sem opção?, Joel admite que adoraria freqüentar as reuniões da ABL. ?Tenho amigos ali. Gosto de ver os livros e de conversar. Com mais de 80 anos, continuo forte e fazendo minhas molecagens.?"

    
    
              

Mande-nos seu comentário

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem