Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

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Um circo de comoções

Por lgarcia em 20/10/2000 na edição 100


Clayton Sales (*)

Numa madrugada de insônia dessas, ligo minha televisão à procura de algo que me desencadeie uma nova vontade de dormir. De repente, o controle remoto aponta para a TV Record, mais precisamente no programa Fala que eu te escuto. O mote do debate daquela edição era o caso Rodriguinho, cantor do grupo de pagode Os Travessos, cuja voz estava ressoando com límpida claridade na gravação em fita cassete de um telefonema entre ele e sua ex-mulher. Alguns trechos do diálogo são arrepiantes, como a ameaça por parte do músico de tirar o filho dele que ela estava esperando, nem que tenha que "enfiar a mão lá dentro e arrancar fora", além de outras pérolas dignas do grande mentecapto da atual barbarização da TV brasileira, o apresentador Carlos "Ratinho" Massa.

Em seguida, a produção exibiu trechos do programa dominical do SBT líder absoluto de audiência Domingo Legal, capitaneado pelo eticamente questionável Augusto Liberato, em que o pagodeiro estava passando por uma espécie de ritual macabro de repurificação de seus atos, o mesmo espetáculo em forma de tribunal que absolveu o vocalista Alexandre Pires, ébrio motorista do carro que atropelou um pedreiro, provocando sua morte.

O que desencadeou esse vagalhão urgente de bajulações sobre Rodriguinho foi a publicação de matéria num jornal de São Paulo, sob o título Cantor compra Ferrari para a namorada e deixa filho sem cama, referência ao fato de este namorar uma bailarina e ao mesmo tempo negar ajuda ao filho não-abortado pela mãe. Daí por diante, a via-sacra do superficial perdão teleguiado já é conhecido por todos os que têm um mínimo de senso crítico sobre a televisão: as poderosas corporações fonográficas, que detêm os direitos sobre o trabalho e até sobre as vidas desses rapazes e moças, geralmente oriundos da classe média baixa da sociedade, articulam-se com todos os pontos estratégicos da mídia e das agências de publicidade, preferencialmente os de maior alcance bruto junto à população consumidora.

Vidas reveladas

Os mais visados são o já citado Domingo Legal, do SBT, Domingão do Faustão, da Globo, e tantas outras rádios, que compõe um coeso esquema de manipulação da notícia, do fato em si, transformando-o num circo de comoções e de desfiguração completa das feições da verdade. É um bombardeio de recursos tecnológicos no desígnio de provocar a lágrima com a linda história de família de um criminoso, como foi com Alexandre Pires, que, após a divulgação do acidente pela imprensa, coincidentemente passou a aparecer na TV ao lado dos pais e dos irmãos, sugerindo, nas entrelinhas, que o pobre pedreiro assassinado era um coitado sem procedência familiar alguma.

Não se pode desprezar o poder e a influência das gravadoras sobre as grandes mídias quando seus protegidos são alvo da exposição jornalística, em virtude de seus desvios de caráter, opiniões desastradas ou crimes comuns. São milhões de dólares que o mercado fonográfico movimenta por mês no país, configurando um fluxograma que abrange direitos autorais, prensagem de CDs, agenciamento de shows, publicidade, vendas e os já disseminados "jabás" em rádios comerciais.

No entanto, surge a pergunta: se um artista apadrinhado por uma dessas indústrias é manchete de comprometedores noticiários, não é interessante para os concorrentes que sua execração ocorra? Assim o terreno não fica livre para a sua atuação? A resposta para essas indagações trafegam por dois pontos fundamentais. A população consumidora não associa cantor, cantora ou conjunto a um selo, mas a um gênero musical como um todo, o que é uma discussão ainda muito latente no país. Dessa forma, o efeito-dominó prevalece: se um pagodeiro sucumbe a uma denúncia, não é a sua madrinha fonográfica que sai em prejuízo, mas todos os integrantes do contexto musical em voga, o que contempla artistas de várias outras gravadoras. Em função disso, emerge o segundo fator decisivo.

Os artistas desses selos são pessoas públicas cujas vidas se tornam convenientemente reveladas, guardadas as restrições aos aspectos negativos. Eles têm a obrigação de despontar como baluartes da perfeição incontestável. Tal indumentária também impulsiona as vendas, já que a população consumidora precisa cada vez mais de ícones instantâneos da bondade, num mundo em que o desenvolvimento da história é gradativamente mais acelerado. Se essa máscara se desprende do seus rostos bem maquiados, algo de urgente tem que ser feito, sob pena de proporcionar danos não a uma gravadora, mas a todo o maquinário industrial que mantém determinado gênero em permanente estado de sucesso.

E lucros, é óbvio.

Inocências ratificadas

Feitas essas colocações, obtidas após empenhadas observações e baseadas nas minhas poucas, mas frutíferas experiências em rádio e música, gostaria de levantar a questão nevrálgica que assola esta mente atordoada pela falta de escrúpulos das mídias em amistoso acordo com a indústria fonográfica: por que o trabalho jornalístico, em alguns veículos, está sendo aos poucos e discretamente empurrado para dentro desse sistema nocivo? A apuração da verdade se torna completamente ofuscada quando algum pupilo de grande selo é pauta de editoria policial, sob acusação de crimes cometidos e comprovados ou declarações confessas que ferem os direitos humanos.

Uma possível resposta resvala sobre a credibilidade que os produtos do jornalismo televisivo aparentam começar a desfrutar junto à população consumidora. As pessoas no país estão mais aderentes à mensagem dos telenoticiários dos maiores meios de comunicação, já que estes oferecem a informação com um tratamento já construído, sem abrir margens à estimulação do imaginário e, conseqüentemente, do questionamento e da formação de opinião. Para o telespectador, a verdade exibida é aquela e pronto, porque está ao seu alcance, num país de educação deficitária e privilegiada.

Esse é um artefato muito atraente para grandes esquemas que almejam ampliar suas frentes de defesa, tanto que Augusto Liberato introduziu no seu programa uma espécie de quadro, o qual ele chama de jornalismo, mas que na verdade se traduz numa distorção, haja vista o episódio em que Alexandre Pires recebeu telefonemas solidários de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Ou em que Rodriguinho confessa ter dito o que ficou patente na tal cassete e reafirma sua posição de batalhar judicialmente pela guarda do filho, hoje com 4 anos, de pagar a pensão legalmente estabelecida, coisa que admitiu não fazer, alegando que na época em que foi promulgado ganho de causa da mãe ganhava apenas R$ 500. O auditório do programa aplaudiu incansavelmente. A grande platéia externa ratificou sua inocência e sua dignidade.

Tribunal ameaçador

O jornalismo é detentor do papel essencial à sociedade de prestar o serviço de informar e fornecer subsídios sólidos para a formação da opinião. A ressonância, a contrapartida ou o retorno se contextualiza (ou deveria ser assim) na permanente vigilância sobre os órgãos públicos, pessoas públicas, cumprimento das leis e, principalmente, a justiça e a cidadania. Bem como a própria sentinela sobre a imprensa, o que tem sido enfaticamente desprezado, à exceção do Observatório da Imprensa, um oásis de sapiência, que foi hostilizado pelo pomposo e nababesco império Abril, mas que continua heroicamente cumprindo suas obrigações éticas.

O jornalismo não pode entrar nos organogramas mercantis das grandes gravadoras, sob pena de provocar efeitos devastadores nos valores da sociedade, principalmente, na juventude. É tenebroso imaginar vários pequenos "Alexandres Pires" cometendo crimes fatais previstos no Código Nacional de Trânsito e no Código Penal argumentando o mau exemplo de alguém que foi ovacionado pela mídia de Augusto Liberato ou de Raul Gil como atenuantes, pisoteando friamente na própria humanidade. Pois, no meu ponto de vista, a situação é preocupante.

Além dos tribunais do homem sob os auspícios da lei e de Deus sob os mandamentos do bem, está estampado na televisão brasileira o tribunal da megaindústria fonográfica, que pode destronar a soberania, tanto de um como de outro. Isso sim pode tirar o sono já abalado da sociedade.

(*) Jornalista, radialista e músico de Campo Grande/MS

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