Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > SALA DE AULA

Um dia na vida de um doutorando do interior

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

SALA DE AULA

Pedro Celso Campos (*)

Que chato, ele não conhecia São Paulo.

Mas vibrou de emoção quando seu nome piscou na tela do computador entre os aprovados na seleção do doutorado em Jornalismo oferecido pela Escola de Comunicação e Artes da USP.

Morava em Bauru, a 350 km de São Paulo, cerca de 4h30 de ônibus e mais uma de metrô e ônibus urbano até chegar à ECA.

Lutara muito pela vaga e agora faria com gosto o percurso de 20 horas semanais, entre sair de casa bem cedo, toda terça-feira, e voltar na quarta de madrugada. Fez as contas rapidamente, e concluiu que o custo mensal não seria inferior a R$ 500, fora despesas com livros e itens afins.

Mas era necessário.

Principalmente porque fora aceito na disciplina que mais desejava cursar, Jornalismo Literário Avançado e Histórias de Vida, com o professor-doutor Edvaldo Pereira Lima, nome obrigatório na bibliografia de qualquer plano de ensino de Jornalismo nas melhores universidades do país.

Assim, não importava se conhecia São Paulo ou não (na verdade, estivera algumas vezes na cidade, rapidamente, muitos anos antes, mas tudo muda tanto…). Não importava se a bolsa-deslocamento da Unesp é só para aluno regular, ou o exagero dos programas vespertinos de "showrnalismo", sempre focados no pior da cidade, como o trânsito, os furtos na Sé, na República, a pancadaria entre fiscais e camelôs na 25 de Março, o desespero de dois milhões de desempregados, a violência nas favelas, a corrupção na polícia, a galinhada na prefeita… tinha que ir a São Paulo toda terça-feira e ponto final.

Aberturas sensacionais

Tudo isso, apesar dos 54 anos de idade, sempre causava alguma emoção. Afinal, quem disse que emoção é só para adolescentes?

Por isso foi dormir mais cedo na primeira segunda-feira anterior ao início das aulas, num dia qualquer daquele mês de agosto. Antes consultou a internet pela última vez, temeroso de que a greve dos professores da USP contra a Reforma da Previdência pudesse adiar o início do semestre.

Ao lado da cama deixou a roupa arrumada porque não queria incomodar ninguém ao sair, logo cedo. Decidiu levar só os documentos principais, vai que perdesse algum… A indumentária incluía um sapato novo em homenagem ao momento de alegria pessoal. Não pensou o que poderia significar um sapato novo em viagem longa, mesmo sendo um bom sapato…

Traído pela ansiedade, chegou cedo ao ponto de ônibus da Av. Nações Unidas, em Bauru. O sapato já começava a incomodar após a caminhada de 15 minutos até ali. Esperou mais de meia hora. Foi um alívio tirar os sapatos e recostar-se na poltrona macia rumo a São Paulo. Ao seu lado uma senhora estudava lições de inglês… imaginou que seria uma professora. De fato, saltou no meio do caminho, e era aguardada na zona rural por uma van escolar.

Aproveitou a viagem de pouco mais de quatro horas para reler O velho e o mar, de Hemingway. Afinal, estava a caminho de uma aula de doutorado de Jornalismo Literário Avançado (JLA), e o repórter Ernest Hemingway ? estimulado por Scott Fitzgerald na primeira metade do século 20 e admirado por Gabriel García Márquez na segunda metade ? foi um fenômeno de narrativa agradável e simples.

Não desgrudou do livro um só momento, e terminou a leitura já nas proximidades do Terminal da Barra Funda. Aí começou a correria para "achar o rumo" no metrô. Sabia como fazer. Tinha que pegar o trem para a Sé, depois para a Estação Paraíso, depois para a Consolação e aí esperaria o ônibus da Cidade Universitária. Assim conseguiu chegar à USP uma hora antes da aula. Dava tempo de almoçar. O sapato novo já fazia calos e foi uma boa caminhada para acabar de chegar à ECA…

O professor, muito culto como todos os professores com pós-doutorado no Canadá, leu algumas aberturas sensacionais de repórteres famosos e citou outros, como os americanos Gay Talese, John Reed, Jack London, o próprio Hemingway, Joseph Mitchell, o cubano José Martí, o colombiano Gabriel García Márquez, os brasileiros João do Rio, Euclides da Cunha, David Nasser, Joel Silveira, e nomes atuais como João Moreira Salles (documentarista), sem esquecer a criatividade de Steven Spielberg e George Lucas, fãs da psicologia de Young e dos estudos mitológicos de Joseph Campbell na produção onírica de filmes maravilhosos.

Relaxados, receptivos

Citou momentos inesquecíveis do Novo Jornalismo dos anos 1960 no Brasil, como a revista Realidade e o Jornal da Tarde; também lembrou O Cruzeiro, dos anos 1970… sempre mostrando que jornalismo literário é emoção e criatividade sem fuga da realidade. É uma narrativa capaz de nos levar a sonhar acordados. É compreender o mundo a partir da Teoria Gaia, segunda a qual nada existe isoladamente, tudo está interligado: homem/natureza, concreto/implícito, parte/todo, feminino/masculino, terra/água… como nos "pares de opostos" que formam a base da criação mítica. Ou a combinação binária que possibilita ao homem, desde o ábaco, multiplicar ao infinito sua capacidade de pensar, criar, refletir e tentar buscar uma lógica para a grande angústia do "quem sou, de onde venho, para onde vou".

Ouvindo o mestre falar com tanto entusiasmo sobre as possibilidades do jornalismo literário na proposição de um mundo melhor e mais justo, na mudança da realidade sórdida que os últimos 300 anos de capitalismo nos legaram, lembrou-se da entrevista de Bill Moyers com Campbell no Rancho Skywalker, de George Lucas, em 1985… A certa altura eles discutiam a "eternidade", e Campbell dissera: "O problema com o paraíso é que você vai ter uma vida tão boa que sequer vai pensar em eternidade. Você vai simplesmente experimentar o interminável deleite, na visão beatífica de Deus. Mas experimentar a eternidade aqui mesmo, agora, em todas as coisas, não importa se encaradas como boas ou más, esta é a função da vida."

Fazia todo o sentido o que o professor dizia.

Nós, na área acadêmica, estamos sempre criticando o jornalismo, e achamos que Adorno e os frankfurtianos se remexeriam na cova se pudessem ver "programas" de jornalismo como o antigo Aqui, Agora, ou Cidade Alerta… Aí, sim, a dialética negativa contaminaria toda a escola. Mas não basta criticar. É preciso propor. E a proposta de JLA pode ser a saída, tanto assim que já vem sendo retomada nos EUA, onde se expressa em edições temáticas dos grandes jornais nos fins de semana, ou de revistas, de livros-reportagem, nos quais se pode pelo menos sonhar com outra realidade, com outro mundo, com outro jornalismo. Um jornalismo em que o ser humano é um "todo incluído", não um objeto destinado a consumir o que noticiamos burocraticamente, um ser alienado pela indústria cultural na medida em que recebe tamanha carga de informação ? como bem lembra Leão Serva em Jornalismo e desinformação ?, cada vez mais perdido, inseguro e desinformado.

No fim o professor colocou em prática sua visão holística ? seguindo o ensinamento de Vieira sobre o falar e o fazer ?, buscando harmonizar os 20 alunos que se viam pela primeira vez, naquela primeira aula. Pediu que todos fechassem os olhos, ficassem relaxados, receptivos, deixando o pensamento rolar enquanto a classe era tomada pelos agradáveis acordes de uma música clássica.

Achada e perdida

Mas o nosso professor universitário do interior não conseguia curtir a música por causa do sapato apertado, e ficou torcendo para que o mestre não indagasse o que cada um havia "experimentado" naquele instante.

Terminada a aula, já no início da noite, correu para a biblioteca com outros colegas para providenciar os livros recomendados. Depois, seguiu de ônibus, por uma hora exata, através do trânsito engarrafado, até a Praça da Sé. Daí, em poucos minutos de metrô, estava de volta ao Terminal da Barra Funda para tomar o ônibus das 21h15, que o deixaria no mesmo ponto da Av. Nações Unidas, em Bauru, à 1h30 da madrugada… e caminharia os 15 minutos finais até em casa, no Jardim Brasil… apesar dos calos.

A viagem de volta era a parte pior, embora estivesse feliz pela oportunidade do curso na USP. E o pior de viajar à noite de ônibus não são as poltronas apertadas, nem o cansaço natural do dia estressante, nem a impossibilidade de ler com a fraca luzinha que só incomoda os vizinhos: a viagem parece mais comprida… Rapidamente, porém, as luzes de São Paulo vão se apagando na janela panorâmica. Já na escuridão da estrada, o motor roncando serenamente, o ônibus vai veloz, parece comer pedaços da noite, sem tempo de mastigar… mas, eu ia dizendo, o pior da viagem de volta é o celular.

Ao mesmo tempo em que esse aparelhinho veio facilitar tanto a vida da gente, também virou uma praga incômoda e um exemplo raro de invasão de privacidade. Não a privacidade de quem está falando (muitas vezes, coisas particulares), mas a privacidade de quem tem o direito de não ouvir. É como acontece com o dependente do cigarro, que obriga o não-fumante a participar passivamente do vício.

As conversas no celular são dolorosas. E lhe chegam aos pedaços. Na frente: "Você viu se ele assinou corretamente o cheque? Então deixa ele se ferrar… pode reapresentar", berra um homem. Do lado: "Não, mãe, se eu comer alguma coisa na parada do ônibus não vai precisar nada. Mesmo assim deixa sobre o fogão", diz a mocinha. Atrás, entre risinhos: "Isso eu não deixo, até o papa já falou que não é certo… só se você insistir muito"…

Ah! O celular… nada tão moderno e tão antiquado ao mesmo tempo, ícone de uma sociedade que mais se perde quanto mais se acha, mesmo quando a pessoa tenta "falar baixinho", como se fosse possível evitar a invasão do outro.

Páginas ampliadas

Tentou se desligar daquela chateação e, mirando uma estrela fixa no céu, aproveitou para repassar, na "ágora virtual" da mente ? lembrando a expressão de Pierre Lévy no estudo do hipertexto ?, a aula do professor. Devia ter anotado mais… "Não existe história desinteressante", dissera. "O que existe é texto mal-escrito." Onde há uma vida ? humana ou não ? há uma história interessante. Imaginou: se Hemingway escreveu uma das mais interessantes histórias do século 20 sobre um pescador cubano que levou três dias para pescar um só peixe no mar de Havana e chegou à praia apenas com os restos deixados pelos tubarões, por que não conseguiria uma boa história também?

Mas, trabalhando em Bauru ? como professor da Unesp ? e estudando em São Paulo, onde arranjaria tempo para se enfiar sob um viaduto, por três noites, para escrever A história dos meninos de rua? Ou como entraria num presídio para produzir algo como Estação Carandiru? E se ouvisse histórias sobre os imigrantes japoneses que se matavam no interior do Brasil para provar que o Japão não perdera a guerra, e escrevesse Corações sujos? Mas tudo isso já tinha sido feito pelo Gilberto Dimenstein, pelo Drauzio Varella e por Fernando Morais. "Na falta de uma história de vida melhor, talvez eu escreva a minha própria, que já está de bom tamanho com todas essas viagens semanais", pensou.

Quando chegou em casa moído, os pés doendo, a cabeça rodando, caiu na cama, dormiu logo, profundamente, e sonhou:

Empurrou a porta devagar. Estranho… onde estavam os alunos? Tudo muito branco… não, havia uma espécie de bruma… uma luz, música clássica… será que já estava na eternidade, com Campbell? E como Campbell podia saber como era a eternidade? Sentia-se cansado. Já estaria de novo na ECA? Mas, pensou, como se pode ir de Bauru à ECA sem todo aquele ritual do ônibus, do Hemingway, dos celulares, do metrô, do ônibus da Consolação, dos calos nos pés… pior, sem ter feito a tarefa pedida pelo professor? Não, não é possível… sem o ritual a vida não tem sentido, fica vazia, o ritual faz parte… Sentou-se numa cadeira e balbuciou algumas palavras em direção à luz: "Tem alguém aí? Quem é você?"

Para sua surpresa, a voz respondeu com a serenidade de páginas ampliadas:

? Meu filho, eu sou Edvaldo Pereira Lima e a aula já vai começar.

(*) Jornalista, professor de Jornalismo da Unesp-Bauru, mestre; aluno especial do doutorado em Ciências da Comunicação/Jornalismo da ECA-USP

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