Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > JACQUES FAUVET (1915-2002)

Um maestro do Le Monde

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

JACQUES FAUVET (1915-2002)

Leneide Duarte, de Paris

Um jornal é o resultado da qualidade dos homens que o fazem. Por isso, o jornal Le Monde teve no jornalista Jacques Fauvet o sucessor ideal do fundador Hubert Beuve-Méry, que criou o diário no fim da Segunda Guerra. Morto em 1? de junho, aos 87 anos, Fauvet era um patrimônio da cultura francesa e seu enterro teve honras militares devidas a quem, como ele, havia sido condecorado com a Grande Cruz da Légion d?Honneur.

Beuve-Méry já via em Fauvet um sucessor desde 1958, quando o nomeou editor-chefe adjunto. E, em 1969, Fauvet já era suficientemente experiente para assumir a direção do jornal, no qual ingressara logo depois da fundação, em 1945, na editoria política, que começou a chefiar em 1948.

Quando sucede a Hubert Beuve-Méry, Fauvet não procura fazer um novo estilo de jornal. Ao contrário, ele sabe que o prestígio e a autoridade do Le Monde são uma conquista de seu fundador. Por isso, Fauvet continua na mesma via.

Símbolo da "imprensa de idéias e de opinião", como lembrou Jacques Chirac em suas palavras de elogio fúnebre, como jornalista engajado Fauvet combateu Giscard D?Estaing cujo poder ele acusava de ter-se tornado "mais presidencial, mais centralizado e, portanto, mais pessoal".

Em François Mitterrand, Fauvet depositava sua confiança para modernizar a sociedade francesa e devolver aos cidadãos um poder que, segundo ele, a direita lhes havia confiscado. Essa confiança nos socialistas, no entanto, não o cegava. Ela marcava um engajamento na defesa de valores por longo tempo desprezados.

No perfil que traçou do segundo diretor de redação do Le Monde, o atual diretor Jean-Marie Colombani destacou o amor pelo detalhe que faz o rigor da análise política, além da "curiosidade generosa". Seu estilo límpido na explicação dos jogos complexos da IV República, além do rigor na informação, fizeram de Fauvet uma leitura obrigatória. Nenhum parlamentar podia passar um dia sem ter lido seu texto. Um partido político (o MRP) chegou a tentá-lo com uma proposta de uma carreira política, que ele recusou para continuar jornalista.

O diretor de redação sempre estimulou seus jornalistas a utilizarem a grande arma que mexe com o jornalismo acomodado e é a alma de um jornal: a reportagem, a busca de versões do fato e a construção do texto. Enfim, a matéria-prima do jornalismo. Foi sob sua gestão que Le Monde ampliou suas grandes reportagens ao redor do mundo

Fauvet foi, assim, quem abriu o jornal para a modernidade, sem preconceitos nem cálculos. Ao mesmo tempo, ele preservava com determinação ímpar a paixão pela liberdade de informar, como lembra Colombani.

Foi também Fauvet quem levou o jornal ao crescimento de sua tiragem oferecendo a uma juventude ávida por informação uma moral política e social, ao mesmo tempo que lhe fazia sentir o gosto da modernidade no campo intelectual. Ele criou novas editorias, novos suplementos de economia, literatura, ciências. Le Monde deixou de ser um jornal de uma pequena elite para tornar-se o maître à penser e a fonte de informação principal de um grande público.

As causas da liberdade sempre foram as causas do jornal sob a direção de Fauvet: a luta pela abolição da pena de morte, aprovada pela Assembléia Nacional em 1981, o combate pela liberdade sexual na campanha pelo aborto e a defesa da liberdade de expressão.

Autor de vários livros, Fauvet escreveu uma história do Partido Comunista em colaboração com o jornalista Alain Duhamel.

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