Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > FERNANDO DE BARROS (1915-2002)

Um mestre, na moda e na vida

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

FERNANDO DE BARROS (1915-2002)
(*)

Ricardo A. Setti (**)

É possível combinar marrom com azul? Calças jeans vão bem com paletó e gravata? E meias brancas, combinam com o quê?

Você tem em mãos um livro que responde, com elegância e brilho, a essas e a outras centenas de dúvidas comuns a todos os homens que, pela manhã, diante do espelho, enfrentam o desafio de se vestir. Mas o leitor perceberá claramente que este livro é produto de outra seqüência de combinações, muito mais transcedentais. No jornalista e escritor de moda da Playboy Fernando de Barros, seu autor, coexistem, no trabalho como na vida, o clássico e o moderno, a elegância e a simplicidade, a experiência e a ousadia.

Um clássico: senhorial, escreve seus textos à mão, com uma esferográfica Montblanc, preta, de tinta preta. Mas moderníssimo ? antes das principais revistas do país, lá estava ele na internet, com a newsletter Informe Fernando de Barros. Elegante, ele se pauta na vida pelo comedimento. A certa altura do livro, ao falar sobre tecidos de luxo, recomenda: "Como tudo que indica um certo exagero ou afetação, é bom evitar". De extremo bom gosto à mesa, é, no entanto, frugal, a ponto de manter o mesmo peso há cinco décadas, com o corpo sempre à vontade em ternos manequim 48 levemente ajustados na manga do paletó. Do alto de sua experiência, nunca se acomodou ? viaja, provavelmente, mais que todo o restante da redação de Playboy somada. Tampouco deixou de inovar: há muito tempo, para uma matéria sobre roupa masculina de inverno, inventou de fazer um modelo saltar de avião em vôo livre, num traje completo, do blazer de lã à gravata, só abrindo o pára-quedas depois de feita a foto.

Não é por acaso que todos o chamam de Mestre na redação da Playboy, à qual, direta ou indiretamente, Fernando Policarpo de Barros e Silva tem estado ligado desde sua fundação, em 1975. É dele a primeira capa, em agosto de 1975, quando a revista ainda se chamava Homem. De lá para cá, o Mestre fez e aconteceu, dentro e fora da Playboy, produziu ensaios de nu, escreveu, proferiu incontáveis palestras e seminários para homens de negócios, estudantes e profissionais de moda nos quatro cantos do país e no exterior, foi diretor de redação da excelente revista Cláudia Moda, cobriu centenas de desfiles de moda em Paris, Nova York e Milão, tornou-se amigo de dez entre dez grandes estilistas internacionais (principalmente de Pierre Cardin), e continuou influenciando com vigor a moda brasileira, da qual foi um dos inventores.

Casamentos vários

"A história da moda no Brasil confunde-se com ele, que é a figura mais importante da área no país", disse do Mestre o ex-diretor-presidente da Staroup, André Ranschburg, num perfil que o jornalista Carlos Maranhão escreveu para Playboy, em 1989. Era verdade antes, continua sendo verdade hoje. Até os anos 60, lembrou na mesma reportagem de Maranhão outro André, o Brett, então na Vila Romana, hoje da Emporio Armani, "o brasileiro era um dos homens mais mal vestidos do mundo. Fernando então começou a mudá-lo pouco a pouco, dando-lhe mais alegria e vivacidade".

Ele tem credenciais de sobra para isso, inclusive porque alegria e vivacidade estão entre suas marcas pessoais e intransferíveis. Até hoje não se sabe o que é mais difícil ? vê-lo de mau humor, desinformado ou sem paletó. Ativo, curioso, dotado de múltiplos interesses, nem adianta alguém da redação tentar lhe contar uma novidade importante: como acorda cedo, lê muito e conhece gente de todos os setores, ele está sempre inteirado de tudo, antes que os demais. Por isso, não pensem que é autoridade só em moda: há seis, sete anos [ano de referência: 1996], quando nem sequer alguns bons jornalistas de economia falavam em globalização, esta já era uma de suas preocupações. Foi ele, também, um dos primeiros a perceber que a China engolia mercados de outros países e iria se tornar o colosso industrial e comercial que hoje aí está. A atual migração do emprego industrial do Sudeste para o Nordeste? O Mestre captou o embrião do fenômeno quando todo o mundo se preocupava apenas com a inflação.

Para tudo isso, contou sua diversificada, fértil trajetória. O mais velho dos três filhos de um abastado comerciante de Lisboa, Fernando foi criado numa quinta de 27 cômodos, três andares e um séquito de empregados, mas antes dos vinte anos já tinha abandonado a possibilidade de multiplicar os milhões do pai em troca de um emprego como claquetista de estúdio de cinema. Também escrevia na imprensa portuguesa. No cinema, foi um pouco de tudo, de maquiador a produtor. Terminaria, em 1951, produtor-geral daquilo que mais próximo o Brasil teve de Hollywood ? os estúdios Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista. Ia trabalhar num imponente Jaguar azul metálico, que singrava a Via Anchieta sem preocupações com a Polícia Rodoviária: vários guardas eram figurantes de seus filmes. Fez vinte ? e com tal qualidade que ainda em 1966 o jornal Le Monde estava elogiando sua obra. .

Obra que, além de vasta, é variada. Fernando não diz quais são seus filmes preferidos, mas gostou especialmente de ter feito Appassionata (1952), com Tonia Carrero e Anselmo Duarte, e Riacho de Sangue (1966), com Alberto Ruschel e Gilda Medeiros, seu primeiro trabalho em cores. Pouca gente sabe que ele dirigiu um dos episódios do célebre As Cariocas (1966), com Walter Foster e Norma Bengell, e que foi também produtor de filmes como Tico-Tico no Fubá (1951), de Adolfo Celi, e O Homem Nu (1967), de Roberto Santos. Ele se multiplicou ainda como roteirista, dono de uma distribuidora e crítico de arte no jornal Última Hora, de São Paulo. Foi o cinema, aliás, que o trouxe ao Brasil, em 1939, para dar assistência à produção de um filme baseado no romance Pureza, de José Lins do Rêgo. Veio para passar alguns meses, acabou adotando o país, sem nunca perder de todo o sotaque lisboeta. Primeiro no Rio, depois em São Paulo, formou um florido elenco de amigos e um não menos invejável de namoradas. Dividiu um apartamento com Jorge Amado e o artista plástico Carlos Scliar na Urca, nos anos 40. Convenceu um advogado chamado Paulo Autran a tornar-se ator profissional. Privou com escritores como Érico Veríssimo e Rubem Braga, barões da imprensa como Samuel Wainer e Assis Chateaubriand (e potentados de outras áreas, como o banqueiro Walther Moreira Salles), pintores como Pancetti, Rebolo, Portinari. Lançou para a carreira artística uma jovem deslumbrante chamada Marlinha Thiré, que passou a adotar o nome de Tônia Carreiro. Casou-se "cerca de dez vezes", calcula, inclusive com as atrizes Maria Della Costa (de papel passado), Marisa Prado (no México) e Odete Lara.

Humor e aplomb

Suas amizades no cinema chegaram ao ponto de representar, em Hollywood, o diretor Anselmo Duarte e o produtor Oswaldo Massaini, quando O Pagador de Promessas, grande vencedor do Festival de Cannes de 1962, obteve indicação para concorrer, em 1963, ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Igualmente fraternais têm sido suas relações com colossos do cinema estrangeiro: Fernando foi amigo de Roberto Rosselini, Ingrid Bergman, Frederico Fellini e Pietro Germi, é amigo de Michelangelo Antonioni e Catherine Deneuve.

Na imprensa, seus artigos de Lisboa acabaram frutificando do lado de cá do Atlântico. Seu trabalho lhe rendeu uma proposta de trabalho da indústria de cosméticos Coty. Como funcionário da Coty, convidado pelo diretor de O Cruzeiro, Accioly Neto, Fernando passou a escrever sobre beleza feminina na revista ? que era mais ou menos o equivalente impresso, no Brasil dos anos 40 e 50, ao que a Rede Globo é hoje. Um dia, sugeriu à direção de O Cruzeiro que parasse de trazer dos Estados Unidos as capas (em cores) da revista. Como, se no Brasil não se conhecia a revelação de filmes coloridos? Simples: Fernando fotografou em preto e branco e aplicou cores na clicheria. Era a capa da revista que celebrava a declaração de guerra do Brasil ao Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Um segredo que ele guardou durante muitos anos: a moça da capa, corista do cassino de Copacabana Palace, era uma…alemã.

Anos mais tarde, produzindo documentários para O Cruzeiro e a Rhodia ? poderoso centro gerador da indústria de vestuário nos anos 50 e 60 ? o Mestre acabou se aproximando da moda e se encantando com ela. Dirigiu documentários em Paris, Nova York, San Francisco, Seattle… A essa altura, a revista Claudia, da qual, na época, Fernando mal ouvira falar, convidou-o para trabalho semelhante na Itália e no Líbano. Data daí sua parceria com a Editora Abril. Seu envolvimento com a moda abrangeu até a vida pessoal: o único filho do Mestre, o repórter Fernando Valeika de Barros, de 33 anos, é produto do casamento com uma das manequins brasileiras de maior sucesso internacional em todos os tempos, a ex-refugiada lituana Giedre Valeika, hoje vivendo em Paris e ainda uma grande amiga. (Fernando pai teve um dedinho no sucesso de Giedre: convidou-a para um de seus filmes, foram rodar cenas nos Estados Unidos, e ela, que já desfilara por sua indicação para Dener, o maior costureiro brasileiro da época, acabou sendo notada, e convidada, por uma senhora do mercado da alta moda. Tratava-se da mitológica Ellen Ford, fundadora da Ford Models, a maior agência de modelos do mundo.)

Ser amigo da ex-mulher é coisa de cavalheiro. E é com finesse, o humor e até o aplomb levemente indignado de um gentleman que Fernando, em seu livro, distribui farpas, quando é o caso. Usar a gola da camisa saindo para fora da abertura do pulôver, por exemplo, "é uma atrocidade". A cena, tão presentes em restaurantes caros do eixo São Paulo-Rio, de executivos almoçando com o paletó dependurado na cadeira, é "grotesca".

Exercício diário

A experiência de Fernando o leva a fazer previsões ? a camisa pólo não vai mudar nem em cem anos, por exemplo, e continuará elegante. Diz isso com a mesma naturalidade de quem, durante anos, ao comprar jornais na mesma banca, a da Praça Villaboim, em São Paulo, costumava conversar com um cidadão que, nos dias frios, lançava com estudada displicência um sweater de lã inglesa nas costas que hoje suportam pesadas responsabilidades: o presidente Fernando Henrique Cardoso.

O livro de Fernando, didáticos nos conceitos, acessível nas incontáveis dicas, e repleto de curiosidades interessantes, só poderia ter sido escrito por quem foi. Assim, é salpicado, na medida certo, por pitadas de erudição. O autor conseguiu descobrir que no começo do século 19 o grande Honoré de Balzac, usando um pseudônimo, chegou a editar e prefaciar um compêndio inteiro dedicado às gravatas. Elas também foram objeto de toda uma reflexão de Umberto Eco, por sua "importância poética" e pela "função da expressão visual e de forma de liberdade" que representaria no mundo moderno. Os blazers nasceram dos uniformes dos oficiais do exército de Napoleão. E na mesma França está situada a origem do jeans, no século 18.

O mais interessante, porém, talvez seja a filosofia com que Fernando encara o ato de uma pessoa se vestir bem. Não há mais ditadura da moda, não é relevante saber se alguém está dentro da moda ou não, ensina ele. "O que importa é a leitura que cada um de nós faz dos seus conceitos e de como os utiliza", dentro dos limites do bom senso. A roupa, assim, é uma forma de o homem estar bem consigo mesmo, e um exercício cotidiano de criatividade e de liberdade. Tudo isso, é claro, somado a algo que Fernando aconselha neste livro como chave para estar bem vestido: "O primeiro passo é gostar da idéia de brincar consigo mesmo". Sabedoria de quem personifica um raro caso de autor que vive à risca o que prega.

(*) Texto publicado em 1996, como apresentação do livro Elegância: Como o Homem Deve se Vestir, de Fernando de Barros (Negócio Editora); intertítulos da redação do OI

(**) Jornalista, à época diretor de redação da revista Playboy

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