Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CRÍTICA IMPLACÁVEL

Um olhar canadense sobre a guerra

Por lgarcia em 20/05/2003 na edição 225

CRÍTICA IMPLACÁVEL

O escritor canadense Russell Smith publicou na mais recente edição da New York Review of Books (volume 50, número 9, data de capa de 29/5/2003) o artigo "The new newsspeak" (a nova novilíngua), implacável desde a primeira frase: "A cobertura desta guerra na imprensa e na televisão foi repugnante. Os informes norte-americanos, em particular das estações de TV dos EUA, foram covardemente submissos ao Pentágono e à Casa Branca".

O pior veículo de todos, com mais repórteres incorporados e tomadas ao vivo mais excitantes : CNN, voz do comando central, "mais irritante do que a alegremente patriótica Fox", diz ele, porque se pretende objetiva. "Finge funcionar com jornalistas." E no entanto usa obedientemente a linguagem dos comunicadores do Pentágono nas "relações com a mídia", reclama Smith: a explosão de soldados iraquianos em suas casamatas virou amaciamento; as massacradas unidades iraquianas ficaram degradadas; alguns usaram repetidamente o rude neologismo do Pentágono atritado (para significar estamos lentamente matando tantos quanto podemos). "Não sei se me ofendi mais com esses eufemismos insidiosos ou pelo absurdo de sua gramática."

Repetir um release do Pentágono dizendo que uma divisão iraquiana "foi degradada em 70%" é uma renúncia espantosa à responsabilidade jornalística, ataca o autor. Um jornalista, atualmente, deve não só relatar os fatos, mas também explicar a notícia, dar-lhe a cor e o valor. A realidade gráfica da degradação é uma grande pilha de corpos desmembrados. Certamente se exige uma explanação do que significa na verdade destruir uma divisão inteira com explosivos.

Medo de quê?

Muitos leitores e telespectadores ficaram confusos quando a batalha por Bagdá caiu sobre nós, sem qualquer confronto em larga escala com a temida Guarda Republicana, continua ele ? fazendo perguntas que se fizeram muitos brasileiros, que assistem à CNN Internacional, e não à versão americana, como os canadenses. "O que aconteceu com aquelas três ou cinco divisões que supostamente protegiam a cidade?" Seu destino foi mencionado quase que de passagem. Foram destruídas do ar. Isso não gerou qualquer matéria glamourosa na cobertura, porque não havia repórteres incorporados às tropas iraquianas. É duro manter uma câmera de TV em trincheiras bombardeadas. Em vez de relatar esses fatos, que produziram milhares de mortes, conduzindo ao colapso rápido do regime iraquiano, a televisão e a imprensa simplesmente enxugaram a história. Nenhuma foto, nenhuma matéria. Este o sentido real de degradação, resume Smith.

Um dia depois da queda de Bagdá, um repórter da rádio CBC deu sua análise do significado deste evento, ofegante. Concluiu que o general Frank tinha conduzido "uma das campanhas mais brilhantes da história militar". Isso é um absurdo, protesta Smith. Frank não podia perder. Teve superioridade aérea total, vantagens tecnológicas maciças, tropas bem treinadas, bem-equipadas, bem pagas, e um orçamento ilimitado. Lutava contra um exército isolado, empobrecido, desmoralizado, já dizimado pelos bombardeios. Se não tomasse Bagdá rapidamente seria um incompetente.

Por que os canadenses têm tanto medo de contradizer ou até de interpretar a máquina de publicidade do Pentágono? Estaremos com medo de valentões como o embaixador americano no Canadá, Paul Cellucci? Ou temos tanto medo de ser tachados de antiamericanistas que esquecemos princípios básicos do jornalismo? Do que temos medo?

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