Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & REALIDADE

Um olhar que esfacela

Por lgarcia em 07/05/2003 na edição 223

MÍDIA & REALIDADE

Afonso Caramano (*)

O olhar da mídia parece ter o poder de transformar qualquer acontecimento em notícia. E qualquer acontecimento ? mesmo banal ? torna-se notícia se visto e realçado pelos olhos da mídia. Se esta tem o poder de dirigir o olhar da sociedade para os fatos relevantes também o tem no caso daqueles de nenhuma importância, alçando-os à condição de imprescindíveis ou camuflando interesses subjetivos.

Pautas insossas ou cada vez mais parecidas, a predominância da frivolidade ou do sensacionalismo nos noticiários e de pontos de vista invariáveis denotam que alguma coisa não está bem ? que se está tentando dissimular algo, talvez uma crise de valores ou de planejamento, como conseqüência da persistente crise financeira, senão ética, por que passam setores da imprensa.

Contudo a mídia, principalmente a impressa, continua representando os olhos da sociedade sobre os temas importantes da nação e do contexto internacional; afinal, não deixa de ser um serviço público, ainda que se notem deformações. Ilustrativa a atuação da mídia, especialmente a eletrônica (e por contaminação muitos jornais e revistas nacionais), na cobertura da guerra contra o Iraque, quando a própria mídia tornou-se o campo de batalha da informação (e contra-informação), revelando, ao arguto observador, mais de si mesma do que dos fatos.

E, diga-se de passagem, a guerra não acabou ? nem para os EUA nem para o Iraque que, liberto de um ditador (a um custo altíssimo), tem de olhar para si mesmo e reconstruir-se como nação, enfrentando primeiro um novo tipo de domínio (americano e ocidental, com o receituário neoliberal pronto), depois o atraso e sérios problemas de desigualdades, além de obrigada a fazê-los conciliando paradoxos de uma cultura milenar e interesses políticos adversos.

Face excludente

Se desse ponto de vista o terreno que se deve percorrer parece minado ? a mídia o enxerga com olhar ambicioso e atento, farejando ainda muitas oportunidades. Note-se o renascimento (tíbio) da imprensa iraquiana ? e o interesse de grupos midiáticos em expandirem seus negócios no novo Iraque, e por extensão no Oriente Médio. Cogita-se até numa atuação pedagógica da mídia como instrumento de guerra ? conformando aquela região aos objetivos ocidentais de globalização. Pensando-se dessa maneira, o poder de domínio concreto está aliado à manipulação rasteira de conceitos instrumentalizados pela mídia (claro que de uma mídia corporativa e disposta a isso). Também não se pode nem se deve reduzir tudo a questões corporativistas dos meios de comunicação. E parece ajuizado observar que a crítica de mídia é necessária ? sempre ? para se evitar tratá-la com as mesmas vicissitudes com que se trata o mercado ? como categoria independente e que tem vontade própria ?; pessoas fazem negócios, acordos etc., bem como jornalismo.

Talvez não se esteja vivendo momento de grandes transformações somente no cenário político e econômico mundial ?, mas também na configuração de uma nova e necessária maneira de pensar, advinda dessas mudanças, apesar das dificuldades em percebê-las, uma vez que todos nos encontramos inseridos no processo. Contudo, isso não nos exime de reflexões, nem de conjeturar que a mídia também viva este dilema ? com ênfase no aspecto ético.

Se os meios de comunicação tornaram-se os olhos da sociedade ? pela equação suscitada no início deste artigo ?, corre-se o risco de o olhar da mídia ser mais importante que o objeto olhado, tomando de empréstimo as idéias de Hegel que se ajustam na formulação de Lacan quando diz que a coisa em si mesma é, em última instância, o olhar, não o objeto que se percebe.

Assim, como num big brother mundial, o real distorce nossa percepção da realidade ? e as lentes da mídia instauram a realidade dos eventos por elas focalizados, dando a eles a visibilidade que deseja. E seguindo a própria lógica interna desse olhar, conclui-se que não é um olhar que abrange mas que esfacela, fragmenta e cumpre o papel de uma globalização perversa, na sua face excludente.

(*) Funcionário público em Jaú, SP

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