Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > ASPAS

Um país de olho no (falso) buraco da fechadura

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

CASA 2 + BIG BROTHER 1

Alberto Dines


Voyeurismo [Do fr. voyeur + -ismo.] S. m. Psic. ? Excitação sexual ao observar a cópula praticada por outros, ou simplesmente ao ver os órgãos genitais de outrem, independentemente de qualquer atividade própria; mixoscopia. [Aurélio]


Os vilões não são Sílvio Santos e Marluce Dias. A responsabilidade não é só das duas maiores redes de TV ? Globo e SBT. Quem está colocando a sociedade telespectadora deste país, de cócoras, olhando pelo buraco da fechadura e babando de prazer, é a mídia como um todo. Sobretudo a impressa, que sempre ostentou o título de "mídia nobre".

Exatamente ela ? ou seus veículos mais representativos ? em dezembro do ano passado pulou de contentamento com o "sucesso" de Casa dos Artistas-1. A euforia dos principais jornalões (excetuados, obviamente, O Globo e Valor), saudando os índices de audiência do SBT e as sucessivas derrotas da Globo durante oito domingos, foi responsável pela atual voyeurização do país.

A mixoscopia federal tem a assinatura daquele que já pretendeu ser o Quarto Poder. Verdadeiro abaixo-assinado em favor da incultura.

As melhores cabeças, os mais graduados intérpretes da consciência nacional, levantaram os braços aos céus para louvar o castigo que estava sendo imposto à Vênus Platinada. Derrotar o Grande Irmão, qualquer fosse o recurso, era o que importava. Recorde-se o entusiamo da mídia impressa no final de Casa-1 [veja abaixo remissões para matérias deste Observatório e para coleção de textos reproduzidos na rubrica Entre Aspas].

O troco vem agora: o Grande Irmão lançou Big Brother e o SBT, certo de que terá a mesma galera midiática, iniciou no último domingo (17/2) o Casa-2. Com o reforço erótico de Tiazinha, Feiticeira mais as respectivas bundas e mamas devidamente siliconadas [clique em Próximo Texto, no pé da página, para ler comentário sobre a cobertura dada pelos jornais no dia seguinte da guerra de audiência].

O nível de compostura e isenção da mídia foi antecipado pelos cadernos de TV nos jornalões do último domingo: "TVFolha" (Folha de S.Paulo) e "Telejornal" (Estado de S.Paulo) torceram descaradamente para um novo estouro da rede de Sílvio Santos, e a "Revista da TV" (O Globo) omitiu qualquer referência ao programa da rede rival que começava naquele dia. Também o Jornal do Brasil tirou sua lasquinha no arquiinimigo global com a matéria de capa no "Caderno B" e chamada na primeira página sobre Casa-2 ("Câmeras mais indiscretas").

Isso não é jornalismo, é impostura jornalística praticada em grande escala por 90% da mídia dita nacional. Jornalismo de TV deve ser tão sério e isento como jornalismo político, econômico, esportivo e cultural. Não é: está acompanhando as estratégias das respectivas empresas em benefício de seus interesses e jogadas.

Vale tudo para bater a Globo, vale inclusive comprometer a seriedade e a credibilidade da imprensa como instituição a serviço da sociedade. Nenhum grupo empresarial está tendo a hombridade e a decência para assumir a causa do cidadão brasileiro. Em vez de noticiar suscintamente que o Ministério da Justiça não sabe como classificar os reality shows ("Reality shows ainda confundem o governo", "TVFolha", 17/2/02, pág.5), a grande imprensa, a imprensa nobre, deveria garantir apoio ao governo para empurrar essa programação para os horários restritos.

Como este é um ano eleitoral, o governo não quer comprar briga com a mídia eletrônica. Mas a instituição jornalística, ao contrário, tem a responsabilidade e a obrigação de comprar todas as brigas em favor da sociedade brasileira.

A estúpida polarização entre as "realidades" da Globo e do SBT só avilta e degrada nossos padrões morais. Se a mídia quer tomar partido que o faça em favor do cidadão. A grande verdade é que a mídia abdicou de assumir seu papel quando abdicou de dizer, com todas as letras, o seguinte:

** Estes shows são enganosos;

** Estas privacidades são falácias;

** As portas que as protegem são trapaças;

** Os buracos nas fechaduras são simulados;

** O improviso é fictício;

** E a masturbação coletiva só tem um objetivo: ludibriar a realidade.

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