Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Um país que emerge por linhas tortas

Por lgarcia em 05/08/1999 na edição 72

Fábio Metzger

 

A velha política brasileira está capenga. E no entanto não está com os seus dias contados. O país, após décadas e décadas de crescimento ininterrupto, descobre que as suas estruturas sociais estão enferrujadas e o atraso parece irreversível. Aí surge a pergunta: o que se passa com uma nação com tão grande potencial de crescimento e que, apesar disso, fica estagnada?

Foram necessários 500 anos para descobrir que a culpa pelo atraso do Brasil não é exclusiva de seus políticos ou de seus empresários. Sem dúvida, o Brasil tem uma elite altamente depravada. Mas esse fato não é suficiente para se fazer um diagnóstico a respeito dessa estagnação. Existe uma realidade muito mais profunda e que permeia todos os setores da sociedade brasileira: o povo brasileiro é individualista, no pior sentido do termo. Ao contrário dos americanos que, apesar de individualistas, têm a plena consciência de que fazem parte de uma imensa sociedade, os brasileiros se escondem por trás de uma fachada cínica, fingindo não ver que precisam mudar a realidade que tanto os prejudica. E por que fingem?

Porque não sabem administrar conflitos. O brasileiro mais poderoso, que se beneficia às custas dos demais, se sente no direito de manter o seu status. Já os demais têm medo do confronto. Certamente porque têm medo das represálias do brasileiro mais poderoso. Mal sabem que o confronto faz parte do amadurecimento geral. Desta forma, a população, para não cair em desgosto, finge que não é com ela, e prefere não confiar em ninguém.

É esse o povo com o qual a imprensa e os partidos políticos se defrontam. Uma população que ainda não descobriu a melhor maneira de estabelecer laços sociais firmes. A consciência de nação só se torna presente em dias de jogos da seleção brasileira. A noção de que todos os brasileiros pertencem a um só grupo nacional só se revela na agitação ingênua e pervertida do Carnaval.

É claro que tudo isso é uma conseqüência da formação histórica do Brasil, um país fadado à periferia do grande debate internacional. Deslocado geográfica e ideologicamente, o Brasil, aos olhos do estrangeiro, é uma nação em que prevalece o comportamento inusitado e leviano de sua população. Fazendo uma autocrítica: será que essa leviandade não está prejudicando o país?

No tempo em que o Brasil crescia, a falta de abertura política de alguns momentos e a euforia do crescimento econômico acobertavam esses aspectos. Certamente não é a primeira vez que o Brasil se depara com tais fraquezas. No entanto, esta talvez seja a primeira grande oportunidade de o povo brasileiro fazer uma autocrítica. Pois entra governo, sai governo e o país continua nessa mesma situação.

Assim, com todas as críticas que podem ser feitas aos políticos e seus escândalos, aos empresários, suas fusões e privatizações, o maior problema a ser enfrentado é a nossa histórica inversão de valores. Sim, ela é histórica: o brasileiro sempre assumiu ser um maior abandonado. Não adianta acreditar que antigamente os brasileiros eram politizados e atuantes. A obra de José Murilo de Carvalho Os bestializados deixa bem claro que o Brasil do início do século já era uma nação formada por gente que preferia não atuar e participar da vida pública.

A República brasileira não foi formada com o consentimento da população, que preferia a manutenção do Império. Essa talvez seja uma ferida que ainda há de ser cicatrizada. A população, de um modo geral, abomina a classe política desde sempre. E no tanto que se fala que isso é uma herança de quatro séculos de escravidão, o problema é outro. A escravidão, sem dúvida, criou um hiato que afastou as classes populares das poderosas. Entretanto, o maior empecilho para o debate democrático no Brasil não está nesse hiato, mas sim em uma de suas conseqüências, que é atitude histórica do povo.

Só para constar, um país de grande tradição democrática, os Estados Unidos, viveram período semelhante de escravidão, pelo menos nos estados do Sul. O que modificou a consciência americana? Uma sociedade historicamente instruída e direcionada a se constituir como um todo sólido e coerente. Ao contrário da sociedade dos homens livres americanos, a camada social liberta do Brasil sempre optou por se marginalizar. Essa opção vem, sem dúvida, de um certo abandono. No entanto, tal abandono não justifica a atitude posterior.

Em que se fale da hipocrisia do povo americano, quem sabe o comportamento dos ianques não seja apenas o contraste entre um discurso cidadão e uma realidade nem tão cidadã assim? Pois o contraste brasileiro é o de uma sociedade que não tem discurso com uma realidade hipócrita. Ou seja, se o povo americano é hipócrita com o seu dia-a-dia, o brasileiro é hipócrita consigo mesmo.

Caberia à imprensa relevar esses aspectos. O drama é que todos estão submersos na mesma realidade. Desta forma, fica difícil, praticamente impossível, a formação de uma vanguarda sólida que oriente melhor a população brasileira. Assim, os meios de comunicação apenas agem na medida do que lhes é possível, sempre guiados por interesses imediatos. Se a imprensa fosse mais consciente em relação ao país com o qual lida, tais interesses não seriam tão imediatos assim.

Fala-se muito da falta de politização do povo brasileiro, que não lê jornal, que não sabe o que acontece… Pois que fique claro um aspecto: ao contrário do que se supõe, o brasileiro é muito politizado, lê jornal e sabe muito bem o que está acontecendo. Falta, na verdade uma consciência. E esta pode se manifestar através de uma ideologia econômica ou nacionalista. Como nenhum desses modelos vinga, a ideologia dos religiosos vem ocupando o vácuo da sociedade. Padres Marcelos e Igrejas Universais investem nesse individualismo egoísta e lucram sem parar. Mas como se tratam de ideologias desvinculadas do projeto de uma nação, elas não são solução para nenhum destes problemas pelos quais o Brasil passa.

Resta o doloroso mas necessário exercício da reflexão por parte de todos os brasileiros. Mas como será possível conscientizar 160 milhões de mortais? Apenas com fome, violência e esperanças vazias sendo despedaçadas? Não. Mais do que nunca, com a ação dos meios de comunicação de massa. Esses, ao menos, podem situar a população que está desorientada. A imprensa brasileira tem um papel histórico. Cabe a ela desempenhá-lo.

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