Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

PRIMEIRAS EDIçõES > HIPÓLITO E SEU JORNAL

Um público para o Correio Braziliense

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

HIPÓLITO E SEU JORNAL

Jean Marcel Carvalho França (*)

Em 1833, num discurso dirigido ao Instituto Histórico de França, o membro da segunda classe dessa instituição, o brasileiro Francisco de Sales Torres Homem, ao iniciar um pequeno esboço sobre a história das ciências no seu país, tratou de justificar do seguinte modo a pobreza do quadro que iria pintar diante dos seus colegas franceses:

Imaginai uma nação obrigada a permanecer imóvel nos seus elementos de humanidade e se absorver profundamente na unidade de um despotismo sistematicamente opressor, e compreendereis qual tenha sido o estado das ciências no Brasil durante três séculos. Nenhuma academia, nenhuma instituição literária, no meio desse mutismo da inteligência popular no seio desse torpor com que o despotismo da Metrópole gravava todos os espíritos; somente a poesia se fazia ouvir. [F. S. Torres Homem, Resumo da história das ciências do Brasil, em Jean Baptiste Debret, Viagem pitoresca e histórica ao Brasil (Trad. de Sérgio Milliet. 2 vols. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, 1978),. vol. 2, pp. 106-07.]

O preâmbulo do jovem estudante brasileiro, ainda que muito marcado pelo forte sentimento patriótico característico da sua geração, é uma síntese bastante lúcida do estado cultural da América portuguesa quando do desembarque de d. João VI em 1808. No Rio de Janeiro, especificamente, a situação era, no mínimo, desoladora. A cidade sede do Vice-Reino, cidade relativamente modesta e com poucos recursos, praticamente desconhecia a atividade intelectual. Houve, é certo, a partir de meados do século XVIII, alguns esforços isolados e descompassados no sentido de dar alguma vida ao setor. Em 1736, por exemplo, o laborioso governador Gomes Freire de Andrada, futuro conde de Bobadela, fomentou a fundação da Academia dos Felizes ? a segunda estabelecida no Brasil. Informa-nos uma carta do português Mateus Saraiva, residente na cidade do Rio de Janeiro, que tal agremiação de homens de letras, cujos trabalhos inaugurais tiveram lugar no Palácio do Governador no dia 6 de maio do referido ano, era

(…) regida com o fim de discorrer em assuntos vários, assim heróicos como líricos, sendo a sua empresa Hércules com a clava sacudindo os ares a obviar o sócio com essa letra ? Ignavia fuganda et fugienda, alegorizando o ócio de que se deve fugir, compondo-se de 30 sócios de um e outro estado, a qual tendo interrupção se abriu segunda vez em 12 de abril em casa do secretário o dr. Inácio José da Mota, e feneceu em 28 de fevereiro de 1740, com o prazo de 15 em 15 dias para se dar conta dos estudos em verso, e em prosa o assunto heróico. [Documentos sobre a Academia dos Felizes. Carta do doutor Mateus Saraiva, Revista do IHGB, VI, 23 (1844), p. 366.]

O mesmo Bobadela, em 1752, colaborou ainda para a criação da Academia dos Seletos, dirigida pelo padre jesuíta Francisco Faria, e autorizou, muito a contragosto de Lisboa, a instalação da tipografia de Antônio Isidoro da Fonseca em 1747. A tipografia foi extinta no mesmo ano, publicando somente três obras de pequena monta, e ambas as agremiações tiveram vida curta e quase nenhum resultado apresentaram.

Cerca de dezenove anos depois das iniciativas de Gomes Freire, o vice-rei marquês de Lavradio aprovou a fundação da Academia Científica do Rio de Janeiro, cuja vida se estendeu até 1779. Essa instituição tratou de assuntos diversos: história natural, física, química, agricultura, cirurgia e farmácia. Numa época de profundo atraso e obscurantismo, a agremiação acabou por dar um contributo relativamente importante para a cidade, promovendo ligeiramente a ciência e o comércio. Tratou-se, porém, segundo consta numa missiva de Lavradio, de um contributo muitíssimo limitado, pois, como explica o próprio marquês numa carta de 1772, “(…) continua a trabalhar-se nela, porém vai isto muito devagar, porque como estas gentes não têm o interesse que as anime, esmorecem com grande facilidade”. [Cartas do Rio de Janeiro, 1769-1776, carta 389 (5/10/1772).]

Mais significativa que todas as associações mencionadas foi a Sociedade Literária do Rio de Janeiro, fundada em 1786. Seus estatutos foram redigidos pelo ilustrado poeta Manuel Inácio da Silva Alvarenga e entre seus feitos contam a produção de numerosas memórias, bem como a organiza&ccedccedil;ão de uma pequena biblioteca. A sociedade foi dissolvida em 1790, reaberta em 1794 e, no mesmo ano, novamente encerrada ? desta vez acusada de jacobinismo pelo vice-rei conde de Resende. A partir daí ela funcionou secretamente até a prisão de seus membros, em 4 de dezembro de 1794.

Os poucos resultados apresentados por essas agremiações de homens de letras e a diminuta penetração social de suas atividades não se deveram, entretanto, somente à pouca empolgação do reduzido número de produtores culturais da cidade ou à diminuta tolerância das autoridades metropolitanas com as atividades intelectuais, como sugerem o comentário de Lavradio e a mão pesada de Resende. A tais obstáculos vinham-se somar uma série de outros. A quase inexistência de bibliotecas era um deles. É sabido que o número de particulares que possuía bibliotecas no Rio de Janeiro colonial era mínimo e que, esses poucos proprietários, não tinham livros em grande quantidade. [Sobre livros e bibliotecas na América portuguesa, ver Jorge de Souza Araújo, Perfil do leitor colonial (Ilhéus: Editus/Editora da UESC, 1999); Carlos Rizzini, O livro, o jornal e a tipografia no Brasil, 1500-1822 (Rio de Janeiro: Kosmos, 1946); Rubens Borba de Moraes, Livros e bibliotecas no Brasil colonial (Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos/S.C.C.T., 1979); Laurence Hallewell, O livro no Brasil: sua história (São Paulo: T. A. Queiroz/Edusp, 1985); Luiz Carlos Villalta, “O que se fala e o que se lê: língua, instrução e leitura”, em Laura de Mello e Souza (org.), História da vida privada no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 1997), vol. 1.] Restavam as bibliotecas das casas religiosas, mas essas também estavam longe de dispor de um acervo variado e acessível. Acerca de tais bibliotecas, alguns viajantes estrangeiros que passaram pela cidade ao longo do século XVIII deixaram-nos umas poucas informações esparsas. Em 1748, por exemplo, o abade francês Courte de la Blanchardière teceu o seguinte comentário sobre o acervo do colégio da Companhia de Jesus: “A biblioteca dos Jesuítas é pequena e desprovida de bons livros. A localização do edifício, porém, é privilegiada”. [Jean Marcel Carvalho França, Visões do Rio de Janeiro colonial, 1531-1800 (Rio de Janeiro: Eduerj/José Olympio, 1999), p. 92.]

O espanhol Francisco de Aguirre, quase quarenta anos mais tarde, em 1781, deixou registrado que a “biblioteca do convento de São Bento” era “a maior do Rio de Janeiro” e que seu acervo era “composto de 3 mil volumes”. [J. M. C. França, op. cit., p. 154.] Um ano mais tarde, o alemão Friedrich Ludwig Langstedt, depois de visitar o convento de Santo Antônio, surpreso, comentou:

A biblioteca desse estabelecimento religioso é excelente e distingue-se por uma coleção completa dos doutrinadores da igreja. Manuscritos não encontrei, mas pude apreciar um exemplar da Bíblia Complutense, diversas edições da Vulgata, alguns escritos dos escolásticos, vários livros de direito canônico e de direito dos reis portugueses, a história eclesiástica Pagi, Scriptores historiae Byzant. Xantis Pagnini Bibl. Hebr. e o Reineccii. Quanto aos libris prohibitis, disseram-me que naquele preciso dia a chave do armário que os continha tinha sido extraviada. [J. M. C. França, op. cit., pp. 170-71.]

Tais bibliotecas, contudo, segundo as mesmas fontes, não eram freqüentadas nem mesmo pelos religiosos das casas que as abrigavam, tamanha a ignorância que grassava entre a população local. Ignorância que, certamente, não era de se estranhar, na medida em que a cidade praticamente não contava com instituições de ensino ? umas poucas aulas-régias, um número modesto de mestres-escolas e um ou dois colégios religiosos, era tudo o que havia à disposição da população ? nem com tipografias, tampouco com livros. [Ver nota 5.] A propósito de livros e livrarias, o inglês John Barrow, depois de uma estadia de um mês na cidade, em 1793, comentou:

No Rio de Janeiro, após ter muito procurado, encontramos duas lojas de livros. Não foi preciso muito tempo para perceber que essas casas não tinham nada de parecido com aquilo que procurávamos. Os catálogos dessas duas lojas compunham-se basicamente de velhos manuais de medicina e de alquimia, além de muitas histórias da Igreja e das suas querelas teológicas e de algumas crônicas dos feitos memoráveis da Casa de Bragança. Não havia nada referente ao Brasil. Esta parte da América meridional, uma das regiões mais férteis do globo, não mereceu da pena portuguesa uma só página de história natural, de economia ou de estatística; nem mesmo a conquista do país suscitou-lhes interesse. [J. M. C. França, op. cit., p. 219.]

Não se deve esquecer ainda que, além das limitações apontadas, o Rio de Janeiro desse tempo não tinha uma vida social significativa ? nunca é demais recordar que estamos no período do predomínio das casas sobre as ruas, para usarmos a consagrada expressão de Gilberto Freyre ? e não contava com um público interessado pelas ciências ou pelas belas-letras. Os consumidores de cultura, se é que se pode assim chamar-lhes, eram os mesmos que a produziam, o que, conseqüentemente, restringia a circulação de idéias a um limitadíssimo grupo de indivíduos.

Um empreendimento como o de Hipólito José da Costa teria, sem dúvida, diminutas possibilidades de vingar num ambiente cultural tão pobre e sem vida como o descrito. A inexistência de um público a quem se dirigir e a quem educar condenaria, por certo, a sua empresa a cair no vazio. É somente com a chegada de d. João VI, em 1808, que começa a surgir um ambiente propício para uma iniciativa como a do Correio Braziliense. Data desse período o desencadeamento de um processo que, sem nenhum exagero, poderia ser denominado cruzada civilizatória, uma cruzada onde o que estava em jogo era, de um lado, a constituição de um povo razoavelmente patriota, ordeiro e trabalhador, um povo apto a se engajar na nova sociedade que nascia; de outro lado, a construção de uma cultura que pudesse ser denominada brasileira, que expressasse o espírito do povo, como se dizia na época. Essa cruzada foi longa, cheia de avanços e recuos e contou com agentes diversos. Num primeiro momento, a polícia de costumes, representada pela Intendência Geral de Polícia da Corte, foi sua grande protagonista. Cedo, contudo, outros agentes vieram juntar-se a esse grupo pioneiro: os médicos, os pedagogos, os juristas e, sobretudo, os praticantes das belas-letras. Poetas, cronistas, sermonistas, jornalistas, historiadores, romancistas, enfim, homens de letras em geral foram ativos participantes desse afã civilizatório-patriótico que perpassou a sociedade carioca oitocentista; afã que, ao mesmo tempo que foi impulsionado pelo jornal londrino de Hipólito José da Costa, criou as condições necessárias para a sua viabilização, proporcionando-lhe um público embrionário mas deveras interessado em ilustrar-se. Abordemos mais detidamente o que se passou.

Ao desembarcar no Rio de Janeiro em 1808, uma das preocupações centrais de d. João VI foi com a formação moral e intelectual da população carioca. O monarca cedo constatou que, para manter a tranqüilidade pública e bem gerir a cidade, a mais importante do país, não bastava implementar um aparato repressivo hipoteticamente apto a coibir a desordem e os maus hábitos. Para que a empresa tivesse um efetivo sucesso era necessário ir além e promover uma remodelação completa nos hábitos da população, ou seja, era necessário realizar uma intervenção positiva no meio social.

Um dos primeiros passos no sentido de levar a cabo esta reeducação dos cariocas foi dado com a criação da Intendência de Polícia da Corte. A instituição, chefiada por Paulo Fernandes Viana, foi uma ativa participante do processo de remodelação dos hábitos da população local. Sem nenhum exagero, pode-se dizer que a Intendência agiu, nesse período, como uma verdadeira polícia de costumes. Sua intervenção no meio social deu-se em diversas frentes, todas voltadas para a valorização das ruas e dos logradouros públicos, até então vítimas do descaso dos cidadãos. Foi, por exemplo, em boa parte graças às enérgicas atitudes dessa instituição que as biqueiras das casas deixaram de desaguar nas ruas, que os tigres não foram mais despejados nos becos e praias das paróquias centrais, que os estabelecimentos comerciais, especialmente os que trabalhavam com bens alimentícios, adquiriram um aspecto mais salubre, enfim, que a população passou a ter uma conduta um pouco mais higiênica. E vale notar que, malgrado tais esforços, a cidade, aos olhos dos estrangeiros pouco acostumados com o modus vivendi local, não parecia nenhum primor de limpeza. O prussiano Von Leithold, por exemplo, depois de quatro meses de estadia na cidade, deixou registrado que as ruas eram relativamente limpas, mas que, às vezes, “só retiram os cães mortos quando começam a cheirar mal com o calor, o mesmo acontecendo com as mulas, que apodrecem não longe das praias da Glória e do Catete”. [T. von Leithold & L. von Rango, O Rio de Janeiro visto por dois prussianos em 1819 (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1966), p. 45.]

As atitudes da Intendência, no entanto, não se limitaram à salubridade pública. O entretenimento e a cultura dos habitantes locais foram outros assuntos que muito ocuparam o dirigente Paulo Fernandes. Nesses setores, duas de suas atitudes merecem destaque. A primeira foi a constante promoção de festas cívicas, as quais, segundo o próprio intendente, contribuíam enormemente para “fomentar nos populares o respeito pelas autoridades constituídas”, além, é claro, de divertir e tornar o povo mais civilizado. A segunda, de maior vulto e relevância, foi a edificação do Real Teatro de São João em 1813. O decreto real de organização dessa instituição, datado de 1810, assim justifica o empreendimento:

Fazendo-se absolutamente necessário nesta capital que se erija um teatro decente e proporcionado à população e ao maior grau de elevação e grandeza em que hoje se acha pela minha resid&eciecirc;ncia nela e pela concorrência de estrangeiros e outras pessoas que vêem das extensas províncias de todos os meus Estados: fui servido encarregar o doutor Paulo Fernandes Viana (…) do cuidado de promover todos os meios para ele se erigir (…). [Apud Wilson Martins, História da inteligência brasileira (2a. ed. São Paulo: Cultrix/Editora da Universidade de São Paulo, 1977-78), vol. 2, p. 161.]

Paralelamente a essas atitudes do zeloso funcionário da Intendência de Polícia, d. João VI tomou uma série de medidas no sentido de dotar a nova sede da Coroa de algumas instituições culturais, pois praticamente nada havia nesse setor. Em 1814, aproveitando o prédio do Hospital dos Terceiros do Carmo, o monarca criou a Biblioteca Real. Contando a princípio com 14 mil volumes, essa instituição foi posteriormente ampliada com o acervo do poeta Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1815) e, em 1817, com as ricas coleções bibliográfica e iconográfica reunidas pelo conde da Barca. Denis, em 1820, estimava que o acervo dessa biblioteca era composto de 45 mil volumes, entre os quais se encontravam algumas curiosidades bibliográficas dignas de menção: “(…) destaque-se uma grande coleção de Bíblias, entre as quais convém distinguir um belo exemplar da Mogúncia, impressa em 1462, e que faria inveja às mais ricas bibliotecas das capitais da Europa. Entre os manuscritos, distingue-se uma obra magnificamente executada, que trata (…) da flora do Rio de Janeiro”. [Ferdinand Denis, Brasil (trad. João Etienne Filho & Malta Lima. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, 1980), p. 130.]

Anterior à instalação da Biblioteca Nacional foi a criação da Impressão Régia, cujo decreto, datado do dia 13 de maio de 1808, discretamente anuncia um acontecimento da maior importância para a cultura local:

Tendo-me constado, que os prelos, que se acham nesta capital, eram destinados para a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, e da Guerra; e atendendo à necessidade, que há da Oficina de Impressão Régia nestes meus Estados: sou servido, que a casa, onde eles se estabeleceram, sirva internamente de Impressão Régia, onde se imprimam exclusivamente toda a legislação, e papéis diplomáticos, que emanarem de qualquer repartição do meu Real Serviço; e se possam imprimir todas e quaisquer outras obras (…). [Paulo Berger, A tipografia no Rio de Janeiro: impressores bibliográficos, 1808-1900 (Rio de Janeiro: Companhia Industrial de Papel Pirahy, 1984), p. viii.]

Esse estabelecimento tipográfico, a princípio dedicado à impressão de documentos oficiais, publicou, até 1822, nada menos do que 1154 obras, que versavam sobre os assuntos mais variados: medicina, engenharia, matemática, economia política, direito, geografia, agricultura, gramática, filosofia, literatura, política, moral etc. Apesar da intensa e severa censura à qual estavam sujeitos os trabalhos apresentados para publicação, a Impressão Régia foi responsável pela divulgação de importantes nomes da nascente intelectualidade nacional (Januário da Cunha Barbosa, marquês de Maricá, Silva Lisboa, Araújo Guimarães), bem como de alguns livros de significativo valor. José Veríssimo, numa análise das atividades dessa instituição, destaca as seguintes obras: “(…) o Ensaio sobre a crítica de Alexandre Pope traduzido em português pelo conde Aguiar (…); a Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga (…); diversas obras econômicas de José da Silva Lisboa (…); o Tratado elementar de física do abade Haüy [e] a primeira edição do Uraguai, o poema de Basílio da Gama”. [Apud W. Martins, op. cit., vol. 2, p. 29.]

Além desse importante trabalho de editoração, fundamental para a nascente vida intelectual carioca, a Impressão Régia também foi responsável pela estréia da imprensa na cidade. De suas oficinas saiu, ainda em 1808, o primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro, coordenada pelo frei Tibúrcio José da Rocha. Tal periódico, apesar do seu pioneirismo, pouca ou nenhuma influência exerceu na sociedade local. Publicação medíocre, cujo conteúdo girava em torno dos atos do governo, festas na Corte e aniversários natalícios da família real, ele não foi, como é sabido, um concorrente à altura do Correio Braziliense.

Mas voltemos às instituições culturais fundadas pelo monarca português. Sem precisão de data, mas provavelmente da primeira década da realeza entre nós, é o Jardim Botânico. Originou-se ele de um pequeno horto que, por iniciativa do diretor da Fábrica de Pólvora, marquês de Sabará, fora criado nos terrenos dessa mesma fábrica, situada às margens da lagoa Rodrigo de Freitas. Esse limitado espaço verde logo chamou a atenção de d. João VI. Interessado em aclimatar no país algumas plantas úteis que pudessem contribuir para o desenvolvimento das atividades agrícolas, o regente foi gradativamente enriquecendo o pequeno horto com mudas e sementes vindas de vários pontos do mundo. Em 1809, ele importou vinte caixas de plantas das regiões orientais e, em 1810, mandou vir de Macau várias plantas de chá e cerca de duzentos chineses para cultivá-las. Segundo nos conta Denis: “Não era somente a introdução de plantas exóticas, o que ele desejava; era a naturalização dos vegetais do país, que uma província podia fornecer a outra, e que devem semear a abundância onde não poucas vezes faltam certos objetos de exportação”. [F. Denis, op. cit., p. 129.]

Em 1809, esse parque, já com o nome de Real Jardim Botânico, foi anexado ao recém-fundado Museu Nacional e a visitação foi facultada ao público. Essa medida parece ter gerado bons resultados, pois, alguns viajantes estrangeiros que por ali passaram, entre os quais Spix e Martius, afirmam que o espaço era freqüentado por gentes de todas as classes.

Outra iniciativa cultural bastante feliz da administração joanina foi a contratação, em 1816, da Missão francesa. Sob a influência do ministro das Relações Exteriores, conde da Barca, o monarca ordenou ao embaixador marquês de Marialva, então residente em Paris, que iniciasse, em 1815, uma série de contatos no sentido de criar no Rio de Janeiro uma instituição similar à Academia de Belas-Artes francesa. O momento era oportuno para isso. Naquele país, com a ascensão de Luís XVIII ao trono, havia inúmeros elementos da nobreza e das classes cultas que, inconformados com a situação, desejavam exilar-se. Auxiliado por essa circunstância, o marquês de Marialva contatou o “secretário perpétuo das classes de belas-artes” do Instituto de França, J. Lebreton, e encarregou-o de selecionar e chefiar alguns artistas interessados em transferirem-se para a capital brasileira e aí levarem a cabo o empreendimento. O grupo escolhido contava com os seguintes membros: J. B. Debret, pintor de paisagens e quadros de gênero; Antoine Taunay, pintor de paisagens; Auguste Taunay, escultor; Charles-Simon Pradier, gravador; François Ovide, professor de mecânica; A. H. V. Grandjean de Montigny, arquiteto (acompanhado por dois assistentes); S. Bonrepos, ajudante do escultor Taunay; e Pierre Dillon, homem de confiança de Lebreton. A esse grupo inicial vieram juntar-se os dois irmãos Ferrez, escultores, gravadores e peritos em decoração. A primeira leva de artistas chegou ao Rio de Janeiro em março de 1816, sendo acolhida com pompa e cerimônia pela Corte bragantina. Em agosto do mesmo ano, d. João VI baixa um decreto contratando, inicialmente por seis anos, os profissionais franceses. Nesse decreto de contratação o monarca expõe os objetivos do projeto:

Atendendo ao bem comum que convém aos meus fiéis vassalos de se estabelecer no Brasil uma escola real de ciências, artes e ofícios, em que se promova, difunda a instrução e conhecimentos indispensáveis aos homens destinados não só aos empregos públicos de administração do Estado, mas também ao progresso da agricultura, mineralogia, indústria e comércio de que resulta a subsistência, comodidade e civilização dos povos, maiormente neste continente, cuja extensão não tendo ainda o devido e correspondente número de braços indispensáveis ao tamanho e aproveitamento do terreno, precisa de grandes socorros da estética para aproveitar os produtos cujo valor e preciosidade podem vir a formar do Brasil o mais rico e opulento dos reinos conhecidos. [J. B. Debret, Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, op. cit., vol. 2, p. 132.]

Embora a instalação da Academia de Belas Artes, em razão de alguns percalços, só tenha se dado no ano de 1826, os efeitos da Missão francesa sobre a cultura local foram imediatos. O primeiro deles, talvez o mais contundente, foi a emancipação da inteligência local da influência artística e intelectual da antiga Metrópole. Um significativo índice dessa alteração, ao menos o mais visível, foi a notável reformulação arquitetônica processada nos edifícios públicos e privados por Grandjean de Montigny e seus discípulos. Mas a influência dos franceses não se restringiu a esse setor. De forma geral, pode-se dizer que a Missão promoveu uma transformação radical no gosto do carioca. Como afirma o aplicado e bem sucedido aluno da Academia, Araújo Porto Alegre:

Nessa época uma prodigiosa revolução se verificou nas idéias do povo brasileiro; os pintores, que não eram até então apreciados, foram admitidos nas sociedades mais brilhantes; gozam agora da estima e da consideração geral (…). Finalmente as belas-artes se introduzem no seio das famílias e raras são hoje aquelas em que o desenho e a música não entrem no programa da educação das crianças. [A. Porto Alegre, “Resumo da história das artes do Brasil”, em J. B. Debret, op. cit., t. 2, p. 113.]

Além dessa salutar influência sobre a mentalidade local, a Missão francesa deixou atrás de si não só um número significativo de obras que alteraram profundamente a aparência da cidade, como também, e sobretudo, uma geração de jovens discípulos, muitos dos quais destinados a ocupar um papel fundamental na vida intelectual da cidade e do país.

Os franceses, contudo, não foram os únicos que vieram contribuir para o enriquecimento intelectual do Rio de Janeiro. Aproveitando o clima de abertura pós-desembarque, várias foram as missões científicas que passaram pela cidade. Até a chegada do príncipe regente, as autoridades locais não viam com bons olhos os estrangeiros. Portugal, temeroso de perder sua rica Colônia, não permitia que nem mesmo os chamados sábios visitassem o país. Ilustrativa dessa hostilidade é a perseguição sofrida pelo cientista Alexandre de Humboldt, quando este, em 1800, numa viagem às Américas, tencionava excursionar pela capitania do Maranhão. Tendo notícias desse desejo do cientista germânico, a Metrópole envia ao governador e capitão-general do Grão-Pará, d. Francisco de Sousa Coutinho, a seguinte ordem: “(…) que V. S. faça examinar com maior exação e escrúpulo, se com efeito o dito barão de Humboldt, ou qualquer viajante estrangeiro tem viajado, ou atualmente viaja pelos territórios dessa capitania, pois que seria sumamente prejudicial aos interesses políticos da Coroa de Portugal, se se verificassem semelhantes fatos (…). [Apud W. Martins, op. cit., vol. 2, p. 91.]

Outra vítima da intolerância das autoridades coloniais foi o renomado capitão inglês James Cook que, de passagem pelo Rio de Janeiro em 1768, durante a sua primeira viagem de circunavegação, foi grosseiramente tratado pelo vice-rei conde da Azambuja.

No dia seguinte, 14 de novembro, desembarquei e obtive permissão do vice-rei para comprar as provisões necessárias para o navio, com a condição de que fosse acompanhado por um de seus homens, que atuaria como corretor. Tentei me opor a essa exigência, mas o governador, alegando que esse era o costume, não voltou atrás. Protestei, ainda, contra o fato de um soldado nos acompanhar por todo lado sempre que saíamos da embarcação, mas o vice-rei replicou que cumpria ordens da Corte, ordens inquestionáveis. Pedi-lhe que permitisse o desembarque de nossos oficiais, sobretudo do senhor Banks, que tencionava excursionar pelo campo para recolher algumas plantas, mas ele negou de forma peremptória. [J. M. C. França, op. cit., p. 128.]

Quando d. João VI se instalou no Rio de Janeiro e abriu os portos “às nações amigas”, esse clima de suspeita e inimizade em relação ao estrangeiro desvaneceu. O monarca, desejoso de conhecer melhor as potencialidades do país para melhor explorá-lo, passa a ser um profundo incentivador das expedições científicas estrangeiras interessadas em pesquisar as várias regiões brasileiras. De paisagistas a botânicos, inúmeros foram os sábios que aqui desembarcaram durante o período joanino. Alguns em missões oficiais, como a organizada pelo governo austríaco no ano de 1817 ? que contava com nomes como o dos naturalistas Martius, Schott, Raddi, Mikan, Polh e dos zoólogos Natterer e Spix ? ou a financiada pelo czar Alexandre I ? cuja coordenação coube ao botânico Langsdorff e trouxe consigo nomes como Rubzoff e Rugendas. Outros foram convidados diretamente pelo monarca português, como o mineralogista John Mawe ou o príncipe Maximiliano de Wied Neuwied, grande naturalista que aqui esteve de 1815 a 1817. Houve, ainda, os que vieram por conta própria, curiosos que estavam com a propagada riqueza e exuberância dos trópicos, entre eles F. Denis, Saint-Hillaire, Eschewege, M. Graham, T. von Leithold e muitos mais. A esses sábios, literatos e comerciantes vieram juntar-se inúmeros operários, militares, industriais e artistas. A variedade era tanta que, em 1815, um desses visitantes, o príncipe Maximiliano, comentou: “Desde que se põe o pé nas ruas da cidade, observa-se essa singular mistura de gentes diversamente ocupadas, e junto delas uma reunião de todas as nacionalidades da Europa. Ingleses, espanhóis, italianos, são aqui bem numerosos; chegam presentemente muitos franceses; encontram-se em muito menor número alemães, holandeses, suecos, dinamarqueses e russos”. [Príncipe Maximiliano de Wied Neuwied, Viagem ao Brasil nos anos de 1815 a 1817 (2? ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958), p. 24.]

Todos esses estrangeiros, direta ou indiretamente, com mais ou menos intensidade, contribuíram muito para o desenvolvimento intelectual, artístico, econômico e moral da cidade do Rio de Janeiro. Foi através deles que a população local, depois de três séculos de isolamento, pôde tomar contato com os hábitos e costumes do velho mundo, absorver suas modas, suas técnicas de trabalho, sua cultura e mesmo conhecer, através dos olhos desses visitantes, as belezas e potencialidades do Brasil, do qual pouco ou quase nada se sabia até então. Em 1892, num artigo dedicado a fazer um levantamento dos estrangeiros que passaram pelo país durante o Oitocentos, o visconde de Taunay assim comenta o contributo desses homens: “Não há dúvida possível, o Brasil muito deve aos estrangeiros que vieram estabelecer-se em seu seio ou dele fizeram motivo de estudo e investigação, visitando-o e viajando pelas suas vastíssimas zonas, alguns ilustres, muitos prestimosos, todos ativos, enérgicos amigos do trabalho e de coração dedicados ao progresso e à grandeza dessa bela parte do continente”. [A. d’Escragnolle Taunay, “Estrangeiros ilustres e prestimosos…”, RIHGB, t. 58 (1885), parte 2, p. 248.]

Ainda que as afirmações do visconde se refiram ao século XIX como um todo, elas são especialmente válidas para o período joanino. O “progresso e a grandeza” trazida ao país pelos estrangeiros foi sobremodo decisivo no Rio de Janeiro dessa época, época do despertar da jovem nação, despertar de um povo submetido a uma longa fase de obscurantismo, de uma sociedade ainda muito fechada e, acima de tudo, de uma cultura incipiente, ansiosa por absorver influências que não viessem da velha Metrópole. Dentro desse contexto, o afluxo dos estrangeiros foi de uma enorme importância, pois não só tirou os habitantes locais da letargia intelectual em que jaziam, como também fomentou neles sentimentos morais e políticos fundamentais para a futura emancipação do país.

Mas nem só de estrangeiros e de instituições culturais se beneficiou o Rio de Janeiro dos tempos joaninos. A instrução pública foi um outro setor que angariou algumas atenções no período. É verdade que d. João VI, preocupado em formar um quadro mínimo de administradores para as várias instituições criadas, privilegiou os cursos técnicos e deu pouquíssima atenção à instrução básica. Rugendas, analisando o período e os avanços educacionais nele conseguidos, comenta: “Não se deu a devida importância à instrução das classes baixas e médias da sociedade, e os que, nas classes elevadas, sentiam a necessidade de uma instrução mais completa, nem por isso encontravam maiores recursos (…)”. [Johann Moritz Rugendas, Viagem através do Brasil (Trad. de Sérgio Milliet. 8a. ed. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, 1979), p. 202.]

A desatenção da administração joanina com o ensino básico foi tanta que, de 1808 a 1821, não se tem notícia da criação de um único colégio na Corte. Ao retornar para Portugal, o monarca deixou atrás de si quase a mesma estrutura que encontrara em 1808. Nessa época, a cidade contava com três colégios: o São Joaquim, o São José e o da Lapa. Acerca desses estabelecimentos pouco se pode dizer de elogioso. O da Lapa foi extinto alguns meses após o desembarque, pois suas instalações, de bom tamanho e bem construídas, foram ocupadas pelos carmelitas, cujo convento havia sido anexado à residência real. O Colégio São José era o mais velho deles. Suas instalações eram boas e sua localização bastante privilegiada. Contudo, de acordo com alguns viajantes que o visitaram, reinava no seu interior a negligência e a falta de asseio. O currículo desse estabelecimento compunha-se de lógica, metafísica, moral, geometria, grego, latim e, a partir de 1809, língua inglesa e francesa ? que começavam a despertar algum interesse nos habitantes locais. A qualidade do ensino que aí se oferecia era, segundo Luccock, de baixíssimo nível. O inglês, após uma visita às suas instalações, emite o seguinte parecer sobre os alunos: “Não apresentavam nenhuma elasticidade de espírito, nenhuma curiosidade sagaz, nenhuma urbanidade de maneiras e pouquíssimo asseio pessoal (…). Ao sairmos dali, estávamos todos prontos a dizer: nem um raio de ciência jamais penetrou aqui”. [John Luccock, Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil (trad. Milton da Silva Rodrigues. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, 1975), p. 49.]

O Colégio São Joaquim era o mais respeitado estabelecimento da cidade. Anexa à igreja de mesmo nome, essa instituição, apesar de receber um certo apoio governamental, estava instalada num edifício precário, sujo e mal localizado. Os alunos, que não eram muitos, dividiam-se entre pensionistas e alguns órfãos mantidos pelo próprio estabelecimento. O currículo do curso ministrado nessa casa era o seguinte: “(…) ensino de primeiras letras pelo método de Lencastre, de gramática latina, lógica, metafísica, moral, inglês e francês”. [J. B. Debret, op. cit., vol. 2, p. 22.]

Informa-nos Luccock que, na época do seu desembarque, o Colégio São Joaquim era responsável pela formação dos jovens que posteriormente viriam ocupar alguma função na administração pública. Em virtude disso, a qualidade dos seus professores mostrava-se superior àquela do outro instituto de educação.

Além dessas duas instituições, o jovem desejoso de obter uma formação básica só contava com mais duas alternativas: se abastado, ele poderia educar-se no interior de sua própria casa, tomando aulas com professores particulares, nacionais ou estrangeiros, que ofereciam seus serviços nos anúncios da Gazeta do Rio de Janeiro ou do Jornal do Commercio; se menos abastado, podia freqüentar uma “classe” de algum mestre-escola instalado na cidade. Essa última opção, como observa o comerciante inglês Luccock, em razão da total falta de fiscalização do governo, tinha lá seus inconvenientes: “O mobiliário de que dispunham [os mestres] era reduzido e seus processos de ensino imperfeitos; apesar do que os resultados obtidos, valiosos. As crianças ficavam atrancadas em cubículos reduzidos e abafados, onde todas liam alto ao mesmo tempo, com grande aborrecimento de cada qual. No escrever, o processo era melhor (…)”. [J. Luccock, op. cit., p. 86.]

Se os jovens rapazes dispunham de tão poucas opções, as mulheres ainda estavam em pior situação. Até 1815, quase nada havia sido feito em prol da educação das cariocas: essa se restringia à memorização de algumas preces religiosas e à prática do cálculo elementar sem o correlativo aprendizado da escrita e das operações. Ilustrativo da sua ignorância era o curioso hábito do “correio das flores”. Alguns contemporâneos contam que inúmeras donzelas desse período se correspondiam com seus amados através de flores: cada tipo ou cor significando uma mensagem específica.

Transcrevo aqui alguns fragmentos desse dicionário erótico: rosa, amor; viola-tricolor, amor-perfeito; espora, tristezas em geral, em razão de sua forma que apresenta na extremidade inferior uma espécie de ponta recurvada que pode ser comparada a um espinho; a escabiosa exprime a saudade; a alfazema fresca, a ternura e a alfazema seca, o ódio; certa fruta cujo nome é cajá, pela reunião das duas sílabas (aqui) e (imediatamente) quer dizer venha imediatamente, etc. [J. B. Debret, op. cit., vol. 2, p.23.]

Esse verdadeiro código tinha, segundo alguns, a função de evitar correspondências escritas; demasiado perigosas numa sociedade que, embora não primasse pela moralidade austera, apreciava as punições exemplares. Outros observadores, porém, apontam uma razão bem menos nobre para o uso deste código: o analfabetismo comum às jovens donzelas cariocas. À medida que a vida social ganhou alguma intensidade, esse pitoresco uso virou motivo de mofa e, nas igrejas, tornou-se cada vez mais comum verem-se as moças ostentarem orgulhosamente o seu livro de rezas. Esse progresso deveu-se sobretudo à imigração, a partir de 1816, de inúmeras portuguesas e francesas que abriram algumas aulas avulsas dedicadas a senhoras e iaiás: “(…) com a ajuda de um professor, (…) se comprometiam a receber em suas casas, a título de pensionistas, moças que quisessem aprender noções de língua nacional, de aritmética e de religião, bem como de bordados e costura. Algumas francesas também (…) davam lições de língua francesa e de geografia, em casas de pessoas ricas”. [Id., ibid]

Em 1820, além do aumento substantivo dessas educadoras estrangeiras, as moças locais já podiam freqüentar dois pequenos colégios, onde lhes era oferecida uma educação básica pouco mais sistemática que as concorridas aulas particulares. A educação feminina, entretanto, teve de esperar ainda alguns anos para ganhar um impulso mais decisivo.

A precariedade do ensino elementar no período joanino contrasta, como afirmamos, com o substantivo progresso do ensino técnico. Em abril de 1808, um mês após o desembarque, o monarca dá o primeiro passo nesse sentido: é criada, no Hospital Militar da cidade, a cadeira de anatomia cirúrgica. Tal iniciativa é complementada, meses depois (5 de novembro), com o decreto real que criou a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro. Essa instituição, instalada no Hospital Real Militar, oferecia um curso de cinco anos, com o seguinte currículo: anatomia teórica e prática, fisiologia, terapêutica cirúrgica e particular, medicina operatória, obstetrícia, farmácia, química e matéria médica. Finalmente, em 1812, o dr. Manuel Luís Alves de Carvalho (diretor dos estudos médico-cirúrgicos da Corte e Estado do Brasil) é encarregado de reformar o currículo acima exposto e, em 1813, de dar os retoques finais no que passou a ser o curso de cirurgia, aprovado pelo decreto de 1? de abril do mesmo ano. Essa preocupação com a implantação, mesmo que deficiente, do ensino médico na cidade vinha atender a uma necessidade premente. Até então a Corte não contava com quase nenhum profissional formado, estando a atividade médica completamente entregue aos cirurgiões empíricos e boticários ? muitos mergulhados na total ignorância. D. João VI deu-se conta dessa carência quando, alarmado com o alto índice de mortalidade local, consultou o físico-mor Manuel Vieira da Silva sobre as causas de tal fato. Este lhe informou que, ao lado das causas naturais (clima e geografia), havia uma série de fatores geradores de sinistros que, “sendo obra dos homens, podiam receber sua extinção da mão dos homens”: a contaminação do ar pelas sepulturas nas igrejas e pelos cemitérios descuidados, a péssima qualidade dos alimentos consumidos, a insalubridade das ruas e casas, a falta de fiscalização dos navios ancorados no porto e, ainda, o total descaso de que era vítima a atividade médica. [Manuel Vieira da Silva, Reflexões sobre alguns meios propostos por mais conducentes para melhorar o clima da cidade do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1808).] Essa última causa, salientava o físico-mor, era de longe a mais importante, pois um maior número de bons profissionais no setor seria de grande valia para intervir sobre o meio urbano e combater as outras causas mencionadas. Ciente dessas opiniões do dr. Manuel Vieira da Silva, o monarca apressa-se em incentivar a formação de profissionais de saúde. Daí a rápida criação do curso de cirurgia.

O príncipe regente, todavia, não cuidou só do ensino médico. Com o objetivo de melhor formar profissionais em algumas áreas vitais para o desenvolvimento da cidade (e do país), o monarca criou uma série de pequenos cursos ? aulas avulsas, na verdade ? de caráter pontual: em 1808, sob coordenação de José da Silva Lisboa (visconde de Cairú), surge o curso de economia política, “sem o qual”, como afirma o decreto de criação, “se caminhava às cegas e com passos muito lentos e às vezes contrários nas matérias do governo”; dois anos depois aparece o curso de comércio, que incluía aulas de aritmética, álgebra, geometria e várias outras matérias, como moedas e câmbios, seguros, leis e escrituração mercantil; em 1812, é criado o curso de química e, em 1814, o curso de agricultura. Com essa mesma preocupação profissionalizante surge, em 1808, a Academia de Guardas Marinhas e, em 1810, a Academia Real Militar. Ambas as academias ofereciam um curso com duração de três anos e apresentavam um currículo mais ou menos semelhante.

Embora a precariedade desses cursos e academias fosse grande, seus efeitos sobre a população foram bastante salutares. Luccock, por exemplo, que na sua primeira passagem pela cidade, em 1808, afirmou serem os militares ignorantes e os negociantes totalmente desconhecedores das operações comerciais, quando retorna em 1818, observa um substantivo progresso dessas classes. Segundo ele, as tropas estavam melhor organizadas e contavam, nas suas fileiras, com alguns oficiais esclarecidos e dedicados. Dos comerciantes, comenta que estavam “(…) aprendendo rapidamente os rudimentos mais importantes da ciência do comércio, adquirindo hábitos de confiança e pontualidade e encetando relações com distantes localidades sobre princípios novos e gerais”. [J. Luccock, op. cit., p. 384.]

Em meio a essas diversas ações civilizatórias executadas pela administração joanina, esboçaram-se algumas iniciativas particulares que direta ou indiretamente vieram dar sua contribuição para o avanço das luzes na cidade. No rol das iniciativas voltadas francamente para esse fim estão as chamadas sociedades. A Loja Maçônica foi uma delas. Apesar da intolerância do governo e da intensa perseguição sofrida pelos seus membros, essa agremiação muito contribuiu para a divulgação de idéias políticas e morais, fundamentais para o processo de independência que viria logo a seguir. Mas a Maçonaria não foi a única. Pouco tempo após o desembarque, o conde da Barca organizou uma Sociedade de Encorajamento à Indústria e à Mecânica. Essa associação, apesar de reunir um número substantivo de homens do comércio e de outras classes, “permaneceu em completa apatia durante mais de doze anos, apenas conhecida do pagador da Tesouraria real, que fornecia os fundos consumidos anualmente”. [J. B. Debret, op. cit., vol. 2, p. 27.]

Mais útil e eficiente foi a Sociedade Filantrópica Suíça, criada no final do período joanino para auxiliar os colonos instalados em Nova Friburgo. Tal instituição, além de prestar serviços de apoio ao desenvolvimento da agricultura nessa região, recolheu e educou alguns meninos órfãos, constituindo a mais antiga associação de beneficência criada no Rio de Janeiro. Norteada por nobres e patrióticos ideais, mas com vida curta e pouco produtiva foi a Sociedade Literária, fundada por Januário da Cunha Barbosa e Joaquim Gonçalves Lêdo. Em 3 de novembro de 1821 (meses após a partida de d. João VI), foram apresentados os estatutos dessa associação e, em 7 de novembro do mesmo ano, foram eleitos os ditos sócios; houve ainda sessões em 14, 19 e 27. Todavia, os acontecimentos políticos que antecederam a Independência começaram a ganhar corpo, e os patriotas associados, ativos participantes da vida pública, voltaram suas atenções para esse fundamental processo da vida nacional, deixando de lado, ao menos por hora, as preocupações de caráter cultural.

No rol das iniciativas que indiretamente colaboraram com a melhoria da qualidade intelectual da população carioca está o comércio livreiro. Seu impulso inicial ocorreu com a abertura dos portos em 1808. Até então, como vimos, além de a procura desse artigo ser extremamente limitada, sua entrada no país só podia fazer-se, na maior parte das vezes, clandestinamente. Após 1808 a situação começa a melhorar, embora, segundo conta o padre Perereca, ainda fosse difícil encontrar bons livros e seus preços alcançassem valores exorbitantes, a cidade já contava com alguns poucos livreiros. Luccock, em 1813, menciona a existência de três. Em 1814, nas edições da Gazeta do Rio de Janeiro, os únicos anunciantes do produto são P. Martins Filho (proprietário de uma casa comercial situada na rua da Quitanda) e a própria Gazeta, que mantinha uma loja do gênero anexa à sua sede. Havia também alguns anúncios de estabelecimentos que, em meio a produtos diversos, comercializavam livros. Um exemplo desse tipo é uma loja situada na rua do Ouvidor n? 10, onde se vendiam objetos de vidro e outras variedades, entre as quais as Fábulas escolhidas de La Fontaine, os Princípios da língua francesa, os Efeitos da má educação e outras obras ao preço de 2$000. Três anos depois, Spix e Martius não encontraram senão duas livrarias na cidade, acerca das quais tecem o seguinte comentário: “A propagação da língua francesa e a importação de enorme quantidade de seus livros supera tudo que se pode imaginar, tanto mais que no Rio de Janeiro só existem duas livrarias mal fornecidas. Além das novidades do dia, (…) são lidas especialmente as obras de Voltaire e Rousseau (…)”. [J. B. von Spix & C. F. P. von Martius, Viagens pelo Brasil (trad. Lúcia Furquim Lahmeyer. 3 vols. 4? ed. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, 1981), vol. 1, p. 57.]

Luccock faz um comentário semelhante. Ao assistir a um leilão de livros ocorrido na Corte em 1818, observa que os livros franceses eram muito procurados, mas que tinha sido impossível vender uma edição de Glasgow da Ilíada de Homero, em grego, a Septuaginta e o Novo Testamento, na mesma língua, um Saltério, em hebraico, e ainda que algumas obras latinas e inglesas tinham sido vendidas com muita dificuldade para alguns estrangeiros e uns poucos nativos.

Mesmo tendo em conta a opinião dos viajantes acima citados e recorrendo a algumas outras fontes e estudos, [A esse respeito ver nota 5 e, também, Maria Beatriz Nizza da Silva, Cultura e sociedade no Rio de Janeiro, 1808-1821 (2? ed. São Paulo: Editora Nacional, 1978).] é muito difícil determinar o que efetivamente se lia durante os anos que se seguiram ao desembarque de d. João VI em solo carioca. Sabe-se que o conde da Barca possuía edições de Platão, Timeu de Locres, Ocelo Luciano, Máximo de Tiro e Salústio; possuía ainda, no que se refere à filosofia moderna, obras de Ralph Cudworth, John Locke, Thomas Hobbes, Jeremy Bentham, Bolingbroke, Robert Boyle, Adam Ferguson, Brucker e Thomas Stanley. O Leviatã de Hobbes e a Introdução aos princípios da moral e da legislação de Bentham eram, por sinal, livros constantemente consultados pelos homens cultos do Rio oitocentista. Contudo, era a literatura pseudo-filosófica, de cunho moralizante, a mais anunciada e consumida pelo carioca do período. Livros como Avisos de uma mãe a seu filho, Lições de um pai a uma sua filha, Tesouro de meninos e Aforismos morais eram muito bem aceitos pelas famílias cultas e interessadas na boa formação de seus jovens membros.

Maior que a presença da literatura filosófica era a da literatura jurídica. Nas estantes dos jovens bacharéis formados em Coimbra (ou em outras universidades européias) proliferavam os manuais de direito prático, as Ordenações Afonsinas, Filipinas e Manuelinas, os dicionários jurídicos, os compêndios de direito pátrio e uma grande variedade de manuais, guias e coleções de leis. Pelos anúncios encontrados na Gazeta do Rio de Janeiro, observa-se que os livros teóricos e eruditos, como por exemplo aqueles voltados para a exegese do direito romano ou para questões referentes ao direito natural, despertavam pouco interesse. As atenções dos bacharéis da época estavam voltadas para o direito prático, positivo. Interessavam-lhes, sobretudo, os livros que oferecessem alguma orientação sobre como proceder no complicado labirinto da legislação vigente.

Os livros de economia também tinham alguma circulação no Rio de então. O grande patrono dessa ciência entre nós foi José da Silva Lisboa, autor, entre outras obras, da Memória dos benefícios políticos do governo de el-rei nosso senhor d. João VI. Silva Lisboa, além de intenso pesquisador da realidade nacional, foi um ávido divulgador da moderna bibliografia econômica européia ? especialmente da obra de Adam Smith e David Ricardo. Entretanto, o interesse dos habitantes locais incidia em geral sobre os manuais práticos referentes à agricultura, à manufatura e ao comércio. Além das obras filosóficas, jurídicas e econômicas, podiam-se encontrar nos livreiros e bibliotecas locais (públicas e particulares) livros de medicina, de história natural (desenho, pintura, arquitetura, arte militar) e, sobretudo, de belas-letras.

Como se pode constatar, os anos joaninos foram bastante ativos em matéria de cultura. Na verdade, os resultados obtidos com as várias medidas de propagação das luzes e dos bons hábitos ? hábitos europeizados ? foram muito além do que esperava o monarca português. D. João tinha como objetivos tão somente dotar a cidade de um mínimo indispensável de instituições e de homens capazes de levar adiante a administração do país, produzir uma população com hábitos mais ordeiros e urbanos ? civilizados, como então se dizia ? e, por que não dizer, tornar a vida da família real e da nobreza cortesã mais aprazível, mais próxima daquela vida que haviam deixado para trás quando apressadamente saíram de Lisboa. No entanto, um rápido balanço do período demonstra que as atitudes de d. João VI tiveram conseqüências não previstas, conseqüências que extrapolaram os objetivos por ele visados. No que se refere à administração da cidade (e do país), se por um lado o monarca conseguiu viabilizá-la, investindo na fundação de um leque de instituições e na formação de um quadro de indivíduos capazes de conduzí-las a bom termo, por outro lado, ele criou condições para a emergência de uma elite local ? embrionária, é verdade ? não só familiarizada com os negócios de Estado mas também ansiosa por desvencilhar-se dos laços que uniam a antiga Colônia a Portugal. Além disso, dotou a cidade de uma estrutura institucional que, conquanto se mostrasse bastante precária, já oferecia condições para que o país se desenvolvesse autonomamente, livre das constantes recorrências à Metrópole.

No âmbito da remodelação dos hábitos locais, os efeitos inesperados foram ainda maiores. O processo civilizatório desencadeado pelo monarca português, mais do que dotar os habitantes de modos urbanos e ordeiros, foi responsável por profundas mudanças na sua forma de vida: ampliou seus horizontes para além dos limites da casa, despertou-os para a idéia de nação, dotou-os de um comportamento menos hostil à convivência social, excitou neles o interesse pelos assuntos referentes à política nacional e ampliou consideravelmente sua curiosidade pela cultura. Quanto a esse último aspecto, que nos interessa aqui em particular, é importante salientar que nos anos joaninos o consumo dos artigos de cultura começa a ultrapassar o pequeno grupo de produtores/consumidores dos tempos coloniais e que, de certo modo, se define aí o perfil da cultura e do intelectual brasileiros do Oitocentos. Para entendermos melhor tais aspectos, passemos os olhos por três ou quatro setores da atividade cultural do período e pela atuação de uns poucos expoentes da intelectualidade de então.

Alguns setores da cultura avançaram muito durante os treze anos de permanência da Corte portuguesa entre nós e tais avanços foram decisivos para os pontos que aqui nos interessam: a definição do lugar social da cultura e do produtor cultural e a formação de um público. O ramo da oratória sagrada foi um desses setores. O púlpito viveu então um momento de glória. Para tal concorreram pelo menos dois fatores. De um lado, o apoio que o monarca português, profundo devoto e assíduo freqüentador das igrejas, deu a essa arte. De outro lado, o papel central ocupado pelas atividades religiosas no cotidiano da cidade. A Igreja e as festividades por ela promovidas constituíam os pontos altos da vida social carioca. Estavam longe ainda os tempos da intensa atividade teatral, dos bailes do cassino, dos saraus ou das soirées literárias. Beneficiados pelo apoio real e pelo apreço do público, alguns nomes alcançaram grande prestígio na cidade. É o caso de Antônio Pereira de Sousa Caldas, frei Francisco de Santa Tereza de Jesus Sampaio, frei Francisco de São Carlos, Januário da Cunha Barbosa e o afamado frei Francisco de Monte Alverne.

Sousa Caldas (1762-1814), após se formar em Coimbra e peregrinar algum tempo pela Europa, retorna ao Brasil em 1808 com o monarca português e inicia sua atividade de orador. Instalado no Rio de Janeiro a partir dessa data, Caldas pregou sobretudo na igreja de Santa Rita, onde todos os domingos, diante de farto e escolhido auditório, dissertava sobre o Evangelho e seus mistérios. O sermonista havia alimentado na mocidade uma certa simpatia pelos filósofos iluministas e em razão disso sofrera uma repreensão do Santo Ofício. Desde então, seu apego à tradição católica fez-se notar nos temas que desenvolvia nos seus sermões. Além da atividade de sermonista, Caldas compôs poesias líricas ? as quais tiveram alguma influência sobre a primeira geração romântica ? e traduziu salmos bíblicos para a língua portuguesa. Sua contribuição para a cultura da época, contudo, foi, se comparada aos oradores seus contemporâneos, bastante limitada. Voltados essencialmente para os temas religiosos, seus sermões passaram ao largo de um tema muito apreciado na época e de fundamental importância para a nascente intelectualidade local: o patriotismo.

Ao contrário de Sousa Caldas, o franciscano São Carlos teve uma vida bem menos cosmopolita. Nascido no Rio de Janeiro em 1763, o frade nunca deixou o país e obteve toda a sua formação nos seminários locais. Esse fato, a propósito, muito orgulhava São Carlos. Conta-se que na primeira vez em que d. João o ouviu pregar, admirado, perguntou-lhe: “És português?” Ao que o frade respondeu: “Brasileiro, senhor, e nunca saí do Brasil”. A admiração do príncipe regente proporcionou a São Carlos uma série de benefícios, entre os quais os cargos de pregador-régio e de examinador da Mesa de Consciência e Ordens. Enquanto pregador, era bastante estimado pelos contemporâneos, que o julgavam muito ilustrado e dotado de uma linguagem envolvente. Embora poucas de suas composições tenham chegado até nós ? quatro sermões e o poema À Assunção da Virgem ?, nessas é possível detectar o profundo patriotismo que, por detrás de pretextos bíblicos desenvolvidos em tom declamatório, norteava as falas do franciscano. Um bom exemplo desse espírito patriótico encontra-se na oração em ação de graças pelo nascimento de d. Maria da Glória, princesa da Beira, recitado na igreja de São Francisco de Paula em 12 de maio de 1819. Alguns trechos desse sermão são bastante ilustrativos. Ao se referir, por exemplo, à mudança de d. João VI para o país, o frade, lançando os olhos para o futuro, assim se posiciona:

Mas quando eu vejo, senhor, esta parte do globo sepultada há 6 mil anos nas trevas e sombras da morte, e de repente habitada pelo mais religioso príncipe do velho mundo, (…) então Deus meu, quase que vislumbro por entre as densas trevas do porvir grandes coisas a este terreno; e que nas suas mãos benfazejas se preparam novas misericórdias ao meu país. É aqui, meus senhores, que eu quisera ver em espírito os destinos futuros da minha pátria. [Id., ibid., p. 89.]

Ainda no mesmo sermão, após saudar o nascimento da princesa, ocorrido em solo brasileiro, e exaltar os nacionais a muito comemorar tal fato, diz o frade: “Enquanto a mim, se eu fora lisonjeado pelos mimos da fortuna, daria um espetáculo que publicaria assaz o alvoroço de meu patriotismo”. [Id., ibid., p. 90.] O vivo amor pelo país do franciscano São Carlos manifestou-se também em algumas cenas brasileiras que introduziu no seu Assunção, nomeadamente no 3? e 6? cantos.

Assim como São Carlos, frei Jesus Sampaio teve uma vida desprovida de cosmopolitismo. Nascido no Rio de Janeiro em 1778, o frade formou-se em humanidades na cidade de São Paulo e tomou a ordem de presbítero, em 1793, na sua cidade natal. Nela ocupou os cargos de pregador da Real Capela, examinador da Mesa de Consciência e Ordem, censor episcopal e, em 1824, o de deputado da Bula da Cruzada. Como pregador, Sampaio não difere de seus contemporâneos. Gozou, como eles, da fama e do prestígio então inerentes aos ocupantes do púlpito. Uma nota, contudo, merece destaque na atividade desse franciscano: a contundência com que abordava questões referentes à política nacional. O viajante C. Schlichthorst, em 1823, relata que certa feita viu o frade analisar a situação do governo em frente ao próprio imperador, que reagiu com desagravo sem que o pregador desse por isso:

Uma vez por ano, o imperador costuma ouvir missa no Convento de Santo Antônio (…). Num desses dias, rotundo frade subiu ao púlpito e fez um sermão recheado de referências à situação política do Brasil. (…) Infelizmente, não entendi o que o frade disse, mas vi claramente d. Pedro rir sob o pálio, depois, de repente, empalidecer e levantar enraivecido. O franciscano não se deixou impressionar por esses evidentes indícios do desagrado imperial e continuou a falar com dignidade (…). [C. Schlichthorst, O Rio de Janeiro como ele é (Trad. Emmy Dodt & Gustavo Barroso. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1943), pp. 112-13.]

Mas não foram só críticas ao governo do primeiro Pedro que tiveram lugar nos sermões do frei Sampaio. No Te-Deum de ação de graças ao restabelecimento da saúde do imperador, mandado solenizar pela corporação dos ourives da Corte, Sampaio tece-lhe largos elogios e enfatiza o seu papel na manutenção da estabilidade política do país:

Contai, contai senhores, com a desgraça do Brasil, com a queda do nosso sistema constitucional, com a espoliação de vossas riquezas, com a perda de vossa segurança, com a vergonha dos ferros do mais atroz despotismo, com a humilhação da nossa independência, com o eclipse enfim do Brasil, se perdermos o imperador. [Apud B. F. Ramiz Galvão, “O púlpito no Brasil” (RIHGB, t. 92 ? 1922 ?, pp. 9-160), p. 102.]

Passemos agora aos dois nomes mais destacados desse grupo de oradores: Januário da Cunha Barbosa e frei Francisco de Monte Alverne. Antes, porém, um sucinto esclarecimento. Note-se que as rápidas pinceladas com que pintamos Caldas, São Carlos e Sampaio não têm a intenção de compor um quadro bibliográfico nem de funcionar como uma espécie de análise literária. Nosso objetivo foi traçar os contornos de um gênero bastante popular na época analisada, gênero que, através dos seus praticantes mais estimados, foi fundamental para a formação cultural dos habitantes da Corte e para a estruturação da nascente intelectualidade local. Essa rápida digressão é somente para justificar ao leitor por que dedicaremos uma atenção mais demorada aos dois oradores restantes. Se considerados pelo prisma mencionado, eles têm uma importância bem maior que os anteriores: Barbosa, devido à intensa atividade política e cultural que desenvolveu; Monte Alverne, em razão da influência que exerceu sobre as gerações seguintes, especialmente sobre a importante geração de Gonçalves de Magalhães. Ambos os oradores fornecem-nos ainda um ilustrativo retrato do intelectual que se formou no início do Oitocentos brasileiro, da sua atividade e da sua atuação no meio social.

Vejamos primeiramente o cônego Januário da Cunha Barbosa. Nascido em 1780 na cidade do Rio de Janeiro, Barbosa entrou para o sacerdócio aos 23 anos. É através do púlpito que se lança na vida política e cultural da capital. Cedo sua reputação se solidifica e chega aos ouvidos do monarca português. A partir de então, a fama de Januário da Cunha Barbosa cresceu e, em pouco tempo, o cônego tornou-se uma celebridade política e literária. Barbosa fez parte daquela diminuta elite, formada nos anos que decorreram entre a chegada de d. João VI e o Primeiro Reinado, em torno da qual se construiu uma espécie de lenda. A mitificação dos poucos intelectuais existentes foi muito forte durante as primeiras décadas do século XIX. E isso por várias razões: a opinião pública praticamente inexistia, os intelectuais eram poucos e pertenciam quase todos a um mesmo grupo, a atividade crítica era nula e, sobretudo, a febre nacionalista era demasiado forte, revestindo de brilhantismo toda e qualquer produção cultural empreendida por um filho da pátria. Assim, apesar dos seus limitados dotes, J. C. Barbosa foi tido então como um grande erudito, dotado de um raro talento. Seja como for, é inegável que o contributo desse homem para as letras do país e para sua política foi enorme. Mas isso menos em razão de sua apregoada genialidade e mais em função da infatigável atividade que desenvolveu na Corte. Durante o período que viveu (1780-1846) são poucos os movimentos políticos e as iniciativas culturais que não contaram com sua participação. Como afirma Ramiz Galvão: “Era incansável; tinha atividade espantosa, dividia seu tempo por ocupações as mais diferentes (…). Visou desde moço como fito de seus esforços a glória da pátria (…)”. [B. F. Ramiz Galvão, op. cit., p. 109.]

Dessa atividade incansável já tivemos oportunidade de mencionar alguns resultados. É o caso da criação da Sociedade Literária, fundada em 1821. Mas o contributo do cônego Januário da Cunha Barbosa não se restringiu a tais feitos. No campo da literatura, por exemplo, sua ação não é nada negligenciável. Araújo Porto Alegre, tecendo-lhe o elogio fúnebre no Instituto Histórico, fala na existência de cerca de 400 sermões por ele compostos. É difícil avaliar a veracidade da informação de Porto Alegre. Até nós chegaram uns poucos discursos e sermões impressos em folhetos, dois poemas longos ? Niterói (1823) e Os garimpeiros (1837) ?, uma comédia política ? A rusga da Praia Grande (1831) ?, um significativo número de textos políticos e culturais espalhados nos muitos periódicos em que colaborou, diversas biografias de “brasileiros ilustres”, publicadas na revista do IHGB, e a antologia Parnaso Brasileiro. Januário da Cunha Barbosa, em resumo, é um exemplar nada incomum do intelectual-literato que se forjou no Rio de Janeiro oitocentista: um homem de talento mediano ? mas extremamente valorizado pela parca intelectualidade local ?, cuja ação, impulsionada por um caloroso patriotismo, se fez sentir em setores diversos do incipiente mundo da cultura carioca e foi de suma importância para lançar as bases dessa mesma cultura. Em uma frase: um intelectual profundamente empenhado na cruzada civilizatória que iniciava a sua marcha.

Menos ativo que o cônego Barbosa, mas igualmente importante, foi o frei Francisco de Monte Alverne (1783-1858). Considerado pelos contemporâneos o maior orador sacro do período, esse franciscano, que tomou hábito aos dezesseis anos, obteve sua formação em São Paulo sob a orientação do padre-mestre frei Ignácio de Santa Justiça, considerado na época eminente teólogo. Em 1816, de volta à capital, é nomeado por d. João VI pregador da Real Capela. Monte Alverne, por essa época, faz o seguinte comentário: “Lançado na grande carreira da eloqüência em 1816, como pregador régio, oito anos depois que nela entravam S. Carlos, Sampaio, monsenhor Neto e o cônego Januário da Cunha Barbosa, tive de lutar com esses gigantes da oratória, que tantos louros tinham ganhado, e que forcejavam por levar de vencida todos os seus dignos rivais”. [Apud J. C. Fernandes Pinheiro, “Biografia de brasileiros ilustres… Frei Francisco de Monte Alverne” (Revista do IHGB, t. 33 ? 1870 ?, pp. 145-56), parte 1, p. 144.]

A luta contra os gigantes logo se mostrou favorável ao franciscano. Rapidamente ele ganhou fama e o púlpito abriu-lhe uma série de novas possibilidades. Em 1818, é nomeado examinador da Mesa de Consciência e Ordem, depois teólogo da Nunciatura Apostólica e, no ano seguinte, guardião do Convento da Penha. No meio cultural, Alverne não foi menos prestigiado. Em 1829, o bispo do Rio de Janeiro, d. José Caetano da Silva Coutinho, o nomeia para a cadeira de retórica do Episcopal Seminário de São José e o autoriza a cobrir as faltas dos professores de filosofia e teologia dogmática, cadeiras que, mais tarde, veio a reger como proprietário. Além desse cargo, Alverne recebeu diplomas de reconhecimento de várias associações científicas, como o IHGB, a Imperial Sociedade Amante da Instrução, a Sociedade Ensaio Filosófico e até mesmo o Instituto Histórico de França ? que o fez membro correspondente em 1835.

A influência desse estimado franciscano sobre a nascente intelectualidade carioca foi muito significativa, fazendo-se sentir sobretudo através de suas aulas no Seminário São José e, naturalmente, de suas concorridas pregações. Como professor, Monte Alverne foi responsável pela formação filosófica de muitos dos jovens que poucos anos depois viriam a ocupar a linha de frente do denominado romantismo brasileiro. Nas aulas do franciscano tais jovens tomaram contato com aquela que seria uma das tendências filosóficas mais presentes no seio desse movimento: o ecletismo de Víctor Cousin. No seu Compêndio de filosofia, Alverne apresenta o pensador aos seus discípulos com as seguintes palavras:

Vê-se, pois, que o meu sistema é o sensualismo; mas depois do aparecimento do idealismo, o sensualismo não se pode manter seguro nos seus domínios exclusivos. Todavia, ambos estes sistemas ofereciam erros que os seus sectários se lançavam em rosto mutuamente (…). Os sistemas exclusivos foram proscritos por M. Víctor Cousin. O sensualismo e o idealismo (…) deram-se as mãos (…). O sistema sublime de M. Cousin apenas é conhecido no Brasil, e por desgraça, seus trabalhos filosóficos ainda não estão completos (…). Eu forcejarei entretanto por aproveitar o que ele tem feito e restaurar com ele o sistema filosófico. [Francisco de Monte Alverne, Compêndio de Filosofia (Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1859), pp. 104-05.]

Dessa tentativa de “restaurar o sistema filosófico” em companhia de Cousin saiu uma série de temas que mais tarde seriam muito caros à primeira fase do nosso romantismo: o culto do eu; o cristianismo enquanto experiência individual, enquanto modo de sentir; as artes e a literatura como auxiliares da religião; a exaltação da pátria; e mesmo a função civilizadora das letras.

A influência de Monte Alverne como professor restringiu-se, porém, ao restrito grupo que freqüentou suas aulas de retórica e filosofia no Seminário São José. Foi como sermonista que sua palavra chegou aos ouvidos de um número realmente significativo de cariocas. Como vimos, ele iniciou essa atividade em 1816, sob a chancela do religioso d. João VI. Rapidamente sua fama cresceu e se espalhou pela cidade. Desde então suas pregações se tornaram verdadeiros acontecimentos públicos. Ramiz Galvão descreve sua popularidade nos termos seguintes:

Monte Alverne foi por muitos anos para os brasileiros o primeiro homem de seu país; o povo em massa corria ansioso para o ouvir nos púlpitos, como a um enviado do Céu; no auditório que o ia admirar encontravam-se sempre as mais altas ilustrações brasileiras; a mocidade, a mocidade ardente de saber e de glórias, a mocidade admiradora entusiasta, quase fanática de seu talento, essa entoava-lhe os mais lisonjeiros hinos de apoteose, aplaudia-o até com frenesi, e venerava-o como a um apóstolo. [B. F. Ramiz Galvão, op. cit., p. 116.]

Compostos em estilo mais simples que os de seus antecessores, recheados de imagens torneadas por coloridos adjetivos e abordando temas que em muito agradavam a intelectualidade e os jovens locais, os concorridos sermões de Monte Alverne de fato encantaram por muito tempo os cariocas. Encanto bastante útil para atender à função que o franciscano lhes conferia: doutrinar o povo, incutir nele idéias úteis ao desenvolvimento da moral, da civilização e do sentimento patriótico.

Alverne pregou até 1836, quando, abatido pela cegueira, se retirou da vida pública. Sua fama, entretanto, permaneceu. Várias foram as homenagens que recebeu durante o período de seu isolamento. Mesmo os mais jovens, que não tinham podido vê-lo em ação, devotavam-lhe profunda admiração e respeito. Prova dessa fama duradoura foi o seu festejado retorno aos púlpitos em 1854. Dessa solene e fulgurante aparição, colhamos a impressão de Araújo Porto Alegre, publicada na Revista Guanabara no mesmo ano:

Um numeroso e inteligente auditório se premava em todo o âmbito da capela imperial, uma corte luzida pautava as alas do templo; os corredores, as escadas, e todo o adro se povoavam de espectadores (…)! Os velhos choravam e como que remoçavam aos assaltos de suas reminiscências, e os moços também choravam à vista daquele sublime representante de tantas glórias, daquele antigo proprietário de tantas ovações, e do aparecimento de um homem cujo nome vagava entre nós como a sombra de um gigante. [Apud J. C. F. Pinheiro, op. cit., p. 152.]

A reaparição de Monte Alverne, na década de 1850, foi o último suspiro da fase de ouro do púlpito brasileiro. Já nessa época a sermonística encontrava-se em decadência e não contava mais com o grande apreço do público de que gozara no período joanino e mesmo no Primeiro Reinado. O acontecimento de 1854 foi mais o recordar de uma época passada e o cultuar de um antigo mito do que propriamente o renascer de um gênero. A vida na Corte tinha mudado muito e a concorrência que sofriam os púlpitos era demasiado acirrada para que pudessem resistir. Sua herança, no entanto, esta foi grande, profunda e muito importante para a nascente vida cultural da cidade. À oratória sagrada as gerações seguintes devem algumas conquistas decisivas: o alargamento da pacata vida social da cidade, a criação de um público para as manifestações culturais, a divulgação dos temas patrióticos, a projeção da figura do homem de cultura, o abrasileiramento da linguagem e, principalmente, o entendimento da atividade intelectual como um instrumento civilizatório. Em resumo, a inteligência local deve à atividade dos púlpitos nada menos que a demarcação inicial do lugar que a cultura e o produtor cultural ocupariam no meio social carioca do Oitocentos.

Não se pode dizer, no entanto, que o período compreendido entre o desembarque de d. João VI e o início do governo do primeiro Pedro foi, no campo da cultura, dominado exclusivamente pela sermonística. Esses anos, marcados pelo nascimento de algumas atividades culturais que após 1831 tomariam um grande impulso, devem ser qualificados como uma espécie de fase preparatória do grande entusiasmo nacionalista da geração chefiada por Magalhães. Nesse sentido, é possível detectar várias sementes que foram aí plantadas. Retomemos, por exemplo, a atividade da Impressão Régia. Das oficinas dessa instituição ? que na época era coordenada por uma junta composta por J. C. Barbosa, José da Silva Lisboa, Mariano José Pereira da Fonseca, Silvestre Pinheiro Ferreira e Manuel Ferreira de Araújo Guimarães ? saíram, como referimos, as primeiras edições nacionais de Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, do Uraguai, de Basílio da Gama, de alguns sermões dos nossos renomados pregadores e também do Parnaso Brasileiro do laborioso Januário da Cunha Barbosa. Ora, o que se observa facilmente nestas iniciativas é a patriótica preocupação em dotar a nascente literatura brasileira de um conjunto de obras e de autores significativos, dotá-la, em suma, de uma tradição.

Datam também da época de d. João VI as primeiras manifestações da arte dramática em solo carioca. Não se trata, é verdade, da origem dessa atividade entre nós. De fato, a história do teatro no Rio de Janeiro remonta ao período colonial. Basta mencionar que o renomado Louis Antoine Bougainville, que visitou a cidade em 1768, teve então oportunidade de assistir na cidade à encenação de uma ópera de Metastásio:

A atenção que nos dispensava o vice-rei prolongou-se por muitos dias; num dos quais ele nos ofereceu uma pequena ceia ? servida à beira-mar sob um caramanchão decorado com flores de laranjeira e jasmins ?, seguida de um espetáculo de ópera. Fomos conduzidos até a uma bela sala, onde assistimos a uma representação da obra maior de Metastásio, encenada por uma trupe de mulatos, e escutamos alguns extratos dos grandes mestres italianos executados por uma péssima orquestra dirigida por um padre corcunda em traje eclesiástico. [Jean Marcel Carvalho França, Visões do Rio de Janeiro colonial, op. cit., pp. 119-20.]

Entretanto, foi somente na profícua época do monarca português que esta atividade passou a ter maior penetração social. Em 1813, como vimos, é fundado o primeiro teatro da Corte digno desse nome: o Real Teatro de São João. É após a abertura dessa casa que a atividade dramática carioca ganha uma existência concreta, com apresentações regulares, grupos fixos de atores, peças originais e traduzidas e, sobretudo, público. Luccock, que em 1808 havia presenciado um espetáculo teatral numa pequena casa próxima ao Paço e ficara perplexo com o estado miserável do edifício, com a péssima qualidade do espetáculo e com o número diminuto de espectadores, após a inauguração do Teatro de São João comenta:

As distrações do teatro progrediam de par com os assuntos de maior importância. Não somente o regente dava largas ao que nele parecia ser uma forte inclinação pessoal, comparecendo assiduamente aos espetáculos, como neles aparecia acompanhado de sua família. Daí tornar-se moda, para quantos quisessem fazer-se passar por pessoas de destaque, aparecer também ali (…). Seguiu-lhes a multidão no encalço; uns para admirar o espetáculo, outros para contemplar a platéia. [J. Luccock, op. cit., p. 163.]

Além de colaborar para a quebra da monotonia do cotidiano local e de atrair o público para as ruas, a atividade teatral funcionou nessa época como uma importante escola de costumes ? papel aliás que lhe será atribuído durante todo o século XIX. A esse respeito, o mesmo Luccock tece a seguinte consideração: “Nas peças que se representavam, ridicularizavam-se as maneiras, vícios, dialeto e outras peculiaridades da Colônia, o que corrigiu os gostos do público”. [Id., ibid.]

Essa incipiente e pedagógica produção teatral alimentava-se então de algumas poucas obras originais e muitas traduções. Os gêneros mais apreciados eram a tragédia, a comédia, o entremez (um drama pequeno, que se representava entre os atos da comédia ou tragédia) e, em menor escala, o drama com música, a ópera e a serenata com música. Num mesmo dia de espetáculo, o público podia, muitas vezes, assistir a mais de um gênero.

A herança dessa atividade teatral não foi tão rica quanto aquela deixada pela sermonística. O púlpito e seus ocupantes marcaram mais profundamente a mentalidade do carioca da época, principalmente a mentalidade daqueles homens ligados às atividades culturais. Isso não significa que o movimento teatral iniciado com a inauguração do Teatro de São João, em 1813, não tenha contribuído para o enriquecimento da nascente cultura nacional e para a instauração de novos hábitos entre a população ? os tais hábitos civilizados. Quanto a este último aspecto, pudemos perceber pelo testemunho do inglês Luccock que a influência da arte dramática sobre os habitantes locais foi importante não só para a alteração dos seus costumes como também para a ampliação da restrita sociabilidade de que gozavam. Além disso, nunca é demais mencionar, o teatro funcionou nessa época como um espaço propício para a manifestação do crescente sentimento patriótico. No que tange à cultura nacional, o legado desse ramo das belas-letras também foi menos substantivo. A atividade dramática da época joanina e do Primeiro Reinado não deixou lastro duradouro. É verdade que, ao divulgar autores como Racine, Voltaire, Molière, Bocage e outros, essa atividade contribuiu para o aprimoramento do gosto e a ampliação dos horizontes literários da população local. Todavia, o teatro da época não foi capaz de forjar uma dramaturgia de feição nacional; feito que só ocorreria alguns anos mais tarde, graças aos esforços da geração chefiada por Magalhães.

No mesmo ano da inauguração do Real Teatro de São João (1813), o Rio de Janeiro viu surgir a sua primeira publicação literária: O Patriota. A revista circulou até o ano seguinte, a princípio mensalmente, passando depois à bimestralidade. Ela contava, em geral, com cento e poucas páginas de texto e tinha como objetivos a divulgação e o desenvolvimento das letras, ciências e artes nacionais. Nos dezoito números publicados, foram abordados os assuntos mais diversos: literatura, mineralogia, topografia, história, política (nacional e estrangeira), medicina, estatística, agricultura, química, hidrografia, etnologia, artes, navegação, comércio, matemática, botânica, gramática filosófica e eloqüência. O periódico trazia ainda uma sessão dedicada à apresentação crítica de obras publicadas aqui e no estrangeiro. Nas suas páginas apareceram artigos dos grandes vultos da nascente inteligência brasileira e da imigrada intelectualidade portuguesa, nomes como José Bonifácio de Andrada, Domingos Borges da Barros, Manuel Inácio da Silva Alvarenga, Antônio Dinis da Cruz e Silva e Mariano José Pereira da Fonseca. O próprio Hipólito José da Costa, no número de 17 de dezembro de 1813 do Correio Braziliense, comenta que O Patriota configurava, entre outros, um índice inequívoco do amadurecimento intelectual pelo qual passava a cidade nesse período.

No Rio de Janeiro se imprime um jornal, cujo título é O Patriota; e com o do mês de agosto vieram ter-nos à mão algumas traduções impressas no Brasil; e entre outras a Henríada de Voltaire. Há dez anos, estando a Corte em Lisboa, ninguém se atreveria a dar a um jornal o nome de Patriota, e a Henríada de Voltaire entrava no número dos livros que se não podiam ler sem correr o risco de passar por ateu, pelo menos por jacobino. [Apud W. Martins, op. cit., vol. 2, pp. 41-42.]

A criação d’O Patriota foi um acontecimento da maior importância para a cultura local. E isso pelo menos por duas razões. De um lado, porque através de resenhas críticas diversas, através da divulgação de traduções e de inéditos dos nossos poetas e mesmo através da recuperação de trabalhos desconhecidos de autores como Claudio Manuel da Costa e Basílio da Gama, o periódico atuou como um importante veículo de formação da nossa literatura e de nossos literatos. De outro lado, pelo fato de ter ele funcionado como uma espécie de modelo para uma série de publicações do mesmo gênero que apareceram no país após 1831, dentre as quais a Revista da Sociedade Filomática e a famosa Revista Niterói. Esse modelo, em termos gerais, apresentava os seguintes contornos: uma linha editorial fortemente marcada pelo patriotismo e pelo propósito de introduzir no país os últimos avanços da civilização européia; um quadro de artigos bastante diversificado, que buscava fornecer ao leitor informações que iam desde as belas-letras até às ciências, passando pela economia política, pelas novidades tecnológicas e pelas artes; uma constante preocupação em debater a realidade política, econômica e cultural brasileira; e um cuidado todo especial em apresentar os assuntos tratados numa linguagem acessível e interessante, apta a engajar um leitor desacostumado a esse tipo de literatura. Tais características foram extremamente persistentes e mantiveram-se, com mais ou menos intensidade, nas publicações de cunho cultural de quase todo o século XIX.

O Patriota foi também um dos poucos espaços existentes para a vazão da copiosa produção poética que teve lugar no Rio de Janeiro durante o período joanino. São incontáveis os cultuadores da arte de Camões que então cantaram sua musa. Deixando de lado muitos nomes, podemos citar: José de Araújo Viana, Antônio Pereira de Sousa Caldas, José Bonifácio de Andrada e Silva, Elói Otoni, frei Francisco de São Carlos, Francisco Vilela Barbosa, Januário da Cunha Barbosa, Domingos Borges de Barros, Manuel Alves Branco e Francisco Muniz Barreto. Esses inúmeros versejadores de limitados dotes, em virtude das múltiplas atividades que exerceram, desempenharam um papel deveras significativo na consolidação do mundo cultural carioca. Sousa Caldas e São Carlos, por exemplo, tiveram grande êxito nos púlpitos e foram responsáveis em boa parte pelo despertar de alguns jovens talentos que ouviam suas inflamadas intervenções. Januário da Cunha Barbosa dispensa novos comentários. Seu papel como fomentador da jovem cultura nacional foi incalculável. Outro cujo nome basta por si só é José Bonifácio de Andrada e Silva: político de renomado prestígio, jornalista polêmico e influente, pensador incansável da realidade brasileira e um cientista bastante respeitado na época. Em meio ao amplo leque de poetas medíocres da época, podemos encontrar ainda bons jornalistas, bons médicos, bons magistrados etc.

Essa multiplicidade de interesses conferiu ao limitado número de homens de cultura desse período traços bastante característicos, entre eles: o cultivo das letras concebido como um ornamento indispensável ao amante do saber; a atividade intelectual ampla, que geralmente englobava a política, o jornalismo, a prática pedagógica, a agitação cultural e os estudos científicos; o entendimento do fazer cultural como uma espécie de missão civilizadora, de ação transformadora do meio social; e, por fim, a quase obsessiva preocupação em dotar o país de uma cultura de feição nacional.

Iniciado o Primeiro Reinado, pode-se dizer que a cidade da Corte contava já com uma vida cultural, vida cultural incipiente, é verdade, mas com alguns traços bem nítidos: um pequeno grupo de indivíduos dedicados à produção de cultura, uma modesta atividade literária, umas poucas revistas culturais, uma nascente atividade teatral, um jornalismo em expansão e, especialmente, um público consumidor de tais artigos. Além disso, tanto a produção cultural quanto os homens de letras já dispunham de um lugar ligeiramente delineado no meio social carioca. É verdade que somente na década seguinte, nos anos da Regência, esse lugar social da cultura e do homem de cultura veio a adquirir um contorno mais acabado. No entanto, não se pode negligenciar que é no período joanino, e não antes, como por vezes se advoga, que tem início o processo de construção das bases daquilo que poucos anos após o desembarque de d. João VI já atendia pelo nome de cultura e povo brasileiros, em outras palavras, que se encontra a gênese daquilo que denominamos cruzada civilizatória.

Para retornarmos a Hipólito José da Costa e ao Correio Braziliense, não seria equivocado dizer que o seu empreendimento, iniciado em 1808, só se tornou possível em virtude dessa cruzada, em virtude da fundação de algumas instituições culturais, da maior circulação de gentes e idéias, da ampliação da oferta e do consumo de bens de cultura, da modesta mas importante melhora do ensino, enfim, da criação das condições mínimas para que a principal urbe do país contasse com produtores e consumidores de artigos de cultura, entre os quais o Correio Braziliense. Complementarmente, o jornal foi uma peça fundamental nessa cruzada, atuando, por catorze anos, e malgrado a censura, como um poderoso instrumento de formação intelectual das elites locais. Em suas páginas, Hipólito, entre outras coisas, divulgou idéias políticas e econômicas, deu a conhecer publicações européias recém saídas dos prelos, comentou trabalhos de nacionais, divulgou avanços tecnológicos e mesmo traduziu obras inteiras que pudessem contribuir para o esclarecimento da população local, ou melhor, de uma parcela de tal população: a parcela mais culta e abastada. A propósito dessa atuação, para dimensioná-la nada melhor do que recorrer a um intelectual oitocentista igualmente comprometido com a referida cruzada, o historiador e literato Francisco Adolfo de Varnhagen. Diz-nos ele, na sua História geral do Brasil: “Não cremos que nenhum estadista concorresse mais para preparar a formação no Brasil de um Imp&eaeacute;rio constitucional do que o ilustre redator do Correio Braziliense. Talvez nunca o Brasil tirou da imprensa mais benefícios do que os que lhe foram oferecidos nessa publicação (…)”. [Francisco Adolfo Varnhagen, História geral do Brasil (10? ed. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, 1981), vol. 3, t. V, p. 226.]

(*) Professor do Departamento de História da Unesp ? Franca e autor, entre outros, de Literatura e sociedade no Rio de Janeiro oitocentista (Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1999), Visões do Rio de Janeiro colonial (Rio de Janeiro: José Olympio, 1999) e Outras visões do Rio de Janeiro colonial (Rio de Janeiro: José Olympio, 2000)

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