Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > PRODUÇÃO AUDIOVISUAL

Um povo sem espelho e sem cara

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

PRODUÇÃO AUDIOVISUAL

Fernando Zornitta (*)

O cinema como veículo da manifestação artística foi uma das mais importantes formas de expressão de que dispôs o homem do século 20 ? o século da tecnologia, das comunicações, da aldeia global ? para o registro, a divulgação, a valorização e a difusão cultural. Para o povo americano representou ainda a possibilidade de difusão da sua cultura pelo mundo e o seu mais eficaz veículo de mídia.

Em épocas distintas e nos mais remotos recantos do planeta Terra, Chaplin e Schwarzenegger nos pareceram mais familiares do que um importante personagem do nosso próprio meio local ou regional; talvez Los Angeles e Hollywood hoje nos sejam mais próximas do que a nossa própria cidade ou o nosso bairro e a cultura americana, mais enraizada em cada um de nós do que a nossa própria cultura, tão descaracterizada.

O cinema, na televisão ou na tela, tem esse poder. Magnífico e mágico poder de subliminarmente atingir e formatar o nosso cérebro e o inconsciente coletivo, enquanto conta uma estória ou uma história, e de mudar padrões socioculturais, pré-estabelecidos pela evolução na linha do tempo.

Embora o seu importante papel, as pessoas de todas as faixas etárias, e mormente aquelas que dispõem de mais tempo livre, se postam a sua frente, assistindo passivamente as suas mensagens.

A dominação cultural pela pequena ou pela grande tela é uma luta desigual, onde o indivíduo é coagido psicologicamente e dominado intelectualmente, quando assiste a suas mensagens passivamente. Ele é passivo porque a trama o envolve, e o envolvimento faz parte da mágica do cinema, que sublima as suas mensagens justamente quando o indivíduo está mais receptivo e em estado letárgico, livre dos condicionantes do trabalho e do "tempo comprometido" ? social, familiar e biológico: "nos seus momentos de lazer".

Embutidas nas mensagens estão os modelos culturais, que hoje são transmitidos de um pólo a outro do mundo e são cada vez menos determinados unicamente pela experiência do meio local e cada vez mais pelas mensagens vindas das sociedades que se apresentam como a mais poderosa, a mais rica e a de maior prestígio.

Vivemos no século 21, o século da civilização alienada, que venerou o fantástico, o super, o máximo, a riqueza, o poder; e perdeu a visão do simples e da sua própria realidade social e, por isso mesmo, ficou muito mais suscetível a assimilação destes padrões alienígenas e descompromissados de qualquer papel social relevante.

Mentalidade do cinema-indústria

O homem da civilização industrial foi compelido a substituir padrões culturais, assimilando alienadamente outros padrões de cultura e sendo forçado a viver em completo paradoxo: buscou a paz e investiu cada vez mais em armamentos e em guerras; cultuou a natureza e cada vez mais a destruiu; buscou a riqueza e praticou o desperdício; endeusou o absurdo e ridicularizou o lógico.

A linha evolutiva da humanidade esteve consubstanciada no paradigma da mais valia, do progresso e "desenvolvimento", alicerçados na economia, na concentração e no domínio da ciência e da tecnologia, no subjugo de povos e nações e neste avançar sem rumo.

O homem que adentra o século 21, efetivamente, não apreendeu nada para orientar a sua evolução e contraria todas as leis que o colocaram erroneamente num patamar de superioridade na classificação das espécies. Enquanto nossos ancestrais das cavernas socializaram as suas descobertas, o Homo Sapiens cada vez mais quer se apropriar do conhecimento em benefício de poucos e de grupos.

O motor da evolução da sociedade é a tecnologia, salientou Darcy Ribeiro. Os blocos econômicos e o poder de fogo das nações que atingiram um elevado padrão social nutriram-se primeiro de tecnologia, que as conduziu ? junto com outros fatores ? a um processo de industrialização acelerada e a um sistema de supremacia e dominação econômica, que hoje move e promove todas as boas e más ações no planeta.

No começo do século passado e enquanto os Estados Unidos rapidamente percebiam o potencial do cinema e estruturavam sua indústria cinematográfica, fazendo nascer os poderosos estúdios, a Europa incorporava uma preocupação maior com a arte que lhe é afim, gerando correntes que se espalharam pelo mundo e fecundaram outras vertentes que revelaram talentos desconhecidos, os quais depois se projetaram pelo mundo.

Movimentos e escolas trouxeram luz para a evolução da arte, da técnica e da linguagem cinematográfica em várias correntes ? no Expressionismo Alemão, no Neo-Realismo Italiano, na Nouvelle Vague Francesa, no Cinema Novo Brasileiro e até no cinema americano ? que, por meio da poesia e do gênio artístico embutido em cada um dos autores, deram corpo a essa nova e mágica forma de arte e comunicação.

O "cinema-indústria" ? que faz parte da mentalidade e dos paradigmas que guiaram a lógica evolutiva da humanidade no século 20 ? traz como resultado do processo "produtos" cujo objetivo maior é a bilheteria, as prateleiras das videolocadoras, os espaços nas TVs (abertas e por assinatura) e as novas formas de veiculação pela internet e em DVD ? "o sucesso econômico do empreendimento", um produto para as massas, sem outros compromissos senão com o mercado e seu resultado econômico. O marketing tradicional de produto foi adaptado ao marketing da indústria cinematográfica e inteligentemente direcionado ao pretenso mercado consumidor.

Domínio das ferramentas

No produto final gerado estão embutidas as motivações de consumo audiovisual, dos gêneros que estão em voga e que fizeram com que o "produto" fosse criado, temperado com os recursos tecnológicos de ponta, que fazem a fantasia materializar-se nas telas e ser vista através da gigantesca e eficiente malha de distribuição criada, a garantia do "produto" chegar ao "mercado".

O Brasil, que já produziu 35% a 40% do que víamos nas telas, durante a década de 90, chegou a arrecadar menos de 1%, e hoje arrecada menos de 10% das suas próprias bilheterias. Naquela áurea época, os filmes eram populares e tínhamos três vezes mais salas do que hoje. Produziam-se de 40 a 50 filmes por ano ? que todos viam; hoje são em média 25 por ano, e muito poucos vêem, ou quase ninguém. O público que vai ao cinema no Brasil hoje representa apenas 6% da população, e é constituído pelo mesmo público que vai aos shoppings (que estão em todas as grandes metrópoles), com poder aquisitivo, e cujos interesses via de regra não são os mesmos que dizem respeito à promoção da cultura popular brasileira.

Estes se interessam por Titanics, Matrixes, Harry Potters e outras caras produções orquestradas por Hollywood, revestidas da mais pura e vazia fantasia, recheadas com os mais avançados recursos tecnológicos, são distribuídas e lançadas com altos investimentos, concorrendo com o restante da produção mundial e tupiniquim, como um trem em alta velocidade que atropela e esmaga o que se atravesse em sua frente.

O Brasil não tem uma política definida e nem regulamentação que proteja nossa produção audiovisual, e sempre se rende às ameaças dos poderosos concorrentes ? quando pensa numa política protecionista. É, por isso, um grande quintal onde crescem as ervas daninhas da cultura alienígena, porque estas não são podadas na raiz e porque não cuidamos das nossas próprias sementes e de valorizar a nossa cultura, já tão descaracterizada, que vai morrendo por esquecimento e aos poucos.

As boas iniciativas ? que poderiam mostrar a luz no fim do túnel ? sempre ficam legadas ao acaso e a ações acovardadas ou nunca são postas em prática; via de regra não têm continuidade e se volatizam. Também temos que conviver com a vergonhosa, desrespeitosa e antiética conduta de nossos legisladores e administradores, que parecem defender mais os interesses empresariais envolvidos do que a própria sociedade que deveriam representar.

A nossa televisão aberta, que poderia estar ajudando a mudar um pouco o quadro, é um ótimo deste péssimo exemplo. Toda a sociedade, seus legisladores e administradores convivem no dia-a-dia com o conteúdo das grades de programação das emissoras concessionadas que, em que pese a sua elogiada qualidade técnica, é um lixo em termos de programação ? sem entrarmos no mérito do monopólio da produção.

O sinal para o serviço de radiodifusão é uma concessão do Estado, e essas emissoras, que deveriam se ater às prerrogativas legais da concessão, atuam em desrespeito e fora de sintonia com o que prevê a lei sem que nenhuma esfera da administração pública se manifeste para cumprir seu papel e nem mesmo para fazer cumprir a lei.

O cinema brasileiro também não se afirma porque anda ao sabor das marés. E tem se afirmado como uma forma artística e de expressão elitista e deturpada, em que o domínio da ferramenta tem sido privilégio dos afortunados, que produzem filmes que ninguém vê, nem mesmo dentro do próprio país. Também por isso, o quadro não tem sido alterado.

A criatividade e o potencial criativo do brasileiro têm sido largamente elogiados e já projetaram talentos que hoje são estudados. Entretanto, o pressuposto básico para que o cinema e a produção audiovisual brasileira tenham uma chance de ocorrer em larga escala e de fato ? embora as barreiras, os entraves e os desincentivos ? é o domínio das ferramentas e da técnica do fazer, "do pintar a tela".

Anos-luz à frente

A arte é universal e o cinema, a sétima arte, o mais espetacular veículo de difusão cultural que a humanidade já conheceu. Mesmo a televisão e a internet, que, imaginava-se, fossem diminuir sua importância, hoje nutrem-se e ancoram-se nele.

O século 21 está trazendo do século passado um enfoque centrado no avanço acelerado da tecnologia, das comunicações, da filosofia da "aldeia global", e aponta para novas formas de comunicação e de difusão cultural.

Com a convergência de mídias, que aproxima o computador, a televisão e a internet, e o amplo espectro da parafernália eletroeletrônica e da informática que o Homo Sapiens desenvolveu até então, enfim, o domínio do conjunto das ferramentas da produção audiovisual, e não só do cinema, será agora determinante para a difusão cultural e para a construção do mosaico da história de um povo e da humanidade, numa proporção em muito maior grau do que o cinema trouxe e foi para o século 20.

Da mesma forma que o pintor domina suas ferramentas e uma técnica para expressar a sua arte, a produção audiovisual também tem um conjunto de ferramentas e de técnicas específicas que precisam ser dominadas para que falemos a sua linguagem e produzamos filmes, vídeos e a grande diversidade de produtos audiovisuais e em multimídia.

A hipermídia ? a arte colocada num novo contexto geral, a produção audiovisual e o cinema ?, fazendo parte deste contexto, tem papel universal a cumprir e pode ajudar a mudar o panorama catastrófico e de desigualdades que nos deparamos neste começo de século 21. O cinema, como arte ou como produto, neste contexto, teve e continuará tendo um papel muito maior a desempenhar, tanto no velho como nos novos suportes e mídias.

Herbert Marcuse, com propriedade, frisou: "A arte pode não mudar o mundo, mas pode mudar o homem, que pode mudar o mundo!" Para cumprir seu papel e contribuir para as urgentes e necessárias mudanças de paradigmas, para que a humanidade construa uma perspectiva de saída, a sétima arte e as novas composições artísticas que surgiram a partir dela não poderão continuar numa camisa de força.

O cinema, muito antes de ser produto, já foi arte; com Chaplin, Fellini, Godard, Glauber, Orson Welles e tantos outros. E, para continuar a cumprir seu papel, chegar à alma humana e ajudar a mudar o mundo, deve por premissa voltar a ser antes arte e depois produto.

O mundo que se maravilha com os recursos tecnológicos que o cinema desenvolveu se esquece de consumir qualidade e bons roteiros. Hoje consome os produtos de gêneros impostos e de gostos duvidosos, numa formatação padronizada para as grandes massas, que continuam a se maravilhar com o esterco resultante do processo. E tudo se consome num sistema de forças desproporcional e injusto do mundo globalizado, que nos faz viver um grande paradoxo. Não temos ética e nem justiça na nossa práxis social, quanto menos nas telas.

Enquanto precisamos nos capacitar para lutar em igualdade por espaço, competimos com quem histórica e tecnicamente está anos-luz à frente e, com isso, esquecemo-nos de um grande potencial ? que indiscutivelmente se encontra no Brasil: o dos brasileiros, e de incentivar, apoiar, financiar o nascimento e o crescimento destes novos valores, para que expressem a sua arte.

Amarras da expressão artística

No Brasil que também já fez cinema sempre se fala em recomeço. Mas nossa produção ? que sempre ocorre numa escala ínfima, se comparada à Índia, à China ou aos Estados Unidos, e sempre com gêneros ensimesmados ou desapropriados para um mercado mundial ? precisa se adequar às nossas necessidades, para que nos vejamos nas telas antes de procurarmos nos afirmar lá fora.

Não precisamos entrar numa guerra mundial ? que se trava pelos espaços mercadológicos. Precisamos, sim, de uma total mudança de paradigmas, que incentive o intercâmbio, a diversidade do nosso potencial expressivo e a experimentação. O sempre e promulgado recomeço ? que vem com as marés ? poderia se preocupar em trazer uma abordagem mais madura, por parte dos experientes e dos novos profissionais, para que o cinema e a produção audiovisual tenham os seus efetivos espaços, mas que também ? e principalmente ? sirvam para a aproximação dos povos, para a valorização e para a sedimentação das nossas raízes culturais.

E, se um dia viermos a produzir de fato, um dos nossos principais problemas certamente continuará sendo o da "distribuição" ? interna e externa ? pois, o filme e a produção audiovisual nacional hoje concorrem de forma desigual no nosso próprio mercado interno, com outros que chegam em avalanches de fora e principalmente dos Estados Unidos da América.

Enquanto estes foram produzidos com orçamentos centenas de vezes maiores do que os nacionais e com recursos técnicos de ponta ? que são hoje uma das principais motivações da demanda e que também enfrentam o poder de fogo das distribuidoras internacionais (que quase sempre são os próprios estúdios), que nos empurram goela abaixo o que querem, como, quando e nas condições que querem ?, lutamos com parcos recursos, com poucos profissionais, sem apoio e sem mercado.

O que move o quadro da exibição cinematográfica mundial (hoje contextualizado como "mercado cinematográfico de consumo") a partir da pré-existência e conceituação do "produto cinematográfico" ? o filme ? não tem sido outro senão o resultado econômico-financeiro destas produções. No Brasil, e para garantir a exibição dos seus pacotes, as distribuidoras internacionais implantam associações internas ? e continuarão a implantar do dia para a noite ?, como que num passe de mágica, centenas de sofisticadas salas de exibição, obrigando-nos a consumir seus produtos também a partir delas.

Através da horizontalização da produção e de uma preocupação a menos ? com a distribuição ?, a exibição da produção alienígena está garantida e chega ao consumidor desavisado, garantindo ainda, além do resultado econômico esperado, o espaço para a continuidade da formatação dos seus produtos, com o sagaz componente embutido: a sua cultura.

Neste contexto, como então garantir espaço para o cinema nacional e para que o cinema brasileiro cumpra o seu importante papel de difusor da nossa cultura, se os espaços para a exibição também se revestem de tecnologia e cada vez mais se rendem aos pacotes das produções internacionais e se as novas salas já nascem para garantir a exibição destas produções alienígenas? Novas e criativas formas ? além das de caráter legal (que tradicionalmente não privilegiam a nossa produção) poderão contribuir para que esta poderosa e mágica forma de expressão artística se desvencilhe das amarras que impedem a sua livre manifestação no cenário nacional, principalmente porque 94% da população brasileira não pode e nem está acostumada a ir ao cinema nos shoppings, o novo espaço no contexto urbano que abriga as salas do sistema Multiplex, enquanto vemos cinemas tradicionais e de bairros fecharem às pencas e na mesma proporção em que os de nova roupagem aparecem.

Barbárie, intolerância e fantasia

Estas novas salas e equipamentos para a exibição ? que nada mais são do que a garantia da exibição dos pacotes da produção alienígena e dos grandes estúdios ? nascem e se estabelecem numa rede de associações ? que garantem aos produtores a exibição (associação com o empresariado nacional nestes empreendimentos e para garantir a exibição das suas produções e os respectivos ganhos nas três fases: produção, distribuição e exibição).

A grande maioria das populações nos paises em desenvolvimento e, neste contexto a brasileira ? que luta pela sobrevivência e não tem atendidas as suas necessidades básicas e as subjetivas (que dizem respeito ao espírito ? ao lazer, à recreação, à cultura) ? não tem sequer consciência da importância desta forma de expressão, como meio de intercâmbio sociocultural e de comunicação.

Poderia ela exigir se ver nas telas, mas essa luta não está nas suas prioridades, e fica cada vez mais viciada em produtos da "contracultura audiovisual" sem conteúdo, em gêneros impostos que incentivam a violência, o terror e a superficialidade. No máximo, poder-se-ia esperar que legisladores, intelectuais, artistas e administradores da coisa pública orientassem as políticas e as estratégias de ação, e que lhes dessem as garantias da defesa de seus interesses relegados e que dizem respeito ao conjunto da sociedade e da defesa da sua própria cultura; mas isso, infelizmente, não ocorre.

A grande maioria de nossas TVs abertas não cumpre o seu papel social e nem as obrigações impostas pela legislação (que lhes concessionou o serviço público de radiodifusão ? que pressupõe um papel educativo e cultural); travam uma luta de morte pelos índices de audiência e enchem as telas dos nossos lares de lixo "made in Brazil" (produzido pelas próprias emissoras concessionadas) e de enlatados produzidos nos EUA, e não abrem um mínimo espaço para a produção das vertentes que vêm da sociedade, as quais poderiam estar contribuindo para a mudança deste triste paradigma.

Também não temos o nosso espaço nas nossas telas de cinema ? e mais de 90% da arrecadação do que assistimos vai para as produções estrangeiras, sendo a sua quase que totalidade americana ? que faz um lobby cerrado sobre nossos políticos para que a legislação lhes sempre seja favorável, mesmo que contra os interesses nacionais.

Por outro lado existe uma imensidão de profissionais que tenta produzir com consciência ? embora os que consigam talvez estejam numa mesma proporção dos milhares de espermatozóides que tentam fecundar um único óvulo ? pela ausência de incentivos e de reservas de mercado para as produções independentes. As leis de incentivo à produção e os inatingíveis programas de incentivo empresarial ao audiovisual brasileiro, gastam somas astronômicas na promoção, divulgação e publicidade e destinam gotas d? água e nenhum adubo para o solo seco e árido e para o germinar de novos valores da produção nacional.

Embora existam as poucas e deficientes leis para o incentivo e para a proteção, comprovamos que não há ações práticas e corajosas do Poder Executivo que obriguem a trocar o lixo que somos obrigados a ver e ouvir por material de consumo adequado para a valorização cultural; não existe ? ou se faz vista grossa ? qualquer fiscalização sobre a qualidade do que vai às telas, principalmente das TVs abertas, que diariamente entra em nossos lares, participando do processo educativo dos nossos filhos.

Somos obrigados a assistir diariamente a produção do lixo doméstico ? que se baseia nos níveis de audiência e compete por quantidade, e não pela qualidade, e com produções que incentivam a violência, a barbárie, a intolerância, a fantasia sem rumo e a mais pura alienação.

Não faltam novos talentos

A nossa política de regulamentação ? pelo livre mercado ? só tem diminuído a qualidade da programação e do aberto espaço para o lixo produzido aqui dentro e para os enlatados produzidos lá fora, que aqui chegam já pagos pela excelente malha de distribuição criada pelos grande estúdios, a qual se estende por todo o planeta e, também, pelos preços irrisórios cobrados ? com os quais não podemos competir.

Nas televisões americanas ? embora a qualidade duvidosa ?, quase 70% do que vai ao ar é produzido fora da emissora. No Brasil quase 100% da produção audiovisual e da programação que vão ao ar é produzido e gerado por um pequeno grupo de empresas, que dominam os meios de comunicação e não abrem espaço para o amplo e diversificado potencial da produção e dos temas que a nossa cultura oportuniza; que faz questão de exibir os enlatados e se rende aos novos modelos de programação televisiva alienígena (pagando caro por isso, como o Big Brother), enquanto faz de conta que no país não existem recursos humanos para criar.

Além do que, agimos sempre nos efeitos, e não nas causas. Financiamos pouco e errado e não fazemos nada para mudar as estatísticas, para democratizar, para incentivar, para pulverizar os recursos para a plantação das novas sementes e para catalisarmos assim a produção, irrestritamente. Não temos uma política e um sistema de distribuição competente para colocação dos nossos produtos audiovisuais, nem para atender ao mercado interno e muito menos o externo. E, principalmente, não temos regras definidas e de proteção para a exibição do cinema e da produção audiovisual nacional.

Precisamos levar em consideração também que não temos muito a exibir, pois nossa produção em volume é mínima; não lidamos muito bem com a distribuição e a exibição interna e muito menos externa, e competimos comparativamente com uma avalanche de produções respaldadas por estratégias mercadológicas.

Num segmento superespecializado e para que aconteça de fato uma reversão, se faz urgente e necessário que plantemos as sementes, oferecendo o espaço para a experimentação. Também se faz mister que oportunizemos todas as iniciativas ? de formação de platéia, de intercâmbio de experiências, de associações e eventos, para que uma ebulição aconteça de fato e para que esta se faça sentir em todos os níveis e ecoe, enquanto não implantarmos as fórmulas para a total reversão do quadro que aí está.

Centenas de milhares de bons projetos de novos talentos se amontoam nos concursos públicos e de empresas privadas (que querem aproveitar-se dos incentivos fiscais das leis federais e estaduais). É gente que quer realizar suas consistentes e baratas produções audiovisuais, mas as políticas continuam incentivando pouco e priorizando as caras e insípidas produções, que sequer se pagam nas bilheterias.

Ética no exercício público

Alguém já disse que o cinema é o espelho de um povo, e que o povo que não tem cinema não tem espelho e não tem cara.

O povo que não domina as ferramentas audiovisuais e não consegue se fazer ver e reconhecer-se nas diversas mídias e veículos ? que o estágio tecnológico de desenvolvimento colocou em suas mãos ? é um povo dependente e guiado por aqueles que se apropriaram ilegitimamente e em seu nome destas ferramentas que, por conseqüência e "coincidência", também são os mesmos que dispõem das mídias e dos veículos de difusão e comunicação.

É humilhante ser visto através de um espelho caleidoscópico colorido, mas estereotipado como o nosso. São indecentes a permissividade e a libertinagem mascarada de "nossa cultura", passada através deste deturpado prisma. É ridículo e ofensivo o que a nossa sociedade vê como reflexo neste espelho, que não espelha a nossa cara e nem a nossa sociedade. Na verdade, o que vemos neste "nosso espelho deturpado" é nossa imagem numa camisa de força. Não conseguimos nos ver e ver a nossa verdadeira cara.

No cinema, os projetos que romperam fronteiras, como Central do Brasil, Eu, Tu, Eles, Ilha das Flores e tantos outros que ganham prêmios lá fora bem estão a demonstrar isso, com seus jovens diretores, brilhantes atores e equipes.

O Brasil tem Gugas, Pelés, Sennas, Drummonds, Raquéis, Quintanas, Lupicínios, Vinícius, Gils, Niemeyers, Glaubers, Nelsons, Salles Jrs, Fernandas, Duartes, Chacrinhas, Felipões e centenas de milhares de tantos outros valores. Mas, infelizmente, ainda não tiveram o solo fértil e a altura para se manifestarem

Todos que cavaram seu espaço aqui ou lá fora sabem que só conseguiram porque tiveram oportunidade ? "a bola e o campo para jogar" ? e, embora tenham saído do nada, do impossível, para só depois terem seus valores reconhecidos, aí estão hoje oferecendo milhares de frutos, exemplos e glória à arte e ao seu país.

Para que a nossa produção audiovisual ? para o cinema, para a televisão e para as novas mídias ? aconteça de fato basta que tenhamos "a bola para jogar", os espaços, as ferramentas, os incentivos e a proteção, para que o amplo espectro da nossa produção ocorra de fato. Precisamos de habilidade, de técnica, de espaços, de incentivos, de legislação que proteja nossos interesses e nossa integridade, de espaço para a manifestação (veiculação e exibição) e, também, de público.

Precisamos de ética no exercício público e de comprometimento e, principalmente, precisamos deixar de hipocrisia e efetivamente oportunizarmos o incentivo à produção. E, para que tenhamos num futuro o nosso espelho, verdadeiro, mágico espelho, tudo isso tem que andar junto.

(*) Arquiteto e urbanista, pós-graduado em Lazer e Recreação (UFRGS), em Turismo (OMT/Governo Italiano, Roma); técnico de Realização Audiovisual (Instituto Dragão do Mar, Fortaleza) e doutorando pela Universidade de Barcelona; co-idealizador da Green Wave Org/Apolo; co-idealizador e diretor desde a fundação da Associação de Cinema e Vídeo

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