Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Um taliban na corte do Bey de Argel

Por lgarcia em 12/12/2001 na edição 151

COUSAS DIPLOMÁTICAS

Hipólito José da Costa

Dois séculos atrás, nas águas pouco plácidas do Mediterrâneo, se desenvolvia um drama que de certa forma se parece, na forma e na substância, com os episódios atuais de caça a terroristas, então como agora escondidos em territórios inóspitos sob a guarda de dirigentes políticos comprometidos com um visão talibanesca do mundo.

Vejamos por exemplo a transcrição que faz o primeiro jornalista independente brasileiro, Hipólito José da Costa, de um despacho datado de 28 de abril de 1808, proveniente de Argel, porto então dominado pelos famosos piratas da Barbária, cujas atitudes verdadeiramente talibanescas terminaram por exasperar o presidente americano, Thomas Jefferson, que manda uma frota ao Mediterrâneo caçar esses piratas e os regimes que os abrigavam.

Qualquer semelhança?

[Pela transcrição, Paulo Roberto de Almeida, de Washington]

***

Abril 28. As medidas adoptadas pelo Dey de Argel contra os Europeos fazem-se cada dia mais violentas. Como o Dey acaba de assumir o Governo ás suas mãos, e não está por forma nenhuma seguro da fidelidade de suas tropas, nem ainda mesmo da confirmação do seu posto pelo Gram Senhor [o Sultão de Istambul?], pois esta ainda não lhe chegou; e estando além disso envolvido n?uma sanguinolenta guerra contra o Dey de Tunis, assentou que podia, a pesar destas circunstancias metter todas as naçoens á contribuição.

Aos 22 do corrente pedio aos Consules Sueco, Dinamarquez, e Holandez, que lhe trouxessem os seus presentes; e pedio ao Consul da America, 18.000 piastras dobles, para se indeminisar da perca de nove Argelinos, que lhe haviam sido tomados abordo d?um navio Americano. O consul pretextou que esta gente havia sido lançada ao mar pela equipagem, quando eles estavam ao ponto de serem abordados por um de seus corsarios.

O Consul da Suecia concordou em dar o presente. A 23 foram chamados a Palacio os Consules da Dinamarca, Hollanda, e America.

O Consul de Hollanda disse, que esperava instrucçoens de seu Governo, e que, em quanto as não recebesse, não podia fazer presente algum. Em consequencia disto o Dey lhe fez intimar que se á volta do mensageiro não recebesse o presente, lhe mandaria pôr os filhos a trabalhar a ferros.

O Consul da America disse, que não havendo recebido noticia oficial de seu Governo relativamente ás 18.000 piastras não podia fazer pagamento algum. O Dey replicou, que ou elle havia de pagar esta soma em quatro dias, ou que o mettia a ferros; do contrario, que lhe entregasse nove americanos, que elle queria enforcar ás portas de Bab-azou.

Mr. Ulrich, consul de Dinamarca, fez uma presentacação sobre o estado do seu paiz, alegando, que o navio em que vinham os presentes fora tomado, e confiscado pelos Inglezes, e que o mesmo Agente Inglez em Argel poderia atestar isto; solicitava por tanto o Consul, do Governo, algum tempo de espera. O Dey porém replicou a isto com o mandar immediatamente agarrar, pelos seus officiaes de Justiça, e conduzir á prizão entre as apoupadas de uma barbara populaça. Mas pelos rogos de todos os outros Consules Europeos se pôde obter a sua liberdade.

Todos os escravos são aqui tractados com a mais horrida crueldade. 450 Portuguezes se ácham fechados n?uma prizão; porque a Corte de Lisboa se demorou em mandar o seu tributo. O Governo não lhes tem mandado o menor socorro, e por tanto se ácham-se na mais deploravel miseria. Tanto os officies como os marinheiros são condenados ao trabalho, e tractados com a maior ignominia.

Um grande numero de Napolitanos soffrem quasi a mesma sorte, e o Dey que espéra conquistar Tunis, na primeira campanha, se lisongea com captivar mais de 3.000 escravos Europeos, cujo resgate elle intenta fixar em alto preço.

(*) Transcrição tirada de Hipólito José da Costa, Correio Braziliense ou armazém literário (São Paulo: Imprensa Oficial; Brasília: Correio Braziliense, 2001), vol. I, junho 1808, seção "Miscelânea", pp. 72-73.

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