Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > PROVÃO I

Um teste impecável

Por lgarcia em 13/06/2001 na edição 125

PROVÃO I
(*)

O Provão a que foram submetidos os estudantes de jornalismo que se formam este ano apresentou, em linhas gerais, a mesma configuração do exame realizado em 2000: um equilíbrio razoável entre questões que exigiram dos alunos uma forte competência prática e, ao lado disso, questões que cobraram uma aberta capacidade de análise crítica e de elaboração discursiva.

No primeiro caso, estão incluídas as questões de números 1, 2 e 4. Embora, para todas elas, tenha sido indispensável ao estudante dispor de sensibilidade na produção de textos e na indicação das soluções pedidas para a elaboração das matérias, além de agilidade no manuseio das informações disponibilizadas na própria prova (os resultados da pesquisa, na questão n? 1; os dados para o planejamento da cobertura de um telejornal na questão n? 2; e os elementos dispostos nos textos oferecidos na questão n? 4, percebe-se que a ênfase dada pelos professores que elaboraram a prova recaiu na exigência de caráter técnico, com delimitações formais feitas até mesmo em razão da diferenciação dos veículos a que se destinariam, por hipótese, as matérias pedidas: a questão n?1 pediu um texto de dois minutos para um noticioso de rádio; a questão n?2, a cobertura feita pela TV; a questão n? 4, a elaboração de reportagem para a mídia impressa. Essa variedade de situações práticas permite afirmar que esse primeiro bloco teve um perfil delineador comum sem o qual o futuro jornalista dificilmente daria conta da tarefa: o de uma certa intimidade com a produção e com a natureza da mídia a que ela se destinaria.

Em outro bloco de questões pode-se perceber uma outra ênfase, menos pertinente à produção jornalística e com maior destaque à reflexão teórica, tanto em relação à análise de problemas ligados aos fenômenos da Comunicação Social quanto em relação à interpretação de questões que dizem respeito à epistemologia do Jornalismo. Refiro-me aqui às perguntas de números 3, 5, 8, 9 e 10. A primeira, relativa à ética da imprensa; a segunda pertinente à sua história; a terceira incisiva na cobrança de conhecimentos que remetem às tendências mais atuais da Teoria da Comunicação; a quarta sobre os gêneros do Jornalismo; a última sobre a natureza e os efeitos das características do telejornalismo no Brasil. Em todos esses casos, o que se exigiu do estudante foi uma forte dose de competência analítica e discursiva, sem que os problemas apontados possam ser vistos como dissociados do conhecimento da especificidade profissional, inclusive na questão relativa às críticas contemporâneas à Escola de Frankfurt.

Por último, num outro conjunto de perguntas (as de números 6 e 7) o que se pediu foi uma espécie de intersecção entre o conhecimento da atualidade das transformações tecnológicas (questão 6) e dos fatos políticos (questão 7), a reflexão sobre seus desdobramentos para a produção jornalística e a capacidade de discernimento para sua operacionalização.

Dificilmente o estudante terá apontado os "problemas decorrentes da incorporação de material recolhido na Internet para a produção da notícia" ou justificado a "inserção na primeira página de um jornal de circulação nacional" da foto de um Mário Covas entristecido e reflexivo ao lado de Marta Suplicy sem ter trabalhado, de forma simultânea, com aqueles três níveis apontados.

A indicação desses conjuntos de questões que compuseram o Provão de Jornalismo tem aqui, naturalmente, o objetivo de permitir identificar a natureza de sua concepção, o que não significa que outras e variadas associações não possam ser feitas. Uma análise mais cuidadosa e detida certamente apontaria a presença de uma disposição em avaliar, ao longo de toda a prova, a dinâmica existente entre os aspectos teóricos e práticos da formação profissional, o que pode significar a superação de uma dicotomia que vem sendo artificialmente mantida em inúmeras instâncias de discussão sobre os rumos do ensino nos cursos de Comunicação Social. Seja como for, nem todos ficam bem com o elevado nível das questões propostas.

Em primeiro lugar, ficam em situação extremamente delicada as "escolas" que pensam poder salvar a formação que ofereceram aos seus estudantes a partir de soluções de última hora, verdadeiros remendos intensivos que mal escondem objetivos mercadológicos que nada têm ver com qualidade de ensino.

Em segundo lugar, penso que também o próprio Exame Nacional de Cursos passa a ter sua eficácia mais uma vez questionada, especialmente se levados em conta os critérios de mensuração dos resultados obtidos pelos estudantes. Afinal, se é possível produzir uma prova do nível desta que foi realizada hoje [domingo, 10/6/01], é inconseqüente que as curvas de acerto das questões acabem diluídas em faixas de notas que terminem por ocultar o ensino desqualificado e por responsabilizar o aluno. Se o Provão não puder identificar quem é quem no ensino de Jornalismo ? e da forma como é concebido parece que não pode ? melhor será que outro sistema de avaliação seja criado. Com provas iguais a essa.

(*) Publicado originalmente sob o título "Uma prova impecável", copyright Último Segundo <www.ig.com.br>, 10/6/2001

(**) J.S.Faro é professor dos cursos de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo e da PUC-SP

Clique aqui para conhecer o Provão de Jornalismo aplicado em 10/6/2001. Disponível em arquivo .pdf [277Kb], legível para quem dispõe do programa Adobe Acrobat


    
    
                     

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