Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Um veterano do front

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

ENTREVISTA / SÉRGIO KALILI

Paulo Lima (*)

O repórter Sérgio Kalili era o único correspondente brasileiro em Bagdá até um dia antes do primeiro bombardeio americano a Bagdá, em 2003. Descendente de libaneses, Kalili se emocionou com os iraquianos, um povo que considera "muito, muito amoroso". Nos relatos que escreveu sobre a viagem, ele humanizou uma história até então restrita a números e cifras pela grande imprensa internacional, notadamente a americana.

Menos de um ano depois, Kalili voltou ao Iraque para rever as pessoas que conheceu e para contar o que viu no novo cenário marcado pela resistência dos iraquianos às forças de ocupação. Desta vez, contudo, Kalili estendeu sua visita ao Irã e pôde presenciar, além de uma ânsia por mudanças na terra dominada pelos aiatolás, uma tragédia: o terremoto que devastou a cidade de Bam.

Aos 35 anos, formado em Jornalismo pela PUC-SP, Sérgio Kalili pode ser considerado um veterano. Trabalha desde 1997 para a revista Caros Amigos, tendo passado pela Globo, pelas rádios CBN e Eldorado e a revista VIP. Em 1997, ganhou o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, por reportagem sobre desabrigados numa inundação no Vale do Ribeira (SP). Em 1999, recebeu o Prêmio Abril de Distinção em Jornalismo por matéria sobre um grupo de rap que cantou o massacre do Carandiru. Nesta entrevista, concedida por e-mail em 8/12, logo que chegou ao Brasil, Kalili fala de sua experiência no conflagrado Oriente Médio..

***

Em menos de um ano você faz outra visita ao Oriente Médio. Que razões o levaram a esta segunda viagem?

Sérgio Kalili ? Minha volta, em menos de um ano, foi para tentar rever as pessoas que conheci. E para descrever esta nova fase da guerra entre guerrilha e tropas de ocupação no Iraque. Minha primeira viagem para lá foi um baque. Senti tudo com muita intensidade e força. Estava encontrando pessoas que lembravam a família de meu pai, originária do Líbano. As comidas, os costumes, o jeito de falar, a aparência. Também reencontrava o jeito dos árabes que conheci nas salas de inglês dos Estados Unidos, onde estudei. As emoções foram todas potencializadas pelo conflito, pelo massacre anunciado de uma superpotência que se atirava sobre um povo sofrido e miserável.

E como é esse povo?

S.K. ? Um povo muito especial. O povo iraquiano é muito, muito amoroso. São pessoas muito bonitas. Para dar uma idéia, meu melhor amigo iraquiano, assim que pôde, comprou um novo anel de casamento para a esposa. O outro ele havia vendido para sobreviver durante e logo após o grande bombardeio do ano passado. Ele é um dos poucos que conseguiram um emprego. E pôde fazer esse carinho para a mulher. No ano passado, quando perdi a estrutura que havia montado, com ajuda de uma ONG pacifista, para cobrir a primeira fase da guerra (o grande bombardeio), com apenas 1.500 dólares, precisei abortar o projeto. Foi muito frustrante e deprimente imaginar que as pessoas que conheci estavam sob bombas, morrendo no escuro porque a grande imprensa jogava o jogo da campanha de desinformação americana.

A maneira como a imprensa tem descrito a situação no Iraque condiz com o que você presenciou no país?

S.K. ? Não condiz. De modo geral a imprensa estrangeira não acredita ou não está interessada no povo iraquiano. Eles quase sempre acham que o povo está mentindo com relação às histórias de abusos que contam que sofrem das tropas americanas.

Como os iraquianos receberam a notícia da captura de Saddam Hussein?

S.K. ? Muitos ficaram aliviados e contentes. Mas outros se sentiram humilhados pela maneira com que ele foi exibido na TV. Podiam até não gostar dele, mas ele representava de alguma maneira a independência de um país que agora está sob ocupação de uma superpotência estrangeira, do imperialista, do colonizador. Entrevistei um garoto que saiu para comprar pão naquele dia em que as imagens do ex-presidente iraquiano foram divulgadas. Ele viu coleguinhas protestando. Não protestavam exatamente contra a prisão, mas contra a ocupação. Tudo vira desculpa para protestar contra a ocupação: pela independência, por empregos, por direitos. As tropas americanas reprimiram os garotos a bala. Esse moleque estava numa cama de hospital, vigiado pela polícia iraquiana, quando o vi. Tinha apenas 14 anos. Não era um terrorista. Talvez nem saiba exatamente o que a palavra independência significa, mas sabe o que é ocupação. O que é "não ser cidadão" na própria terra.

Em que momento surgiu a decisão de visitar o Irã?

S.K. ? Primeiro fechei um acordo com meu amigo Joao Wady Cury, diretor de conteúdo da AOL. Achávamos que a guerra real começara depois do grande bombardeio. Fechamos o acordo logo após a explosão do prédio da ONU e a morte de Sérgio Vieira de Melo. Cury queria um repórter da imprensa alternativa lá. Pude escrever para a AOL e para a Caros Amigos.

Que roteiro você percorreu para chegar até lá?

S.K. ? Do Iraque, peguei, na Jordânia, o meu visto para o Irã. Havia acertado isso na embaixada iraniana aqui no Brasil. Existe embaixada do Irã em Bagdá, mas não queria arriscar qualquer problema, por causa da rivalidade decorrente da guerra Irã/Iraque. Voei de Amã para Dubai e de lá para Teerã.

Enfrentou dificuldades para entrar no país dos aiatolás?

S.K. ? Não enfrentei qualquer dificuldade, ainda mais que para o Irã fui por outra revista independente, com linha similar à da Caros Amigos. Estive em Teerã pela revista Reportagem. Escrevi para a revista e para o portal AOL. Depois de quase 20 dias, voltei para Bagdá, saindo de lá novamente para Bam, cidade iraniana do terremoto, onde permaneci por dois dias. Não havia mais ninguém da imprensa brasileira cobrindo esta que foi uma das maiores catástrofes das últimas décadas.

O que você estava fazendo quando tomou conhecimento do terremoto em Bam?

S.K. ? Estava em Bagdá, esperando Sheryl Mendez, uma amiga editora de fotografia da US News. Iríamos juntos a Basra, sul do Iraque. Ela chegou, mas com outra idéia em mente. "Vamos para Bam?" Claro. Fomos correndo para a embaixada iraniana em Bagdá. O visto saiu em 10 minutos porque o presidente Katami havia convidado publicamente grupos de ajuda e jornalistas. Chamei toda a turma. Fomos Sheryl, meu amigo francês Nicolas, o sueco Matis, o húngaro Borys, o sul-coreano Shin e eu.

Como fez para se deslocar até o local da tragédia?

S.K. ? Fomos de táxi até a cidade com aeroporto mais próxima da fronteira com o Iraque. Não conseguimos passagem. Seguimos de carro para Teerã. De lá pegamos um avião.

Como estava a cidade?

S.K. ? A cidade estava arrasada. Quarteirões inteiros destruídos. Até o prefeito e os candidatos à próxima eleição do parlamento haviam morrido.

Houve algum tipo de restrição à cobertura da imprensa?

S.K. ? Não houve qualquer restrição. E demos de cara com o presidente Katami no acampamento em que havíamos parado para jantar. A gente não estava acreditando que ele estava lá, na nossa frente. Os jornalistas se matavam para conseguir perguntar, para conseguir uma foto. Sheryl conseguiu tirar três fotos. Eu não tinha minha câmera nas mãos na hora.

Como a opinião pública iraniana recebeu as propostas de ajuda dos Estados Unidos, o arquiinimigo do regime dos aiatolás?

S.K. ? Não sei. Só sei que gostei da resposta do presidente iraniano. Ele até aceitou a ajuda de alguns grupos americanos. (Em meu avião de Bam para Teerã retornava um médico americano.) Mas o presidente iraniano recusou qualquer ajuda maior ou uma reaproximação com o governo americano enquanto a atual administração não mudar sua política internacional.

Em que grau se deu a ajuda humanitária dos outros países?

S.K. ? Havia aviões e grupos de socorro de vários países. Suíça, Espanha, Itália, França, Taiwan…

O que restou da cidade após o terremoto?

S.K. ? Praticamente nada. Não tive tempo de checar a área industrial. Duas montadoras de carro estão instaladas ali. Talvez tenham permanecido de pé, tal como o hotel onde fiquei. O hotel funcionava precariamente, cheio de rachaduras. A grande maioria dos funcionários havia morrido no terremoto, dormindo em suas casas.

O Irã faz fronteira com o Afeganistão e com o Iraque, países recentemente invadidos pelos Estados Unidos. Como você sentiu o ânimo das pessoas no país quanto a essas guerras tão próximas?

S.K. ? Algumas pessoas têm realmente a sensação de que poderiam ser as próximas.

Qual é a influência dos aiatolás, hoje, no Irã? Existe algum sentimento crítico da população sobre o regime?

S.K. ? O Irã vive uma república islâmica, como diz o nome do país. Por isso, as pessoas precisam viver de acordo com as leis da religião. Precisam se vestir, comer, beber, viver de acordo. Mesmo o tempo é medido segundo o Islã. Mas não acreditem nas imagens e informações de agências internacionais que se espalham pelo mundo, de que é um povo fanático, radical. E assim como no Brasil, o maior país católico do planeta, muitos não vão à missa aos domingos, muitos iranianos não freqüentam a mesquita às sextas-feiras. O país vive um momento de muita ebulição. As mulheres e muitos jovens têm pressionado nos últimos anos os governantes por mudanças políticas, econômicas e sociais. O conflito vai ficar mais latente neste 17 de fevereiro, quando acontecem as eleições para o parlamento.

Os sentimentos antiamericanos tão exacerbados no mundo após o 11 de setembro também podem ser vivenciados no país?

S.K. ? É um sentimento dúbio em alguns. Você encontra um outdoor encravado em Teerã com o dizer: "Abaixo os Estados Unidos." Mas, ao mesmo tempo, você tem jovens ouvindo música americana e assistindo a enlatados, comendo hambúrguer e bebendo Coca-Cola. As frustrações de alguns, principalmente dos jovens, que não conheceram o regime corrupto do xá Reza Pahlevi, apoiado pelos Estados Unidos, mas que são proibidos de dançar em público, beber álcool, se beijar, abrem espaço para que TVs e rádios, como a Voz da América, penetrem com mais facilidade e influenciem mais a opinião pública e o desejo de imigrar para Los Angeles.

Como está o nível de vida da população?

S.K. ? Eles vivem uma crise econômica, com inflação e desemprego. Mesmo assim, a qualidade de vida é melhor do que a nossa. A revolução islâmica procurou democratizar ensino e infra-estrutura. A porcentagem de estudantes universitários é considerável, os alimentos são tabelados, e gás, energia el&eacuteacute;trica e água são subsidiados.

Qual o grau de influência da cultura ocidental hoje no Irã, se comparada aos demais países da região (o Iraque, por exemplo)?

S.K. ? O Irã é de uma riqueza cultural própria impressionante. Podemos chamá-los de os gregos do Oriente Médio. Cinema, teatro, música… A influência ocidental em termos culturais é muito menor do que em qualquer outro país do Golfo. O país tem identidade própria. E a cultura ocidental enfrenta muitas barreiras governamentais que buscam limitar sua influência. Por exemplo, parabólicas são proibidas para a maioria da população e música estrangeira no rádio só se for sem letra.

Qual o grau de liberdade de imprensa naquele país? Qual o leque de atuação da imprensa estrangeira?

S.K. ? Nos últimos cinco anos, com a eleição de Katami, de modo geral aumentou a liberdade de imprensa. Mas, há sempre muitos retrocessos. Jornais e revistas, que têm um grau de liberdade um pouco maior, com relação a outras mídias, acabam fechados por causa do conteúdo reformista ou por serem mais críticos. TVs e rádios são controladas pela autoridade suprema, o líder religioso Ali Kamenei.

Você enfrentou algum tipo de dificuldade em seu trabalho por lá?

S.K. ? Não tive qualquer problema. Mas é um país um pouco difícil de trabalhar porque encontrava algumas pessoas com medo de expressarem suas idéias, principalmente gente da classe média. Tinham medo de perseguição política do governo.

Há uma crítica generalizada quanto à morte da grande reportagem no Brasil. Como você se sente com essa oportunidade para um trabalho de mais fôlego, de poder mergulhar nessa aventura?

S.K. ? Me sinto um privilegiado. Mas não é só a reportagem de fôlego que está em crise no Brasil. É o jornalismo. Como não temos um correspondente brasileiro cobrindo a ocupação americana, a guerra contra a guerrilha? Como não tínhamos ninguém mostrando a cidade do terremoto, Bam? Senti de perto como é importante ter um latino-americano no Iraque. Temos muitas coisas em comum com aquele povo. Lembro de que sentava numa das mesas do hotel e contava aos amigos correspondentes europeus as histórias de tortura, morte e abuso de soldados americanos no Iraque. Contava da diretora de ginásio que havia sido presa, humilhada e roubada por soldados. Do caso de um homem torturado, que teve uma unha do dedão arrancada num interrogatório. Eles não acreditavam. Eu, sim. Eu publico. Conhecemos a história recente do Chile, da Argentina, da Bolívia, de El Salvador, se Honduras, Nicarágua. Escola das Américas… E contava a eles.

Qual a impressão que ficou do povo iraniano?

Um povo muito honesto e carinhoso, que recebe muito bem o estrangeiro, principalmente o brasileiro. Amam o nosso futebol. Não tinha um taxista que não chegasse com a escalação da seleção.

(*) Estudante de Jornalismo da Universidade Tiradentes (SE) e editor do Balaio de Notícias <http://www.sergipe.com/balaiodenoticias>

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