Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO NA SCIENCES PO

Uma alternativa ao espírito de manada

Por lgarcia em 06/01/2004 na edição 258

JORNALISMO NA SCIENCES PO

Leneide Duarte-Plon, de Paris


"O quarto poder ganha cada vez mais importância e os jornalistas tornaram-se um dos pilares para a compreensão do mundo." (Richard Descoings, diretor da Sciences Po)

"Os jornalistas são formados principalmente nos aspectos técnicos da profissão, a bagagem cultural e os aspectos teóricos são desprezados. Os cursos de Jornalismo formam ?pequenos soldados conformistas? prontos a reproduzirem a técnica que aprenderam, sem (quase) nenhum espírito crítico."


A segunda afirmação poderia ter sido escrita sobre os cursos de Comunicação da maioria das universidades brasileiras. Mas são de um crítico de um dos principais e mais antigos cursos de Jornalismo da França ? o Centre de Formation de Journalistes (CFJ), de Paris.

"O único critério é o resultado, a audiência, as vendas", diz François Ruffin, autor do livro Les Petits Soldats du Journalisme (editora Les Arènes, Paris), lançado em 2003. Nele, Ruffin critica sem piedade a formação atual dos jornalistas no CFJ, uma das 11 escolas francesas de jornalismo, a mais conhecida entre as três únicas que formam jornalistas em Paris. O CFJ foi criado logo depois da guerra por intelectuais que haviam participado da Resistência. De 1947 até hoje, a instituição formou apenas 2 mil alunos ? e a maioria trabalha nos principais jornais, revistas, rádios e estações de TV do país.

O implacável crítico estudou no CFJ, onde se formou em 2002, e percorreu todo o curso sempre com olho crítico. Logo que saiu, lançou seu livro-panfleto sobre os jornalistas, "técnicos dóceis ou pequenos soldados", formados para reproduzir fatos, frases e relatar coletivas sem nenhum espírito crítico. Esse inquisitorial de Ruffin foi imediatamente contestado por manifesto publicado no jornal Libération, assinado por alunos do CFJ, fundado em 1946, dentro dos ideais de Hubert Beuve-Méry, fundador do jornal Le Monde.

Na visão de Ruffin, no CFJ o jornalista seria treinado não para criticar, pôr em dúvida, analisar, mas para reproduzir, fazer aquele famoso jornalismo factual tido como "objetivo", como se este existisse e não estivesse, ele próprio, a serviço de algum interesse, na maioria das vezes o da manutenção do status quo. Muito longe da escola dos sonhos de Ruffin, que ensinaria a pensar. No CFJ, segundo o desiludido jornalista, o "cérebro é um órgão inútil e até mesmo prejudicial". O atual diretor, Luc Lemaire, reconhece que existe hoje nas escolas de Jornalismo uma tendência a privilegiar a técnica em detrimento da cultura e da formação intelectual.

Jornalismo com selo

Pois agora o panorama parisiense vai mudar. A partir do ano letivo de 2004 (setembro) uma nova escola de Jornalismo abrirá as portas em Paris no prestigioso Institut d?Études Politiques, conhecido pela forma abreviada de Sciences Po. Esse curso não pretende ser apenas mais um na França, país onde não é obrigatório o diploma para exercer o métier de jornalista e onde apenas 25% dos 35 mil jornalistas em atividade passaram por uma universidade especializada. Na Itália, 90% dos jornalistas são formados nas faculdades de Jornalismo. Nos Estados Unidos, essa proporção é de 60%.

O aluno da Sciences Po vai cursar um primeiro ciclo de três anos de formação fundamental e um segundo ciclo de dois anos, orientado para o lado prático da profissão. Os primeiros três anos pretendem dar a indispensável formação teórica para formar bons jornalistas. Por ter laços estreitos com a Graduate School of Columbia, de Nova York, e a Medill School of Journalism, de Chicago, a Sciences Po oferecerá a seus estudantes ? mais de 30% são estrangeiros e todos os alunos franceses fazem estágio de um ano no exterior ? muitas oportunidades de intercâmbio.

"A formidável grade de matérias da Sciences Po, seja em política, em economia ou em relações sociais, dará ao aluno de Jornalismo uma grande bagagem intelectual, preparando-o para compreender melhor o mundo", assinala Michèle Cotta, jornalista encarregada pela direção da escola de elaborar um projeto pedagógico para o curso. Para auxiliá-la a jornalista já convidou grandes nomes da imprensa ? como Robert Graham, editor do Financial Times.

Richard Descoings, diretor da Sciences Po, não pretende apenas abrir mais uma escola de Jornalismo. Ele quer iniciar uma reflexão sobre o jornalismo e sua evolução para os próximos 10 anos. Segundo ele, o quarto poder ganha cada vez mais importância e os jornalistas tornaram-se um dos pilares para a compreensão do mundo.

"Partimos de algumas constatações, seja a evolução do papel do jornalista como vetor de regulação da nossa sociedade, seja o lugar cada vez mais importante da televisão, a transformação industrial dos grupos de mídia em escala nacional ou internacional e a questão da deontologia ligada ao poder de impacto que têm os jornalistas", assinala Descoings.

Antes mesmo de formar jornalistas, já era grande o número de alunos da Sciences Po anualmente recrutados para órgãos de comunicação, graças à excelente formação intelectual. O curso de Jornalismo da Sciences Po também vai preparar jornalistas para dirigirem veículos de comunicação do futuro.

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