Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > OS MENINOS DO TRÁFICO

Uma câmera nos becos da favela

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

OS MENINOS DO TRÁFICO

Nelson Hoineff (*)

Ninguém sabe ao certo o que motivou o cancelamento da exibição do documentário de MV Bill Falcão, os meninos do tráfico, domingo (3/8), no Fantástico, da TV Globo. As versões variam entre a proibição imposta pelo próprio tráfico às negociações que estariam sendo feitas entre os produtores do documentário e a Columbia, que deveriam incluir cenas não editadas na versão para a TV.

Entre as versões circulantes e a que se admitiu tornar pública ? o cancelamento foi devido a razões de "foro íntimo" dos produtores ? há um aspecto que passou quase despercebido, mas é muitíssimo importante no momento em que o país abre um amplo debate sobre a pluralização da produção televisiva: Falcão, os meninos do tráfico, amplamente anunciado pela emissora e por vários jornais, e que sem dúvida levantaria a audiência no seu horário, é uma produção independente clássica. Clássica porque lança mão dos mecanismos de produção típicos desse tipo de produto: uma idéia desenvolvida individualmente, segundo as normas imaginadas pelo seu produtor, e depois negociada com uma grande rede de televisão. É esta produção independente que, exibida ou não, transformou-se no talk of the town durante boa parte da semana.

A grande lição que Falcão tem a dar ao sistema de produção audiovisual no Brasil é essa. Trata-se de uma produção independente porque não poderia ser de outra forma: a idéia de filmar as favelas brasileiras durante um largo período de tempo só poderia partir de ? e ser levada a efeito por ? realizadores que tivessem íntima relação com esse universo e não estivessem circunscritos ao esquema tradicional de pauta e realização de um programa semanal de televisão. Depois, porque há poucas dúvidas ? e a Globo foi a primeira a não duvidar ? de que ali estava um produto competitivo e mais: um inconteste sucesso de audiência.

Quatro paredes

Originalidade, singularidade e competitividade: estes são atributos essenciais da produção audiovisual independente. Para isso bem que poderiam ser desviados os focos das atenções sobre a campanha que está em curso pelo aumento da regionalização e pluralização da produção televisiva, manifesta pela lei Jandira Feghali e outros instrumentos.

Não que essa seja uma questão que deva escapar ao Legislativo: não é razoável, sob qualquer ponto de vista, que a indústria de televisão no país, em sua tão grande amplitude, segregue a pluralidade intelectual e criativa da sociedade brasileira. Mas é importante também que se demonstre que a produção audiovisual independente não quer entrar de favor ? ou por simples imposição da legislação ? na grade das grandes redes de televisão.

É necessário, sobretudo, que fique bem demonstrado que todos os realizadores brasileiros, em seu conjunto, são capazes de oferecer um cardápio mais variado, abrangente e culturalmente excitante do que a industria de imagens que nasce de um número limitado de profissionais, cuja competência nada tem a ver com os limites impostos pela segregação física e intelectual a que estão submetidos.

Não faltará quem objete que justamente por ser uma produção independente Falcão, os meninos do tráfico esbarrou com a emissora num impasse ? seja em decorrência de divergências na escolha de imagens que poderiam ir ao ar, ou da pressão de bandidos, ou ainda do "foro íntimo". Tudo isso, no entanto, faz parte do cenário de um produto irredutível a outro mecanismo de produção. E é na exibição de produtos nascidos de mecanismos de produção diferenciados que uma rede de televisão, como exibidora de produtos de TV, se distancia, ganha responsabilidade e autonomia em relação a uma rede de televisão que seja apenas exibidora dos produtos produzidos internamente. É o que acontece nas redes mais sérias e autônomas do mundo, a começar pela BBC.

Mesmo sem ser exibido no domingo passado, Falcão, os meninos do tráfico prestou um grande serviço. Talvez não ainda ao entendimento da gênese dos pequenos traficantes, mas certamente à compreensão do por que as grandes redes de televisão não podem abrir mão da necessidade de ir buscar muitos de seus programas de maior impacto, de maior audiência e maior responsabilidade, fora de suas quatro paredes.

(*) Jornalista e diretor de TV

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