Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > COPA DAS VACAS MAGRAS

Uma Copa para meninas

Por lgarcia em 05/06/2002 na edição 175

COPA DAS VACAS MAGRAS

Luiz Antonio Magalhães

Pesquisas qualitativas com os leitores são rotina na Folha de S. Paulo. A opinião do público pesa tanto que o jornal já chegou a publicar diariamente uma espécie de avaliação de suas edições a partir de questionários cotidianos, realizados por telefone, com os assinantes. A Folha também leva em consideração o perfil e o pensamento de seus leitores no seu projeto editorial e gráfico.

O caderno especial "Copa 2002" da Folha de certo foi minuciosamente pensado. Pesquisas qualitativas sobre o tipo de leitor e a cobertura desejada sobre o mais importante evento esportivo do planeta seguramente não ficaram de fora de tal planejamento.

A julgar pelo que vem sendo apresentado no "Copa 2002", a Folha descobriu que o público-alvo de sua cobertura futebolística, pelo menos durante a Copa do Mundo, é constituído majoritariamente por adolescentes do sexo feminino. Senão vejamos.

O projeto gráfico do caderno parece inspirado em diários de meninas pré-púberes. Quase todas as artes, especialmente as da página 2, estão recheadas do que o Ombudsman da Folha, na falta de melhor definição, chamou de "anotações à mão": "O jornal, creio, está abusando do recurso gráfico das ?anotações à mão?, a ponto de, em alguns casos, sacrificar a informação em nome da renovação ou da estética", escreveu Bernardo Ajzemberg em sua crítica interna, disponível na internet.

Para quem não é leitor da Folha de S. Paulo, podemos dizer que a coisa se parece exatamente com marcações que as adolescentes fazem em seus diários, comentando consigo próprias o texto que escreveram. Na Folha, as anotações dialogam com o leitor, trazendo pérolas do tipo "e aí, acordou?", "deu sono?", ou ainda comentários jocosos ("valeu, Kim", em referência ao árbitro sul-coreano que ajudou o Brasil contra a Turquia). Vale notar que nas páginas coloridas, as tais anotações aparecem sempre em vermelho, como se tivessem sido feitas por um batom de mulher.

As garotas também devem ter vibrado com a decisão do diário paulista de publicar nus masculinos no seu caderno esportivo. Pelo menos foi o que se viu na edição de segunda-feira (3/6), na segunda página do "Copa 2002": um jogador da Itália simplesmente pelado. No dia seguinte (4/6), foi a vez do capitão Cafu aparecer de cuecas.

Se o intuito da Folha é realmente agradar as adolescentes, parabéns: o caderno especial acertou em cheio. Para o público masculino, digamos, um pouco mais antiquado, o resultado é apenas constrangedor. Mas para eles, há sempre um Estadão para se ler, não é mesmo?

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