Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > GAZETA MERCANTIL

Uma crise diferente das outras

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

GAZETA MERCANTIL

Eliane Sobral (*)

Qualquer reflexão que se faça sobre a longa agonia financeira da Gazeta Mercantil deve ser precedida de importante ressalva: a crise da Gazeta é anterior e tem alguns componentes que a diferenciam da que se abate sobre boa parte das empresas brasileiras de comunicação.

Empresas jornalísticas tradicionais debatem-se hoje com pesados endividamentos resultantes de projetos, na maioria das vezes frustrados, de expansão e diversificação dos negócios, como participação em empresas de telefonia, em TV por assinatura e internet ? tudo isso com espetaculares endividamentos em dólar.

Não é o caso da Gazeta Mercantil. A Gazeta talvez seja um dos raros exemplos de empresa jornalística que ganhou um bom dinheiro com a internet, por conta de parceria firmada com a Portugal Telecom, em junho de 2001. Falava-se em um negócio de 60 milhões de reais. Como editora do serviço eletrônico de informações da Gazeta à época, posso assegurar que, se houve investimento deste dinheiro (ou de parte dele) na expansão ou na infra-estrutura do InvestNews, isto não foi percebido.

Outra peculiaridade que distingue a crise da Gazeta em relação às demais empresas do setor é que, no momento em que os grandes títulos começavam a sentir os efeitos da queda de circulação e da receita publicitária, a Gazeta continuava faturando bem com o mercado que lhe assegura, ou deveria assegurar, receita suficiente para honrar compromissos ao longo de todo um exercício fiscal: o da publicidade legal ? legal e obrigatória ?, setor no qual o jornal manteve um sólido e duradouro reinado.

Salários atrasados

Se, por um lado, não há endividamento em dólar e os efeitos da retração do mercado publicitário demoraram mais a chegar à Gazeta Mercantil do que aos concorrentes, por outro, é difícil crer que haja no país empresa jornalística com dívidas fiscais e passivo trabalhista tão astronômicos como a Gazeta ? só em dívidas fiscais, calcula-se em 600 milhões de reais os débitos da empresa, entre FGTS e imposto de renda descontados da folha e, diga-se, não repassados ao Fisco.

Ao processo de asfixia da empresa some-se uma gestão que muito provavelmente não figurará nos livros de administração como sinônimo de competência. Das várias analogias possíveis para o caso, talvez a mais apropriada seja a do sujeito que acaba de comprar um automóvel de luxo e, deliberadamente, joga-o contra o primeiro poste que lhe surge à frente.

Até onde é possível saber, havia receita no caixa da Gazeta Mercantil mas, até onde é possível perceber, em dado momento, ou em vários momentos, optou-se pela inadimplência. E inadimplência indiscriminada: do “chão de fábrica” a fornecedores de papel e de serviços, como telefonia e eletricidade. Pode-se argumentar que crise administrativa também acomete outros grandes grupos da mídia nacional. Ressalve-se, porém, que em nenhum deles houve conseqüências minimamente próximas às que vitimaram a Gazeta Mercantil ? lembrem-se os quinze dias em que a redação do jornal ficou sem telefones por falta de pagamento, entre março e abril passados. Ressalve-se, ainda, que em nenhuma outra redação de grande porte são conhecidos casos de semanas, meses, e agora anos, de salários atrasados.

Direitos legais

Com a crise econômica, a chegada de concorrente direto e o fechamento de algumas torneiras públicas, a situação da empresa, que já era grave, ficou insustentável ? e quem passou a financiá-la foi sua força de trabalho.

Atrasos de salários nunca foram novidade na Gazeta Mercantil. A partir de 2000, porém, o problema ficou mais agudo e, em outubro de 2001, o jornal enfrentou sua primeira greve ? movimento incomum em redações de jornais desde a mal-sucedida experiência de 1979.

O saldo da primeira paralisação da história do jornal, reconhecida escola de jornalismo econômico, foi a demissão de mais de 400 trabalhadores. Ao longo de 2002, o jornal continuava perdendo massa crítica por absoluta falta de recursos financeiros, porque mão-obra qualificada nunca lhe faltou. Em 2003 nova leva de demitidos e, assim como em 2001, saíram com a instrução de buscar na Justiça seus direitos trabalhistas – verbas rescisórias, inclusive.

Foi para lutar por seus direitos que os jornalistas da casa tomaram a iniciativa de formar uma associação, de nome complicado é verdade, mas que conseguiu na Justiça a primeira vitória numa batalha insana para receber o que lhes é devido. A Asfunprecre ? Associação dos Funcionários, Prestadores de Serviços e Credores da Gazeta Mercantil obteve medida liminar que lhe garante o bloqueio da marca Gazeta Mercantil (e todas as outras marcas, como Investnews, Balanço Anual, Panorama Setorial) enquanto não forem pagos os passivos trabalhistas. A Asfunprecre é o fato novo numa relação em que os patrões “esquecem” de pagar os passivos trabalhistas quando passam o comando de suas empresas para terceiros.

As notícias vindas do bairro paulista de Santo Amaro, onde fica a sede do jornal, dão conta de que o dono do carro de luxo agora quer partilhar seu lugar ao volante. O poder público, e especialmente o Judiciário, tem de estar atento para fazer valer os direitos dos trabalhadores/credores da Gazeta Mercantil se houver de fato uma negociação entre Nelson Tanure e Luiz Fernando Levy. A própria Gazeta reconhece um passivo de 45 milhões de reais. Pelas contas da Asfunprecre ele é próximo a 90 milhões de reais.

Ninguém, a priori, é contrário a um acordo que possa garantir a sobrevivência do jornal, a manutenção dos postos de trabalho e a democratização, pela pluralidade, da informação econômica. Mas há trabalhadores que têm direitos assegurados por lei e esses direitos têm de ser preservados.

(*) Diretora de Redação da revista Negócios da Comunicação, foi editora do InvestNews e de Mídia & Marketing da Gazeta Mercantil; membro do Comitê Executivo da Asfunprecre

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