Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > SHOWRNALISMO

Uma crítica ao jornalismo de mercado

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

SHOWRNALISMO
(*)

João Pedro Stédile (**)

Fui surpreendido por esse convite do Arbex para fazer o prefácio de seu livro, fruto de muitas pesquisas e de sua longa experiência vivida no jornalismo brasileiro. Evidentemente, não sou nenhum especialista do ramo. Nesse enredo, meu papel está mais para ator do que para comentarista. Certamente, algum especialista poderia recomendar a obra com muito mais propriedade do que eu. Por isso, encarei o convite como uma homenagem, e também como um privilégio: o de poder ler o livro antes de vocês todos.

Este livro chega em muito boa hora.

Nós passamos a última década sob a hegemonia do "pensamento único", que tomou conta das universidades, dos partidos, dos ideólogos, dos articuladores da vida política e da imprensa. Isso foi fruto da supremacia econômica, política e militar do império norte-americano.

No Brasil, talvez mais do que em qualquer outro país, as conseqüências dessa hegemonia foi extremamente perversa. Aqui, o verdadeiro monopólio dos meios de comunicação ? sete ou oito grupos econômicos controlam as principais redes de televisão, os principais jornais, rádios e revistas semanais ? colocou-se integralmente à disposição de uma elite historicamente submetida ao colonialismo.

Justamente em tempos de hegemonia e monopólio, florescem as opiniões e posturas mais oportunistas: todos aqueles que querem manter ou obter alguma visibilidade acabam por se submeter às regras do jogo. Pagam o preço que for necessário pelos seus "quinze minutos de fama".

O livro do Arbex desvenda esse processo.

Ao longo dos vários capítulos, podemos apreender muitas coisas analisadas com a competência e o equilíbrio adquiridos graças a uma longa e densa experiência, vivida pelo autor como correspondente, editor e repórter especial do jornal Folha de S.Paulo.

Arbex demonstra a evolução do poder da televisão, sua capacidade de transformar ficção em realidade, e de tratar os fatos da vida real como se fossem capítulos de um telenovela, atrações de um show qualquer. A confusão é proposital, e tem como objetivo ampliar o poder da mídia de manipular a informação e condicionar a opinião pública.

Arbex também mostra como a imprensa se mesclou com o império das corporações. Hoje, estabelece uma relação inseparável, de total promiscuidade com o grande capital, transformando-se numa verdadeira indústria de manipulação de consciências. Mostra, com exemplos e fatos indiscutíveis, como a velocidade com que as informações são fabricadas e transmitidas tornou-se mais importante do que a veracidade da notícia. Há busca permanente da "novidade" transforma, rapidamente, qualquer notícia em "passado", anulando o seu impacto e assim contribuindo para banalizar a informação. Nada é aprofundado, discutido, pensado.

Ao analisar o tratamento dado pela chamada grande imprensa aos problemas do "terceiro mundo", Arbex mostra que mesmo os problemas mais complexos são reduzidos e simplicados, são traduzidos sob a forma da luta entre o "Bem" e o "Mal". Cita, por exemplo, a "satanização" do Iraque, da Sérvia, do islamismo, do Afeganistão. Mesmo as grandes chagas de nosso tempo, como a pobreza, as tragédias humanas da África, a fome, as pestes e a doença são banalizados, eventualmente satirizados, transformados em fatos vulgares.

O livro, enfim, é um sério convite à reflexão. É também um choque de consciência.

Reflexão sobre a gravidade desse fenômeno relativamente recente na história da humanidade, que é o monopólio dos meios de comunicação, cada vez mais fundidos com as grandes corporações e orientados pelos seus interesses políticos. Reflexão sobre a gravidade do que representa uma imprensa cada vez mais servil e cúmplice dos governantes, de quem recebe polpudas verbas publicitárias e favores de todo tipo.

Depois de ler esse livro, ficamos ainda mais convictos de que a democratização real e efetiva da sociedade impõe a democratização dos meios de comunicação de massa. A mídia deve funcionar a serviço do interesse de toda a população, e sobretudo da verdade.

Nada poderia ser mais contraditório à lógica do lucro dos grandes grupos econômicos.

(*) Versão não-definitiva do prefácio de João Pedro Stedile para Showrnalismo ? A notícia como espetáculo, de José Arbex Jr.

(**) Membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

    
    
                     

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