Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > CARTILHA DA DESINFORMAÇÃO

Uma dose a mais de humildade

Por lgarcia em 29/01/2003 na edição 209

CARTILHA DA DESINFORMAÇÃO

José Carlos Aragão (*)

Tenho 46 anos e trabalho na imprensa e/ou publicidade desde os 15. Nesse tempo, já vi de tudo (mas não tudo). Atuei em fronts opostos: redações de jornais diários, assessorias de imprensa governamentais, departamentos de marketing de empresas (anunciantes), coordenação de campanhas eleitorais e agência de propaganda. Essa vivência me leva, cada vez mais, à certeza de que não existe imprensa isenta e, muito menos, livre.

Daí não me parecer estranho que o PT edite uma cartilha para orientar seus parlamentares no trato com a imprensa. Há tanta má fé, intenções espúrias e pressões políticas e econômicas norteando a atividade jornalística em nosso país (e, certamente, em todo o mundo) que acho razoável que aqueles que precisam lidar diariamente com a mídia, alimentando-a de informações que vão se tornar notícias, se acautelem.

Vamos rememorar alguns fatos jornalísticos recentes e refletir sobre eles.

Comecemos pelo clássico caso da Escola Base, em que alguns órgãos da imprensa, sem questionar as deduções não-fundamentadas de um delegado, e sem ouvir as partes, optou pelo sensacionalismo "marronzista" (como diria o saudoso Odorico Paraguaçu), com terríveis conseqüências para os proprietários da escola ? inocentes que, até hoje, pagam por um crime que não cometeram. E de quem foi a culpa? Parte da imprensa, numa atitude corporativa ? que tanto nos empenhamos em condenar em outros setores da sociedade ?, prefere acusar o delegado que se precipitou em fazer declarações conclusivas à mídia, tentando garantir um lugar sob os holofotes. Levou tempo para que alguns veículos ? como a revista Imprensa e o próprio Observatório da Imprensa ? apontassem o episódio como um erro de conduta jornalística.

Em Minas Gerais, um crime ocorrido há dois anos voltou a ocupar as manchetes policiais: o assassinato de uma dublê de modelo e garota de programa num flat da Zona Sul da capital. Tido inicialmente como suicídio, o caso foi reaberto pelo Ministério Público, que achou numerosas falhas no inquérito e evidências claras de que poderia tratar-se de um homicídio. Toda a imprensa passou a acompanhar o caso, porque descobriu-se o envolvimento de personalidades ligadas ao governo do estado, cujos nomes constavam da agenda da vítima. Nenhum veículo de imprensa, entretanto, informou o nome dessas pessoas, durante meses de cobertura das investigações e tomadas de depoimentos.

Um repórter de TV chegou a fazer matéria com as páginas
do inquérito na mão, onde constavam os nomes dos envolvidos,
mas não ousou dizê-los. Teria sido um furo de reportagem,
já que ninguém dera os nomes até então.
O que o teria impedido? O fato de serem altas autoridades do governo
? um diretor de estatal, um futuro ministro de Estado, o ex vice-governador,
um secretário de estado? Medo? Ordens superiores da empresa
jornalística? Pressões políticas externas?
E por que os nomes foram divulgados ? após prolongado suspense
? na véspera de um deles ser empossado como ministro do atual
governo?

Erros e arbitrariedades

Vamos agora ao caso dos fiscais da Fazenda e da Receita que teriam desviado dinheiro do Estado do Rio para contas na Suíça. Como a notícia saiu na imprensa? Aos pedaços: primeiro, deram, em manchetes, os nomes dos funcionários envolvidos; depois de algum tempo, disseram que havia uma multinacional envolvida; depois que havia uma rede de supermercados; depois, alguém insinuou que havia o envolvimento de uma indústria de refrigerantes. Que jornal, TV ou revista daria, em manchete, a menor suspeita de envolvimento da Coca-Cola ou do Carrefour no episódio?

Aonde quero chegar com isso?

Aprendi que está certo o dito popular que diz que "a corda só arrebenta no lado mais fraco". Para a grande imprensa, não importa que, se há um corrupto, haja um corruptor e ambos são bandidos e merecem o mesmo tratamento. Não: se o corruptor for um grande anunciante o tratamento é outro. Se um suspeito de envolvimento num crime de morte é uma alta autoridade do Executivo, é melhor não dizer o nome dele, para ele não retaliar cortando a verba de publicidade.

Isso posto, quero abordar também a questão do assessor de imprensa. Entendo que a função de assessor de imprensa é tão digna como a de um repórter de polícia, um editor-chefe, um chargista, um comentarista especializado, um editor de VT ? todos dedicados ao ofício do jornalismo. Assim não o fosse e não ensinariam nas faculdades as especificidades da função. Além disso, a função é uma porta a mais que se abre do mercado de trabalho para novos profissionais, em um mundo cada vez mais ligado a quem domina a informação e as formas de comunicá-la. "Querem melhorar a imprensa pela via dos assessores da imprensa" ? afirmação feita no comentário de Alberto Dines ? me parece, portanto, preconceituosa, injusta e imprópria.

Por tudo isso, considero um direito do Partido dos Trabalhadores ? e, de resto, dos demais partidos, instituições, empresas, corporações, indivíduos ? tomar precauções e orientar seus parlamentares na melhor forma de lidar com a imprensa, evitando deturpação de informações, pensamentos e fatos determinadas por injunções como as especuladas acima.

Acho que, quase sempre, falta a nós, jornalistas, uma dose maior de autocrítica e de humildade. Para que reconheçamos nossos próprios erros e arbitrariedades, e não nos coloquemos acima de nossos iguais que, ocasionalmente, não dispõem de um microfone, uma câmera ou umas linhas numa página de jornal.

(*) Jornalista

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