Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO SARNEY-MURAD

Uma imagem arrasadora

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

CASO SARNEY-MURAD

Muniz Sodré (*)

É provável que nunca antes tenha havido na História do país um episódio tão propício ao desvelamento do poder da imagem pública quanto o caso Roseana Sarney. É preciso de fato usar a palavra "caso" no mesmo sentido empregado por uma certa etnografia contemporânea, em que uma narrativa e um significado aludem a uma performance social significativa. O caso em questão é alegórico, na medida que se refere a um outro padrão de eventos, generalizável na realidade política brasileira, e carrega uma história com uma moral própria sobre essa realidade.

A governadora do Maranhão foi convertida em candidata ascendente à presidência da República, como se sabe, por efeito de uma campanha publicitária. Um programa de televisão e outros tantos balões de ensaio preparados por especialistas em cosmética eleitoral bastaram para catapultar um produto novo no mercado: mulher, mãe de família, aparência diáfana e filha dileta de um político poderoso.

Para as respostas dos entrevistados que compõem a amostragem das pesquisas de opinião, pouco importava o fato de ser a candidata representante de uma oligarquia anacrônica, que há décadas controla direta ou indiretamente os dispositivos de poder no Maranhão. Pouco importava a memória (duvidosa) do governo inflacionário e apequenado de José Sarney; importavam pouco os índices da miséria galopante naquele estado; apenas importava a novidade imagética da candidata.

A televisão aberta tem importância central nesse tipo de fenômeno. Nela, mais do que em qualquer outro meio de comunicação, tornam-se patentes os paradoxos e as fissuras da apregoada modernidade sul-americana, tanto mais visíveis quanto maior é a ausência de um verdadeiro espaço público para a negociação dos conflitos sociais e para o encaminhamento de questões cruciais para a sociedade civil.

De fato, o que o sociólogo Otávio Ianni chama de "príncipe eletrônico" afirma-se, em seus termos, como "o intelectual coletivo e orgânico das estruturas e blocos de poder presentes, predominantes e atuantes em escala nacional, regional e mundial, sempre em conformidade com os diferentes contextos sócio-culturais e político-econômicos desenhados no novo mapa do mundo".

O contexto maranhense é fortemente específico, com sua gritante contradição entre a realidade arcaica das classes subalternas e a "modernidade" neoliberal que veste o discurso literário-publicitário das oligarquias dominantes. É geral, entretanto, o fenômeno da invasão da esfera pública ou política pela imagem midiática, gerando as condições de permanência ou recusa de um protagonista no jogo eleitoral, em especial quando se trata de cargos de grande visibilidade social.

Foi a modernidade ocidental que promoveu a identificação entre espaço público, política e palavra. Quando as antigas cosmovisões perdem a sua força (teocrática) de centralização das aspirações e ações humanas, emerge historicamente a racionalidade instrumental (humana, não divina) como garantia de um projeto coletivamente postulado.O espaço público é o lugar próprio para o desdobramento desse projeto, cuja linguagem é o liberalismo político. Por meio da palavra crítica, que tudo problematiza e possibilita a mediação necessária à representação política, esse projeto pode aceder à universalidade.

Enredo alucinado

Isto que acabamos de descrever de maneira muito geral é próprio da moderna política liberal-européia e tem estado em vigor nos últimos cem anos. São traços de uma estrutura bastante abstrata, que se realiza com variações dependentes dos contextos sócio-regionais. Em casos como o do Maranhão e, na verdade, da maioria das regiões brasileiras, a racionalidade liberal existe apenas no discurso das elites e no aparato administrativo (jurídico-formalista) do processo eleitoral, uma vez que não existem condições sociais e culturais para a emergência de uma verdadeira representação. A palavra sempre foi um mero instrumento do caciquismo político ? este que comporta o voto, mas não a voz livre do eleitor.

Agora, diante da crise universal da representação e das formas clássicas da política, a despolitização generalizada do Estado e o burocratismo dos partidos passam pela intervenção do discurso publicitário da mídia, em que não tem lugar prioritário a palavra crítico-argumentativa, e sim a imagem emocionalista ou os efeitos sensoriais. A televisão e a rede ciberespacial submergem à velha fala política no espetáculo das imagens bem realizadas ou no excesso mal digerido das informações regurgitadas pelo hipertexto.

Para a grande massa anônima, a televisão permanece como mídia principal. Foi ela que, emocionalmente, elevou a temperatura dos termômetros eleitorais com a imagem de Roseana Sarney, graças a balões de ensaios fabricados por técnicos-publicitários competentes e estrategicamente lançados por frações da coalizão que detém as rédeas do poder. Os balões pareceram voar mais alto do que seus congêneres em noites juninas. Mas não tardaram a ser esvaziados por um cenário espertamente administrado nos desvãos burocráticos de outras frações da mesma coalizão dominante, embora com interesses divergentes. A imagem da dinheirama encontrada no escritório da empresa familiar da governadora, oblíqua e inconfessável, foi a contra-imagem que estancou, sempre emocionalmente, a diafaneidade kitsch, típica de filme de David Lynch, do cenário anterior.

Desta vez, poderá pensar o eleitor emocionalmente aliviado, escapamos por pouco. Mas se fizer algum esforço racional, talvez chegue à conclusão de que a força alegórica do caso Roseana e da imagem do dinheiro estadual pode também servir para esconder do olhar crítico a realidade ampla e complexa de desmandos maiores, federais. Aí, então, sobrevém o desânimo moral: é que, no enredo alucinado e ambivalente de uma história pública reduzida a imagens de televisão ou de videogame, quem sabe o que reserva a todos o próximo capítulo?

(*) Jornalista, escrito, professor-titular da UFRJ

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