Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > GOVERNO MARTA

Uma notícia, duas versões

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

GOVERNO MARTA

Luiz Antonio Magalhães

Os dois jornalões paulistas dedicaram no domingo (29/12) chamadas de primeira página para matérias sobre uma mesma notícia ? a melhora na aprovação da gestão Marta Suplicy na capital do Estado. A forma como a mesma informação foi publicada na Folha de S. Paulo e no Estado de S. Paulo é um ótimo exemplo para estudantes de jornalismo entenderem o poder da função de editar um jornal.

Os dados que revelam a subida da prefeita na preferência popular estão em duas pesquisas diferentes ? uma do Datafolha e a outra do InformEstado, em parceria com o Instituto GPP. Nos dois levantamentos, é possível perceber que a avaliação que os paulistanos fazem do trabalho de Marta Suplicy melhorou muito nos últimos seis meses. De acordo com a pesquisa do Estadão, a taxa de respostas “ótima” para a gestão da prefeita subiu de 2,8% em junho para 5% em dezembro, enquanto o de respostas “boa” saltou de 15,9% para 23,2%. Ou seja, em seis meses, a prefeita recebeu apoio adicional de 9,5% dos paulistanos. Já segundo os dados da Folha, a soma das avaliações “ótimo” e “bom” para o governo Marta saltou de 20% em março para 32% em dezembro.

Sob qualquer ponto de vista, a recuperação de Marta é uma notícia e tanto, ainda mais se lembrarmos que 2004 está aí e a prefeita é candidata à reeleição. Os dois jornais, porém, resolveram não dar muita bola para o assunto. A Folha conseguiu a proeza de esconder a notícia que interessava em um ranking estapafúrdio, que compara alhos com bugalhos e a partir do qual se depreende que Marta está mal na fita. A manchete engendrada na Barão de Limeira, aliás, é um primor de má vontade com a prefeita: “PFL lidera ranking; Marta fica em 7?”. Por que Marta em 7?? Por que não, por exemplo, “PT tem 4 dos 9 mais bem avaliados”?

A Folha também decidiu valorizar na primeira página do caderno “Cotidiano” o tal ranking e não a extraordinária recuperação na imagem da prefeita, que ficou relegada a um abre de página interna com a risível chamada “Marta investe e popularidade fica estável”. A má-vontade da Folha com a prefeita é tamanha que ao invés de comparar o dado de março com o de dezembro, o jornal preferiu faze-lo com o do mês anterior, período em que a popularidade ficou mesmo estável, induzindo o leitor a uma conclusão errada, já que a verdade é que a prefeita investiu e a sua popularidade melhorou. Ou o jornal pensa que ela só investiu de novembro a dezembro?

O Estadão foi um pouco mais honesto do que a Folha, mas também escondeu a notícia. Na primeira página, mereceu uma chamada em uma coluna, abaixo da dobra: “Com CEUs e ônibus, Marta recupera a imagem”. Uma matéria sóbria a respeito da mudança de humor do paulistano em relação a sua prefeita ocupou toda a primeira página do caderno Cidades.

Os números da recuperação, porém, impressionam e mereciam um destaque muito maior, com a análise dos seus desdobramentos na eleição do próximo ano, ouvindo, se possível, os principais contendores da prefeita no pleito. Há vários que já se lançaram ? Luiza Erundina, Paulinho, José Aristodemo Pinotti etc ? e que poderiam ter sido ouvidos. Tudo somado, a verdade é que a má vontade da Folha e Estado com a prefeita paulistana os impediu de fazer o que tinha que ser feito: bom jornalismo.

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