Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Uma nova linha nos estudos de comunicação

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

JORNALISMO & HISTÓRIA

Ana Arruda Callado (*)


Texto da “orelha” do volume Eles mudaram a imprensa ? depoimentos ao CPDOC, de Alzira Alves de Abreu, Fernando Lattman-Weltman e Dora Rocha (organizadores), 400 pp., Editora da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2003; URL <www.editora.fgv.br>; preço R$ 44,00.


Em 2008 o Brasil comemorará os 200 anos da existência da imprensa no país e os 100 anos da primeira instituição a reunir jornalistas para sua defesa e aperfeiçoamento profissional, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Este livro, organizado por Alzira Alves de Abreu, Fernando Lattman-Weltman e Dora Rocha, é um excelente aporte ao levantamento da história desses 200 anos que se pretende fazer, para comemorá-los devidamente.

Os depoimentos aqui reunidos são de jornalistas conhecidos por uma competência especial, isto é, pela competência na área de gerência, direção. Não se trata mais dos publicistas dos primeiros tempos, da imprensa panfletária e revolucionária, como Frei Caneca e Cipriano Barata, nem dos jornalistas literatos do Segundo Reinado, como José de Alencar e Raul Pompéia, nem mesmo dos repórteres famosos já na fase empresarial da imprensa brasileira, como João do Rio, Edmar Morel ou David Nasser.

As histórias de vida, contadas por seus protagonistas, que leremos neste livro são de jornalistas-empresários, embora apenas um deles seja de fato proprietário da empresa onde trabalha. Os demais sempre foram contratados, isto é, assalariados, mas podem ser vistos como empreendedores, pois souberam reunir às qualidades de repórteres e redatores as de administradores, a exemplo do que fez, na década de 1950, Samuel Wainer.

Enfim, Evandro Carlos de Andrade, Alberto Dines, Mino Carta, Roberto Müller Filho, Augusto Nunes e Otavio Frias Filho são de uma nova espécie de homens de imprensa, fundadores e reformadores de publicações. Houve muitos reformadores antes deles, como Danton Jobim, fundamental para a renovação da linguagem jornalística no Brasil, o já citado Samuel Wainer, com a revolução que foi a Última Hora, Reynaldo Jardim, não só com o famoso SDJB mas também com o Cultura JS, o Cartum e outros suplementos, Janio de Freitas, comandando a segunda e decisiva fase da reforma do Jornal do Brasil ? para citar apenas a imprensa do Rio de Janeiro.

Mas o que há de inédito aqui, abrindo um novo campo para os estudos de comunicação, para o estudo aprofundado da imprensa brasileira, é o fato de que esses seis depoentes inauguraram ? com outros profissionais não citados aqui, é fato ? um novo tipo de jornalismo, no qual o repórter não é mais repórter, mas provedor de conteúdo, e o editor não tem apenas a responsabilidade de selecionar, hierarquizar, redigir/aprovar o texto final e localizar a matéria jornalística, mas também a de gerenciar uma editoria.

Se os depoimentos selecionados fornecem ao leitor preciosas informações e pistas, apresentam também em alguns momentos visões demasiado particulares, que não devem ser apreendidas como a visão histórica definitiva. Acredito que este livro terá também a qualidade de provocar a elaboração de outros livros, com outros depoimentos, pois sabemos que a memória é seletiva e até por vezes injusta. Uma geração de jornalistas e uma rica etapa da imprensa brasileira não poderiam se esgotar neste panorama, ainda que tenha sido traçado com muita competência por historiadores que conhecem bem as armadilhas da história oral.

(*) Jornalista, professora-adjunta do Departamento de Comunicação da PUC-Rio

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