Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > TRÍPLICE FRONTEIRA

Uma região sob o cerco da mídia

Por lgarcia em 07/10/2003 na edição 245

TRÍPLICE FRONTEIRA

Mário Augusto Jakobskind (*)

São muitos os exemplos de manipulação da informação nos mais diversos veículos de imprensa, de forma sofisticada ou primária. Não raramente utiliza-se até o velho e surrado gênero Goebbels, o da mentira muitas vezes repetida que acaba se transformando em verdade. Se algum pesquisador se dispuser a analisar com profundidade o noticiário dos principais canais de TV nacionais e estrangeiros sem dúvida confirmará esse esquema, que tem por objetivo primordial servir a poderosos interesses políticos e econômicos. A região da Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) pode servir de exemplo de como funciona esse mecanismo.

Uma revista semanal, a Veja, chegou a informar que o chefe da rede terrorista al-Qaida, Osama bin Laden, andou circulando por lá nos idos de 1995. Alguns fatos chamaram a atenção neste caso e até hoje continuam sem resposta: por que só oito anos depois a "informação" veio à tona? E, vale lembrar, a "notícia" surgia justamente quando se avolumavam os protestos na Argentina contra a realização de exercícios militares conjuntos com os Estados Unidos e acusações sobre o interesse norte-americano na instalação de uma base militar na região de Missiones, na área da Tríplice Fronteira.

Sérios prejuízos

Ultimamente as "notícias" sobre a região dão conta de que árabes ou seus descendentes que vivem em Foz do Iguaçu enviam doações em espécie a grupos terroristas no Oriente Médio, o que já foi desmentido várias vezes. A própria embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, a insuspeita Donna Hrinak, já disse, desta vez sem grande destaque: "Acredito que a grande maioria das pessoas que mandam dinheiro para o Oriente Médio o faz movida por interesses nobres e legais."

Mas o auge de manipulação da informação fica por conta da CNN. A emissora do grupo AOL Time Warner chegou a apresentar imagens de um esconderijo da rede al-Qaida com destaque para um calendário com a foto de uma catarata, identificando-a como a de Foz do Iguaçu. Especialistas analisaram as imagens, tendo concluído que a foto não era do local que o canal dizia ser. Mas o prejuízo já estava feito.

O governo do estado do Paraná e a Prefeitura de Foz do Iguaçu decidiram mover ação na Justiça dos Estados Unidos contra a CNN, por ter a emissora divulgado essa falsa informação. As mentiras da mídia, que vieram num crescendo depois de 11 de setembro de 2001, trouxeram sérios prejuízos a Foz do Iguaçu, região eminentemente turística. O fluxo de visitantes, brasileiros ou estrangeiros, caiu pela metade. As cifras variam de 1, 2 milhão, o recorde de uma temporada, para os cerca de 600 mil atuais. Como em média cada turista deixa 90 dólares por dia… Lápis e papel na mão.

Humor, não terror

Se alguém imagina que as falsas informações sobre a Tríplice Fronteira pararam por aí está enganado. Nestes dias, um canal de TV brasileiro revelava "em primeira mão" que os Estados Unidos estariam treinando seus agentes para fazer frente à ameaça, na região, de "terroristas nucleares", o que de alguma forma prenuncia nova fase de divulgação de mentiras sobre a Tríplice Fronteira. O governador do Paraná, Roberto Requião, considerou "ridícula" e "idiota" a informação sobre o "perigo terrorista em forma nuclear". Requião fez este comentário no restaurante La Fiorentina, por ocasião do lançamento oficial do I Festival Internacional de Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu, a ser realizado entre 27 de novembro e 14 de dezembro. Esta iniciativa conjunta, entre outras, do governo do Paraná, da Prefeitura de Foz do Iguaçu e de Itaipu, tendo Ziraldo como presidente de honra, foi uma das formas encontradas para enfrentar o cerco de falsas informações sobre a região. Como afirmou Requião, para enfrentar "a idiotice do terrorismo na fronteira nada melhor do que o Salão de Humor, principalmente depois da contribuição dos americanos".

Requião observou que "se Hitler tivesse sido tratado com a mesma irreverência que nós, paranaenses e brasileiros, pretendemos tratar esta bobagem de terrorismo nuclear, provavelmente o mundo não teria conhecido esta fase terrível do nazismo". O governador do Paraná lançou como tema de reflexão a seguinte pergunta: "O que quer essa gente com a desmoralização do melhor destino turístico do mundo?"

Com o I Festival Internacional do Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu, Foz do Iguaçu passa a ser a capital mundial do humor, até porque, como dizem os promotores do evento, "onde há humor não pode haver terror". Resta saber de que forma a CNN pretende cobrir este festival que, segundo se estima, deverá reunir representantes de 40 países. Como a CNN cobre o mundo…

(*) Jornalista, editor de Internacional da Tribuna da Imprensa

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