Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO TIM LOPES

Uma repórter sob ameaças

Por lgarcia em 19/06/2002 na edição 177

CASO TIM LOPES

Nahum Sirotsky, de Israel

Recebi no meu computador longa nota sobre o apelo que faz a colega Cristina Guimarães, escondida por se sentir ameaçada de morte pelos mesmos calhordas que mataram o colega Tim Lopes. E reclama por não lhe darem proteção. Acredito na história e, como estou fora há tempos, só estranhei o preço de 20 mil reais pelo trabalho. FH diz que não há inflação. Coitado, não sabe nada. Peço desculpas por contar casos próprios para reforçar argumentos.

Não foram poucas as vezes em que eu, jovem repórter de O Globo, e o escolhido do chefe de reportagem Francisco Alves Pinheiro, o maior que conheci em minha longa carreira, tive de botar arma no bolso e avisar que atiraria primeiro e depois perguntaria o nome. Houve até um período de meses em que cidadãos de um partido que renascia sob outro nome, e no qual ingressei com nome suposto para depois denunciá-lo, telefonavam a meus pais avisando de minha morte e para mim, no jornal, para dizer que seria naquela noite. Tenho a maior admiração por quem se arrisca para denunciar sujeira de morro ou de elites. É função e obrigação do jornalista defender a integridade da sociedade, o que é sempre muito arriscado.

O perigo maior não são os Elias Malucos, que sempre podem fechar o baile funk de uma favela e abrir em outras. O perigo está nos que os utilizam para seu divertimento. Gente como a gente que só se revela na escuridão e na proteção dos criminosos. Gente respeitável. Há quanto tempo se sabe que baleiros e pipoqueiros vendem droga a crianças de escola? E que certas barraquinhas da praia funcionam até tarde por causa da clientela da droga? Ou que em inúmeros dos melhores hotéis os porteiros fornecem drogas e mulheres ou rapazes? Ignoro se a denuncia da juíza Denise Frossard, que condenou os chefes do bicho no Rio, em 1994, estima certo quando afirma que boa parte do Congresso "foi capturado pelo crime organizado".

Talvez seja mais, talvez menos, mas que diz a verdade, diz. Quem manda no morro decide quem vai ser eleito pelo morro ? o vereador, o estadual, o federal, o prefeito, o governador. Ele, o dono do morro, tem o voto como ótimo negócio e o vende mais de uma vez. Qual o político que ignora este fato? Nas grandes concentrações urbanas o voto do morro pode decidir. Paga-se com dinheiro e favores. Claro que existe a honra do bandido que, preso, cala-se o mais que possa suportar os "argumentos" utilizados em seu interrogatório. Também se sabe que dono de morro é como ditador: é substituído pelo seu matador. Daí serem sempre tão jovens e conscientes de seu pouco tempo de vida.

Em tudo isto entra a insubstituível e fundamental lei de economia: a da oferta e da procura. O crime organizado existe por ter procura tudo o que oferece. E é o caso do ovo e da galinha, pois não se pode dizer o que vem primeiro. O que se pode afirmar é que só paga no final quem oferece o produto. O consumidor, sendo vivo e poderoso, se safa.

A covarde morte de Tim Lopes recebeu grande divulgação, até na Rádio Voz da América. Se não protegerem Cristina Guimarães, que viu demais, um dia desses um bandido de algum lugar no mundo fará um favor a seu irmão brasileiro, pois o crime está internacionalizado tanto como o terrorismo. Em muitos momentos trabalham juntos. São ameaça a vidas e liberdades. E, pelo que narram colegas da mídia internacional, como na historia do fantástico sucesso do fundador das Casas Bahia, a cada dia a rua brasileira fica mais perigosa, pois os bem-sucedidos são prisioneiros de seus escritórios, carros e helicópteros, guarda-costas, porque tendo poder político e econômico ainda não se conscientizaram que ou aplicam sua inteligência para recuperarem as ruas e os jardins para eles e seus filhos, ou viram súditos dos guris-bandidos que acabarão sendo eles mesmos o poder que hoje ajudam a eleger. Já estamos perto disso.

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