Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > sem

Urubus de plantão

Por lgarcia em 14/02/2001 na edição 108

COBERTURA

Luiz Egypto

Foi um acidente trágico, com uma pessoa morta e um ferido em estado gravíssimo. Mas como havia uma celebridade protagonizando a cena, a tristeza que se abateu sobre a família do cantor e compositor Herbert Vianna foi coadjuvada por uma cobertura mediática intensa, feroz, atabalhoada e… medíocre. Suítes diárias nos jornais pouco acrescentaram ao que já se sabia desde as primeiras notícias sobre a queda do ultraleve pilotado pelo artista, no domingo, 4/2, em Mangaratiba (RJ).

A sofreguidão dos repórteres e editores justificava-se apenas e tão-somente pelo fato de Herbert ser o que é: um artista famoso. No que a cobertura tem ajudado a aprimorar a segurança dos ultraleves, ou na melhor capacitação dos pilotos desses aparelhinhos, nada se sabe ou soube. Tem-se apenas um desfilar de declarações, imagens fátuas e falsos "furos" de reportagem. Imaginem que uma frase solta, curta, dita pelo pai do artista pressionado pelas câmeras ao entrar no banco de trás de um carro, foi interpretada pelo Jornal Nacional como "o pai de Herbert Vianna fala pela primeira vez sobre o acidente".

Outra: na edição de quarta-feira (7/2), o mesmo JN dá como "exclusividade" a declaração de um médico sobre a retirada de um cateter do cérebro do cantor, "exclusividade" esta noticiada na tarde do mesmo dia pela rádio CBN, com detalhes. De mais a mais, considere, paciente leitor: você conseguiria dormir direito sem essa "informação" dessa importância?

Não posso lembrar como terá sido a cobertura da mídia no acidente que matou Francisco Alves, o "cantor das multidões", em 1952. Mas os arquivos estão aí para mostrar que sua morte suscitou uma comoção nacional – e os jornais, as revistas e sobretudo as emissoras de rádio reproduziram esse clima à exaustão. Não é o caso de Herbert Vianna, não obstante o seu talento e o carinho que lhe dedicam fãs e amigos. De todo modo, a marcação cerrada que a mídia faz sobre sua família, parentes e amigos tem o mesmo viés invasivo e paroxísmico inaugurado em grande estilo no episódio da morte da cantora Elis Regina, em 1982, a cujo velório, pela primeira vez, as emissoras de TV dedicaram hoooras seguidas de transmissão em rede nacional. Sempre com muita "emoção", muito espetáculo e pouca informação.

Longa vida a Herbert, malgrado a imprensa.

 

Leia também

Sobre a cobertura de celebridades

Jornalismo de verão passa recibo na "indústria da fama" – Alberto Dines

A princesa não morreu, e o show continua – A. D.

A culpa é do Ronaldinho. Quem manda ser famoso? – A. D.

Radiografia
da fofoca
– Roberta Paixão

Volta
ao índice

Circo da Notícia – próximo
texto

Mande-nos seu comentário

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem