Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Valerya Borges

Por lgarcia em 27/01/2004 na edição 261

SP, 450

“Ronda de patrocínios”, copyright Meio & Mensagem, 19/01/04

“A menos de uma semana de completar 450 anos, a cidade de São Paulo, conhecida como a Terra da Garoa, se prepara para mostrar para o Brasil e para o mundo que seu cotidiano não se resume apenas à rotina das grandes empresas e dos homens de negócios. Gastronomia, cultura, entretenimento, compras e eventos, muitos eventos. É com esses atrativos que a Prefeitura da cidade pretende aumentar o número de visitantes e mostrar o que o paulistano tem. Para tanto, o investimento é alto e a mobilização também. Em meados de 2002, a Prefeitura montou o Comitê dos 450 Anos, que teve a missão de reunir os diversos setores da sociedade para que participassem ativamente dos festejos. Parece que a estratégia deu certo. Hoje, cerca de um ano e meio depois, São Paulo possui um extenso calendário de comemorações, recheado de projetos – são mais de 430. A estimativa é de que o total de investimentos nos projetos dos 450 anos seja da ordem de R$ 205 milhões.

De acordo com informações da Anhembi Turismo e Eventos, desse montante calculado, R$ 148 milhões já estão garantidos, dos quais metade é recurso da Prefeitura e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o restante vem dos bolsos de patrocinadores. Entre as que apostaram na data estão companhias como Real/ABN Amro Bank, Bradesco e Tim. O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, entrou nas festividades doando à cidade uma Fonte Multimídia, que já está instalada no lago central do Parque do Ibirapuera e tem sua inauguração prevista para a sexta-feira, dia 23, em evento que deve contar com a presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Desenvolvido em parceria com a Prefeitura de São Paulo, o projeto irá contar com investimento de R$ 6 milhões por parte do Pão de Açúcar.

A fonte foi projetada pela empresa espanhola Ghesa, especializada em desenvolvimento e responsável pela construção de fontes ornamentais em vários países, tais como China, Suécia, Estados Unidos e Portugal. Um dos recursos disponíveis será a formação de uma cortina d?água que permitirá a projeção de imagens, como filmes curtos e slides. A programação cultural da fonte ficou a cargo da agência de marketing cultural Divina Comédia. O tema será ?São Paulo, cidade de todos os povos?, uma homenagem aos imigrantes que ajudaram a construir a metrópole. ?Ao longo do ano faremos homenagens aos povos que ajudaram na formação da cidade?, diz Sérgio Ajzenberg, diretor da Divina Comédia. A agência também assina a produção do show que o músico Caetano Veloso, autor do sucesso Sampa, vai fazer na famosa esquina entre as avenidas Ipiranga e São João. O cantor deverá receber artistas paulistanos durante o evento, que vai contar com o patrocínio da Petrobras e do Banco do Brasil.

Inicialmente, a abertura do calendário oficial estava programada para acontecer com a festa de réveillon, no dia 31 de dezembro, na Avenida Paulista. Mas a adesão foi muito grande e desde o dia 14 de setembro do ano passado muitos eventos que traziam o mote dos 450 anos começaram a ser realizados. Alguns deles tiveram suas datas modificadas para que ocorressem mais próximo do dia do aniversário. Entre eles estão a Liquida São Paulo, liquidação realizada pela Associação Brasileira de Lojistas de Shopping Centers (Alshop). Normalmente realizada entre fevereiro e março, desta vez a Liquida está programada para sexta-feira, dia 23. A mudança foi feita a pedido da prefeita Marta Suplicy. Isso deixou os organizadores bastante animados. ?Estamos confiantes no êxito da promoção, que por fazer parte do calendário oficial será divulgada em todo material da Prefeitura. Com isso, temos certeza de que o fluxo de pessoas será muito maior, o que certamente irá aumentar as vendas dos lojistas?, acredita Nabil Sahyoun, presidente da Alshop. A expectativa é de que este ano a promoção seja responsável por um aumento de 10% no público dos shoppings e invremento de 5% nas vendas durante o evento.

Turismo

Quem também está confiante que as festividades resultem em um aumento nos negócios do comércio paulistano é o presidente do São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPCVB), Roberto Gheler. A entidade estima que a efemérides deve estimular a vinda de turistas à cidade, que deverá saltar de 6,5 milhões para 8 milhões em 2004. ?Isso representaria R$ 2 bilhões de receita adicional para o comércio local?, acredita Gheler. Segundo o SPCVB, a meta é atingir 15 milhões de visitantes até 2010.

Para garantir que esse aumento realmente aconteça, o SPCVB lançou o projeto Visite São Paulo em parceria com a Atlantica Hotels International, da operadora de turismo CVC, da Redecard e do grupo de comunicação especializado em turismo Panrotas. Estão previstas diversas ações de marketing e seminários de capacitação, que serão ministrados a 2,5 mil agentes de viagens de dez cidades brasileiras. Tudo com o objetivo de incluir a cidade na lista de opções dos turistas na hora de viajar. Serão criados pacotes específicos, que serão vendidos pela CVC a partir de segunda-feira, dia 26. A intenção é comercialiar 40 mil pacotes turísticos em 2004. Em 2003, foram vendidos 18 mil.

?Queremos que São Paulo seja conhecida como um destino turístico sofisticado. Temos aqui diversas opções de cultura, compras e a melhor gastronomia da América Latina, e isso deve contar no momento do turista escolher seu destino. Inicialmente, nossa intenção é que as pessoas que vêm trabalhar em São Paulo passem dois dias a mais para que possam conhecer a cidade. Isso acontece em capitais como Londres e Nova York. Acreditamos que é possível reproduzir isso aqui também?, analisa Gheler.

Dia 25

Para 25 de janeiro, a Prefeitura preparou uma parada que promete literalmente ?parar? a cidade. O evento está marcado para começar às 10 h, na Rua Estela, no bairro do Paraíso, e deve percorrer toda a extensão da Avenida 23 de Maio, terminando no Vale do Anhangabaú, com um grande show, no qual são esperadas 1 milhão de pessoas. A Parada dos 450 Anos conta com o patrocínio exclusivo da operadora de telefonia celular Vivo, que está investindo R$ 2,5 milhões no projeto. ?Queríamos estar presentes nas comemorações do aniversário de São Paulo, mas não tínhamos interesse em fazer ações pulverizadas. A intenção era embarcar um trabalho grande e a Parada pareceu a melhor oportunidade, já que é um evento popular, que deve garantir que a marca Vivo chegue a todos os setores da sociedade?, afirma Luís Avelar, vice-presidente executivo da companhia.

A Parada foi toda estruturada para mobilizar a população paulistana. Está programado um desfile com carros alegóricos das 31 subprefeituras da cidade. Cada carro apresentará três shows musicais ou folclóricos que traduzam os costumes dos habitantes de cada região. Além disso, ao longo do trajeto estarão espalhadas as chamadas Estações Vivas, 11 pontos onde os visitantes poderão encontrar serviços variados e entretenimento, entre outras atrações. Em uma das estações, a Vivo vai disponibilizar computadores e celulares para que as pessoas possam realizar, durante todo o dia, ligações gratuitas para qualquer lugar do País. No final do dia, está programado um grande show no Vale do Anhangabaú, que deverá reunir todos os participantes da Parada. ?Procuramos fazer um evento que retratasse a diversidade de São Paulo e é assim que pretendemos presentear os paulistanos?, diz Vania Ciorlia, diretora de planejamento da TV1, empresa responsável pela operacionalização da Parada.”

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“Anunciantes homenageiam a cidade com diversas campanhas publicitárias”, copyright Folha de S. Paulo, 19/01/04

“Diversos anunciantes aproveitaram o advento dos 450 anos para encomendar às suas agências campanhas inspiradas na data.

Diversos anunciantes aproveitaram o advento dos 450 anos para encomendar às suas agências campanhas inspiradas na data. De anúncios de produtos a ações institucionais, os consumidores irão se deparar com diversas ações em toda a mídia. A AlmapBBDO, por exemplo, criou uma série de quatro anúncios para a Editora Abril, com o objetivo de homenagear a cidade. A campanha, no ar desde 10 de janeiro, mostra situações cotidianas da capital paulista, sempre acompanhadas por um repórter da Abril. O texto traz a frase ?Cobrimos tudo em São Paulo para você aproveitá-la melhor?. A ação de mídia será veiculada nas três próximas edições da revista VejaSP e nos cadernos regionais da revista Exame.

Outro anunciante que resolveu não deixar a data passar em branco na mídia foi a casa de espetáculos Tom Brasil. A Draft, agência de serviços de marketing pertencente ao Grupo Lowe Partners, elaborou uma campanha, que estréia nesta terça-feira, dia 20, e tem como principal objetivo ressaltar a sintonia entre a cidade e seus moradores e destes com as opções de entretenimento disponíveis em São Paulo. Foram desenvolvidos três filmes de 15 segundos, três anúncios, além de peças para frontlights que serão colocados na Marginal do Rio Pinheiros, em pontos próximos ao Tom Brasil. A criação ficou a cargo de Marcelo Mangiacavalli, Julinho Andrade e Luis Peres, que também assina a direção de criação.

Já o Shopping Center Norte, localizado no bairro de Vila Guilherme, na zona norte da capital, decidiu homenagear a região onde se estabeleceu. Para comemorar o aniversário da cidade, a DeBrito Propaganda, agência que atende o complexo comercial, criou uma campanha de outdoors, que serão espalhados pelas ruas de 11 bairros das imediações – Cachoeirinha, Casa Verde, Freguesia do Ó, Horto Florestal, Jaçanã, Limão, Santana, Tremembé, Tucuruvi, Vila Guilherme e Vila Maria -, além de outros sete vizinhos (Belém, Brás, Tatuapé, Barra Funda, Pari, Santa Cecília e Bom Retiro). Serão 130 outdoors, que poderão ser vistos pelos moradores entre os dias 17 e 31 deste mês. As peças também trazem o logotipo comemorativo dos 20 anos do Center Norte, que serão comemorados durante todo o ano de 2004. Fred Di Rico e Miguel Mancini assinam a criação das peças, enquanto Marcus Ferraz atuou como diretor de criação.

Outra empresa que apostou na ocasião foi o Bradesco. No domingo, dia 18, entrou no ar a ação de mídia criada pela Publicis Salles Norton para o banco. A instituição financeira é patrocinadora exclusiva da exposição Retrospectiva Picasso, que será inaugurada no próximo dia 28, no Pavilhão da Oca do Parque do Ibirapuera. A campanha é formada por um filme de 30 segundos, dois anúncios de revista, outdoors, peças de mídia exterior e material para as agências que o Bradesco possui na capital paulista. Todas as peças trazem fotos de rostos ?desconstruídos? como se fizessem parte de uma tela de Picasso. A criação ficou a cargo de Sergio Franco e Luciano Santos, que assina a direção de criação com Tião Bernardi.

A nova campanha da Rede de Revendedores Chevrolet, cliente da Salles Chemistri, também se baseia no 450? aniversário da cidade de São Paulo. A ação de mídia, que será veiculada até o final de janeiro, traz o conceito ?Tudo pra São Paulo ficar legal? e apresenta aos paulistanos a promoção que as revendedoras da marca vão realizar ao longo do período e inclui descontos, vantagens exclusivas e até sorteios de carros. A campanha, que começou a ser veiculada no dia 17, é composta por dois comerciais e cinco anúncios. A criação é de Victor Hayashida e Hugo Rodrigues, que divide a direção de criação com Tião Bernardi.”

“Fora de Foco”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 26/01/04

“Ontem São Paulo comemorou 450 anos. O que foi transmitido na televisão dispensa comentários. Muitas imagens bonitas, shows, cartões postais e tudo o que a cidade tem direito. Entretanto, uma São Paulo não tão festeira foi esquecida longe do foco das câmeras.

Na estação da CPTM, Santo Amaro, um anúncio no alto-falante sobre mudanças nos intervalos dos trens, juntamente com um pedido de compreensão e um desejo de boas festas em homenagem a São Paulo, foi recebido por um usuário dessa maneira: ?Festa? Que festa? Meu filho fez aniversário e não pôde ganhar uma festa!?

Numa das baldiações, dois sujeitos me fazem companhia enquanto aguardo o próximo trem, que me levariam ao meu destino. Enquanto contam o dinheiro da venda do chocolate no trem, gentilmente, um deles me oferece um, de presente. Então, pergunta como está a festa em São Paulo, e começa contar sobre sua jornada. Naquele dia, havia perdido duas caixas de chocolate, que os fiscais tomaram ?como se eu fosse um animal?.

Com o dinheiro do chocolate, Robson paga as contas de água, luz e telefone. ?Se eu tivesse ficado ?marcando? em casa, não ia ter trinta reais agora. É o meu lucro.? Muito dinheiro? Claro que não. Mas ele vai embora feliz porque o esforço do seu trabalho vai ajudar em casa. E ainda tem bom humor para dar atenção a uma estudante de jornalismo que está com medo do escuro da estação de trem.

Confusa sobre qual plataforma aguardar o trem, um funcionário da CPTM responde com cortesia, e oferece um mapa, explicando quantas baldiações ainda restam para meu destino final. Ganhei um mapa! E eu só queria saber se devia aguardar o trem da direita ou o da esquerda.

Retornar foi mais complicado. A estação Anhangabaú estava interditada, e por isso, tive que descer na Sé. Fiquei uma hora aguardando um ônibus que estava fora de circulação, juntamente com cerca de 80 pessoas, na fila. Enquanto isso, gente vindo de toda a parte, trazendo bonés, bexigas e lenços – nada mais que simples mershandisings disfarçados em parabéns São Paulo! Todos os ônibus lotados. Ambulantes aproveitando a situação, e as pessoas se espremendo como sardinhas em lata. Em cada terminal, filas quilométricas e quase uma hora em pé, aguardando o próximo ônibus. Caos total.

Enfim, em casa. Quatro horas depois do esperado, pés dentro de um balde com água quente, enquanto escrevo. Nada poderia ser melhor, depois de tanta confusão nos terminais. Entretanto, não consigo deixar de pensar nas pessoas que foram gentis comigo, e no exemplo de trabalho árduo, acompanhado de satisfação por terem saúde para trabalhar. A cortesia e o sorriso no rosto desses cidadãos – funcionários, ambulantes e usuários dos serviços de transportes, fazem dessa São Paulo, São Paulo, a cidade que não dorme, ser também a cidade da garoa de amor.”

“São Paulo”, Editorial, copyright Folha de S. Paulo, 25/01/04

“Um efeito previsível, mas não por isso menos profícuo, das comemorações dos 450 anos de São Paulo é o de concentrar atenções e esforços interpretativos em torno da cidade, de seu passado e de suas perspectivas. Não deixa de ser um aspecto virtuoso de efemérides como essa que, além dos ritos e celebrações de cunho oficialista, venham à cena discussões e reflexões de caráter crítico. Ainda que nada de mais inovador a respeito de São Paulo possa ter sido visto nestes dias de festas e rememorações, a cidade que hoje faz aniversário dá sinais de desenvolver uma nova consciência de si própria.

Ao mesmo tempo em que sobrevive entre os paulistanos de nascimento ou adoção o justificável orgulho de fazer parte do maior centro urbano do país, parece amadurecer a percep&ccediccedil;ão de que o histórico gigantismo, indissociável do clichê triunfalista da ?locomotiva do Brasil?, se tornou uma realidade problemática.

A São Paulo que em 1920 se preparava para a revolução modernista contando com 580 mil habitantes -metade da população do Rio de Janeiro- chegou a seus atuais 10,4 milhões perfazendo uma vertiginosa trajetória de ascensão industrial. Os grandes fluxos migratórios internacionais, que tiveram início no final do século 19, ajudaram a forjar seu caráter cosmopolita e empreendedor. A força gravitacional exercida por sua pujança econômica atraiu -e tem atraído- brasileiros de todas as regiões em busca de dias melhores. Entre eles, nos anos 50, período de implantação da indústria automobilística brasileira, encontrava-se a família do pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva, o retirante que se tornou metalúrgico, líder sindical e presidente da República.

Esse vigoroso processo de desenvolvimento industrial, cujo auge ocorre na década de 1970, veio a sofrer mais recentemente modificações importantes, sob o impacto de uma forte reorientação econômica.

Se a cidade não perdeu a relevância na geração de riquezas, sua importância relativa declinou. São Paulo permanece como o principal centro da indústria e das finanças do país, com uma economia três vezes maior do que a do Uruguai. Todavia, dos 20% do PIB brasileiro que antes produzia, passou a gerar 15% -sendo obrigada a conviver com níveis inéditos de desemprego e crescente deterioração de suas condições urbanas.

A mudança do padrão industrial clássico, com expressiva utilização de mão-de-obra, para um modelo econômico mais diversificado, baseado em empresas intensivas em capital e tecnologia, eliminou progressivamente postos de trabalho. Entre 1985 e 2002, os empregos criados pelo setor de serviços aumentaram 22,7%, enquanto os industriais caíram 48%. A cidade que terminava a década de 1980 com uma taxa de desemprego de 6,5% atravessou os umbrais do século 21 com índices próximos a 20%.

Foram anos de recrudescimento da criminalidade, da favelização e da indigência. Anos em que o país passou a crescer a taxas menos significativas e o mito da cidade das oportunidades começou a ser posto em xeque.

São Paulo, no entanto, parece trazer o dinamismo em suas artérias. As transformações em sua estrutura produtiva, com todos os danos colaterais conhecidos, não a impediram de continuar desempenhando o papel de pólo de referência nacional -quando não internacional- na indústria sobrevivente e em ramos que passaram a ganhar mais relevo com seu novo perfil econômico. A cidade hospeda as maiores empresas brasileiras de informática, e ninguém desconhece sua competência em atividades como publicidade, design, moda, culinária e cultura.

Uma nova metrópole vai, portanto, se insinuando entre as frestas do velho modelo. Uma São Paulo que chega aos 450 anos com a consciência do ocaso de uma era da qual foi protagonista, mas que sabe possuir as energias vitais e criativas para relançar, com renovado vigor, as bases para um futuro melhor.”

 

"A festa dos 450 anos, nas grandes redes", copyright O Estado de S. Paulo, 27/1/2004

"Sexta-feira à tarde, com a chuva e as mudanças de trânsito por causa da reinauguração da fonte do Ibirapuera, o trânsito virou um caos na região. Os problemas continuaram no sábado e no domingo, em outras áreas da cidade, por conta das comemorações dos 450 anos de São Paulo. Acostumado a sofrer no trânsito, o paulistano não reclamou – afinal, tudo era em nome da festa e não é sempre que uma grande cidade, mesmo que seja São Paulo, festeja uma data redonda desse calibre. Quatro séculos e meio! Durante todo o fim de semana, as redes de TV capricharam na cobertura. Deu para acompanhar tudo sem sair de casa.

A Globo, que iniciou janeiro com a minissérie Um só Coração – que será um dos grandes destaques da televisão em 2004, com certeza -, fez, na sexta, um Globo Repórter Especial em que expôs, sem proselitismo político, as contradições da metrópole. A emissora construiu seu especial em torno de lavadores de vidraças dos grandes edifícios da Berrini, onde hoje se concentram os grandes prédios de quem possui o poder e o dinheiro em São Paulo. A câmera acompanhou essas pessoas em casa e o que se viu foi o retrato do Brasil – contrastes de riqueza e pobreza, porque o País, se tivesse de ser definido por uma só palavra, apenas, seria (ainda) ?desigualdade?.

No sábado à noite, Globo e SBT fizeram transmissões simultâneas dos grandes shows de Roberto Carlos no Ibirapuera e de Caetano Veloso na esquina famosa – Ipiranga com São João – que o cantor e compositor baiano celebrizou em Sampa. Roberto foi burocrático, perdido naquela São Paulo de papelão que a Globo armou para ele. Caetano cantou para 35 mil pessoas, que se comprimiram naquela esquina e foram mantidos a distância para que uma centena (ou pouco mais) de bacanas pudesse assistir sentada, e com direito a comes e bebes, ao seu show. A desigualdade continuou e o mais belo do espetáculo de Caetano nem foi a apresentação em si, mas o que o povo simples do centro viu à tarde, quando o próprio Caetano fez a passagem de som, para testar o equipamento.

Talvez de toda a grandiosidade da festa, o mais belo tenha sido uma homenagem que passou despercebida até para as pessoas que viram Caetano passar o som. Por conta da interdição do trânsito, um menino de 3, 4 anos passeava com sua moto de brinquedo entre o público que assistia ao ensaio.

Dentro de 50 anos, quando São Paulo comemorar seu quinto centenário, esse garoto terá 50 e poucos anos. Tem toda chance de estar vivo para assistir à outra festa. Será que vai se lembrar do privilégio – quem mais você conhece que passeou de moto de brinquedo, com duas rodinhas protetoras atrás, na esquina mais famosa da cidade?

Alguma coisa acontece no coração da gente quando passa ali. Alguma coisa se passou no Domingão do Faustão, na tarde do Dia D da festa. O apresentador reuniu um monte de celebridades para contar, por meio das histórias de Nair Bello, Elizabeth Savalla, Kayky Brito e sua irmã, um pouco da história de São Paulo. A TV é uma máquina poderosa. Cria e destrói sonhos. Faustão tem todos os defeitos desses programas de domingo à tarde, que são apelativos e muitas vezes vulgares. Mas, do joio, é possível separar o trigo. Antes que cada entrevistado dissesse o que pensa de São Paulo, a produção mostrou um filminho sobre a origem dessas pessoas – quem são, de onde vieram. A filha de Nair Belo, as professoras de Stephany Brito. Uma São Paulo da periferia começou a se desenhar. O ponto alto foi com a top Giane Albertone, que veio de um meio operário, de um jardim que não é o Paulista. Giane hoje tem cacife para assistir ao show de Caetano entre os bacanas. Veio de baixo e não se envergonha disso. Mas o Brasil precisa encarar o problema da desigualdade para que a periferia de São Paulo chegue com estilo à festa dos 500 anos."

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