Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

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Valor Econômico

Por lgarcia em 19/12/2001 na edição 152

BENEDITO RUY BARBOSA

"Entrevista com Benedito Ruy Barbosa" copyright Valor Econônico, 13/12/01

"A tão esperada segunda fase de ?Terra Nostra?, novela hit de Benedito Ruy Barbosa de 1999, não vai mais ocorrer. Depois de ?O Clone?, exibida atualmente às 20h30, a Rede Globo vai colocar no ar ?Uê, Paisano?, do mesmo autor, mas com uma história diferente da original. A continuação da novela ficou inviável, sobretudo por uma inadequação da idade dos descendentes dos personagens de ?Terra Nostra? e pelo período histórico da trama: o ?pós-crash? de 1929.

Nesse novo cenário, os filhos de Matteo (Thiago Lacerda) e Giuliana (Ana Paula Arósio), programados para ganhar vida na segunda fase pelos mesmos atores, perderam lugar na história. Mas embora o elenco não esteja escalado, discute-se nos bastidores da emissora que ainda é possível promover um reencontro de ambos na nova trama. O autor prefere o silêncio. ?Escrevo a história e depois vou buscar os atores que caibam nos personagens. A escalação é 50% do sucesso da novela?, diz Barbosa ao Valor.

?O amor é o que amarra tudo numa novela; se não houver uma grande história de amor, ninguém se apega a nada?

A única certeza, por enquanto, é a direção de Luiz Fernando Carvalho (?Lavoura Arcaica?), fiel companheiro do autor. ?Gosto de trabalhar com Luiz Fernando porque ele tem uma leitura espetacular do meu texto?, elogia Barbosa. Ele adianta também que um dos protagonistas será interpretado por um ator italiano nato, ainda em fase de seleção. Ele viverá Toni, um imigrante que se apaixona por uma judia. A maior dificuldade da escalação é que ele terá de aprender a falar português até maio, quando a novela estréia no Brasil.

Mas apesar de não ser uma ?parte 2?, ?Uê, Paisano? (E aí, companheiro, em italiano) vai ter pontos de intersecção com ?Terra Nostra?. Nos primeiros capítulos, Gumercindo (Antonio Fagundes) e Francesco (Raul Cortez) reaparecem bem velhos e morrem logo depois da quebradeira da bolsa de 1929, quando perdem todos os seus bens.

A partir desse episódio, Barbosa vai abordar um ponto de mudança no país: o processo de industrialização que se inicia com a tomada do poder por Getúlio Vargas, a Revolução de 1932, os dilemas trabalhistas dos operários e a criação da CLT, tema tão discutido nas últimas semanas. E, mais uma vez, fala de uma nova fase da imigração, com italianos, portugueses, espanhóis, judeus e até japoneses. Todos estarão no meio dos 25 personagens centrais de ?Uê, Paisano?.

O interesse por uma nova trama de Benedito Ruy Barbosa é fruto da excelente carreira que ?Terra Nostra? teve aqui – e ainda está fazendo no exterior. A história de imigração no início do século XX alcançou picos de 58 pontos de audiência no Brasil, foi comercializada para mais de 40 países e retransmitida para outros 20. ?Não tem um lugar em que a novela tenha ficado em segundo lugar. O sucesso que fez nos Estados Unidos é extraordinário?, comemora. Prova disso é que antes mesmo de a sinopse ser escrita, 12 países já haviam adquirido os direitos de exibição da obra com a aura de ?Terra Nostra?.

O processo de industrialização, o governo de Vargas, a Revolução de 32 e a criação da CLT serão o pano de fundo da trama

Aos 70 anos, Barbosa é um dos autores de maior prestígio na Globo. Depois da ótima repercussão de ?Pantanal? na extinta Rede Manchete, ele voltou para a Globo e obteve raros êxitos com ?Renascer? e ?O Rei do Gado?. A idéia de dividir ?Terra Nosta? em duas ocorreu porque ele ainda é adepto da carpintaria teledramatúrgica e dispensa colaboradores. Escreve sozinho 200 capítulos de suas novelas. Leia a seguir trechos da entrevista.

Valor: Por que ?Uê, Paisano? não será ?Terra Nostra 2??

Benedito Ruy Barbosa: Fiz um levantamento dos personagens de ?Terra Nostra? e dos filhos que nasceriam nessa fase. Percebi que com o salto que iria dar no tempo para continuar a história criaria um problema de idade dos personagens. As crianças da primeira fase e que continuariam na segunda já estariam por volta dos 35 anos. Saquei também que você não pode reabrir conflitos que já se fecharam na novela anterior. Isso poderia causar decepção para o público.

Valor: O sr. não abriu mão do tempo histórico que queria abordar para continuar a novela?

Barbosa: Inicialmente seria 1945, depois da Segunda Guerra. Mas mudei toda a estratégia porque foi feita a minissérie ?Aquarela do Brasil? na Rede Globo em que o pano de fundo político e a cenografia eram os mesmos. Isso esfriou minha proposta. Decidi, portanto, começar a história com leves pontos de contato com o que aconteceu em ?Terra Nostra? e iniciar no período pós-?crash? da Bolsa de Nova York, em 1929. Esse fato quebrou os Estados Unidos e se espalhou pelo mundo como maremoto. Parto de um fato histórico e da repercussão que isso teve no Brasil. Em 1930 e 31, por exemplo, o Getúlio Vargas já havia tomado o poder e queimou 30 milhões de sacas de café. A partir disso, falo dos barões do café e dos bancos que quebraram, o que resultou numa mudança da cafeicultura. Muitos italianos compraram as terras dos barões para os quais eles haviam trabalhado.

Valor: Como vai ocorrer esse ponto de contato entre as novelas?

Barbosa: A fazenda que era do Gumercindo em ?Terra Nostra? passa para a mão dos italianos. Ele é obrigado a abrir mão da fazenda porque não tem mais recursos. Vou ter no início da novela o Fagundes e o Raul Cortez bem velhinhos para fazer essa transição. Todo o drama da quebradeira geral jogo nas costas dos dois. Eles começam e morrem em seguida. Mas, antes, sofrem na carne tudo o que ocorre na economia do mundo.

Valor: O sr. vai continuar a trabalhar no universo rural ou vai fazer uma ponte com o urbano?

Barbosa: Tenho os dois núcleos, que vou tratar com igual força. Normalmente privilegio o rural por uma questão pessoal. Mas nessa novela abordo uma indústria nascente, que com o Getúlio ganha força especial, além de mostrar uma mudança de comportamento na zona rural. Isso ocorre depois da crise de 30 e 31, que promove o êxodo.

Valor: O sr. sempre trabalha com alguns eixos de produção econômica, como o café e o gado. Em ?Uê, Paisano?, quais setores abordará?

Barbosa: Na metade da novela posso promover um esforço para falar desse ou daquele setor da economia. Toda a política do café muda depois da crise de 30. Em 1929, o Brasil teve a maior safra de café da história, mas as pessoas mais lúcidas eram contra essa monocultura e apontavam a necessidade de diversificar a produção. Não adiantou. E com o ?crash?, o país desmoronou. A partir desse episódio, houve uma mudança de critério e incremento da indústria. Por isso, falarei da indústria têxtil. Será a história de um italiano que começa uma fundição no país. Concentro nele o exemplo de imigrantes que vieram para dinamizar a indústria. Essa imigração já não é a da Itália do início do século. Eram imigrantes mais qualificados.

Valor: O próximo ano será de eleições e a Rede Globo interrompeu a produção de uma novela de Maria Adelaide Amaral porque falaria, entre outros temas, de políticos corruptos. O sr., que sempre trata de questões políticas, tem orientação para não abordar o assunto?

Barbosa: Estou à vontade para escrever. Na semana passada houve uma reunião aqui em casa e a direção ficou impressionada com a história. Não recebi nenhuma recomendação, até porque seria desagradável. Eu trato de um momento político sério, porque enquanto acontecia a quebradeira nos Estados Unidos no Brasil se discutia o sexo dos anjos. Demorou mais de um mês para a compreensão do que estava ocorrendo. Falo da tomada do governo pelo Getúlio em 1930, do início do Estado Novo e da criação da CLT. Vou mostrar as conseqüências disso na indústria têxtil e por que Getúlio virou o pai dos pobres. Terá também na história uma líder operária, que defende os direitos que eles deveriam ter e não têm.

Valor: Qual é a sua leitura sobre o papel de Getúlio Vargas?

Barbosa: Sei que é um aspecto muito discutido. Mas sou testemunha ocular da história. Na época era jornalista. Para mim, ele foi um dos políticos mais importantes que este país já teve com uma visão futurista. Era tremendamente nacionalista e com visão do social. Se pegar o panorama das fábricas antes da CLT, o operário não tinha direito algum. Fora isso, ele foi hábil na jogada política que fez antes de o Brasil entrar na guerra. Li que quando o Roosevelt (Franklin D. Roosevelt, presidente dos Estados Unidos) apelou para o país mandar soldados para o front, ele teria dito: ?Presidente, um canhão se faz num dia, um homem demora 18 anos.?

Valor: E a história de amor?

Barbosa: O amor é o que amarra tudo numa novela. Se não houver uma grande história de amor, ninguém se apega a nada. Nessa novela, terão muitas. Há uma história de amor muito bonita do italiano que monta a fundição no Brasil por uma judia. É um casamento que vai colocar em discussão a questão da religião. O pai judeu exige que o jovem se converta para casar.

Valor: O sr. não tem medo de uma associação com ?O Clone??

Barbosa: Isso não vai acontecer. Os universos são muito diferentes. Na minha novela tem um aspecto filosófico. Deus tem muitos nomes, mas ele é um só. Pode chamar Alá, Adonai, o que for. Mas é um Deus, o criador. O dilema está em cima dessa filosofia. Vai haver outras histórias de amor, mas não posso adiantar porque entrego a rapadura.

Valor: O sr. representou o Brasil em um congresso de teledramaturgia em Berlim, falando de reforma agrária. Qual foi a repercussão?

Barbosa: Fiz uma palestra sobre reforma agrária no Brasil partindo da novela. Eu levei 45 minutos de cena do ?Rei do Gado? só com participação dos sem-terra. As pessoas que participaram do congresso achavam que era cinema. Mas a discussão começou pelo estético e depois muitos ficaram espantados com o problema agrário do país. Tenho comigo que esse país só sai do buraco se tiver uma política agrícola descente. Defendo isso com unhas e dentes. Quando se fala em 6 bilhões de toneladas/grão, isso é uma brincadeira. Um país com a dimensão do nosso, com o clima do nosso e com a nossa terra! Não temos uma atenção voltada para o campo, protegendo o agricultor, como o mundo todo faz. Aqui, todos os riscos são dele."

MILLÔR FERNANDES

"Millôr, do princípio ao fim" copyright Valor Econômico, 14/12/01

"Depois de mais de seis décadas atuando como desenhista, humorista, jornalista, escritor, pensador, dramaturgo e tradutor, fica difícil enquadrá-lo. Aos 77 anos, o multimídia e polivalente Millôr Fernandes continua com uma verve agudíssima e tem uma forma física invejável. Não perdeu o vício de fazer esportes na praia nem de criticar, às vezes com veemência, aquilo que considera errado – como alguns mandos e desmandos do presidente Fernando Henrique ou o ataque maciço dos Estados Unidos ao Afeganistão.

Tantas traduções, peças e livros depois (a lista de suas obras é imensa), Millôr agora se lança em uma corajosa aventura: escreve suas memórias, não exatamente nos moldes tradicionais, o que seria quase impossível a um autor como ele. ?Nem sei o que é isso. Agora, sério, claro que é. Quando eu digo, só pra citar frase conhecida ?Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem?, você acha que isso é piada de rádio? Quando faço rir dizendo e retratando os dias de hoje, de flagrante miscigenação, pelo menos no mundo artístico: ?À noite todos os pardos são gatos?, estou sendo mais engraçado ou mais sociólogo? O FhC (superlativo de Ph.D.) é capaz de dizer algo assim??, pergunta. E avisa: ?Não vai ser biografia coisa nenhuma. Impressões, se tanto.? Não faltará o que contar nem tampouco talento para fazê-lo.

Millôr, que falou ao Valor no ateliê onde trabalha há 40 anos (?Trabalho aqui todos os dias, de segunda a segunda, não sei ficar sem trabalhar?), em Ipanema, no Rio de Janeiro, próximo ao apartamento em que mora há meio século, na mesma praia. Decorado predominantemente em vermelho (?sempre foi minha cor preferida?), o ateliê mescla equipamentos ?high-tech?, como dois microcomputadores e uma televisão de muitas polegadas, a milhares de exemplares de inúmeras revistas e jornais amarelecidos e outros incontáveis livros em vários idiomas e mais de 300 dicionários e obras de referência. Além disso, claro, uma enorme e alta mesa repleta de todos os tipos de lápis e materiais de desenho. ?Não há a menor possibilidade de morar fora do Rio. Só pensei em sair daqui na época dos governos militares. Depois, nunca?, declara o carioca do Meyer, hoje morador da Zona Sul.

Suas frases irônicas e cortantes se contrapõem ao falar manso, com o qual atende aos telefonemas (depois de a secretária eletrônica dizer-lhe quem fala), chamando seus interlocutores sempre de ?amigo? ou ?amiga?. E o telefone de Millôr não pára. São muitos amigos e programas: ?Saio praticamente todas as noites. Hoje (segunda-feira), por exemplo, vou ao lançamento do disco de Dorival Caymmi, grande e velho amigo.?

Hábil na letra e no traço, Millôr afirma nunca ter sofrido por falta de criatividade, em nenhum momento de sua carreira. Perdeu muito cedo seus pais e, por isso, enfrentou grandes dificuldades no início da vida. Ambos morreram com a mesma idade, 36 anos, mas com uma década de intervalo entre eles. Quando o pai (d. Paquito, um engenheiro espanhol) morreu, Millôr não tinha ainda completado 1 ano. A mãe costurava para sustentar os filhos. Quando a perdeu, Millôr tinha 10 anos. Terceiro filho de quatro irmãos, viu sua família desfazer-se, cada um indo para um lado.

?Havia dias em que eu não tinha o que comer. Trabalhava o dia inteiro, só comia quando chegava em casa e a avó avisava: ?Milton, tem uma sardinha no forno.? Eu ia lá e comia o que ela tinha preparado e era o que eu comia o dia todo. Mas esse período não durou muito. Logo eu comecei a ganhar algum dinheiro e fui morar numa pensão, onde eram servidas todas as refeições e onde havia uma vida comunitária muito boa?, conta. O nome original de Millôr seria Milton, se o escrivão que o registrou não tivesse a letra tremida. Mas só depois dos 18 anos é que começaram a chamar-lhe do nome com que ficaria famoso. Deve versar sobre a época anterior a essa o trecho exclusivo e inédito que Millôr antecipou ao Valor:

?Houve um tempo em que havia um andar de cima e um porão. Houve um tempo em que o som de um amolador entorpecia a tarde. Havia uma moringa na janela, refrescando a água. Sempre, a qualquer momento, alguém ainda dormia, nas desencontradas horas da família. Na tarde estorricante do verão uma cachorra chamada Teteca levantava a cabeça de vez em quando, num piso de cimento embaixo da mangueira, na única sombra do quintal ensolarado e dava para o alto três latidos lancinantes de protesto. Acho que para Deus. Acho que havia Deus.?

Escritor afirma que não participaria de jeito nenhum de uma reedição de ?O Pasquim?, porque não pensa jamais no passado

Em março de 1938, com 14 anos, começou a trabalhar na redação de ?O Cruzeiro?, que na época se resumia a uma pequena sala de cerca de poucos metros quadrados, em que ficavam ele, o diretor e um desenhista, apenas. Millôr explica que, no início, a revista ?era vagabunda e nunca vendia mais do que 10 mil exemplares, enquanto a maior revista da época, que se chamava ?Revista da Semana?, vendia 25 mil exemplares.? Ele era contínuo, cortador de papel e o que mais precisasse.

Ali trabalhou durante 25 anos. A revista foi sua grande escola. Interrompeu os estudos por quatro anos e voltou às salas de aula à noite, depois trabalhar muitas horas. Millôr é dono, por isso mesmo, de uma ampla sabedoria pragmática, de quem aprendeu fazendo, verdadeiro autodidata.

Um belo dia, ainda menino, cobrou da revista que o registrasse no dia em que efetivamente tinha começado a trabalhar, o que a empresa não havia feito. E teve seu pedido atendido. ?Foi uma fase bem difícil, mas durou pouco tempo. Logo depois, passei a ganhar mais ou menos três vezes o que recebia. Com 20 anos, já tinha um excelente salário?, relata o ?self-made man?.

O primeiro aluguel que pagou foi o de um apartamento, dividido com o grande amigo Freddy Chateaubriand, sobrinho de Assis Chateaubriand que anos depois viria a comandar grandes mudanças em ?O Cruzeiro?, que a levariam a vender até 750 mil exemplares. Gastava, com o aluguel, menos de 10% do que ganhava na redação. Custeava também um apartamento de três quartos para as duas irmãs e tinha um automóvel numa época em que os carros eram todos importados.

Só sairia de ?O Cruzeiro? em 1963, em meio a um imbróglio com a direção da revista, que publicou um grande editorial contra ele, depois de editar ?Esta É a Verdadeira História do Paraíso?, 12 páginas de sua autoria, em cores. ?Me senti um navio abandonando os ratos. E foi essa frase que eu falei num enorme jantar de apoio a mim realizado por colegas de todas as redações importantes do país?, conta Milôr. ?Movi uma ação trabalhista contra eles, ganhei 50 meses de indenização, mas acabei recebendo, anos e anos depois, só uma pequena parte desse total?, lembra.

Já havia escrito e publicado livros e peças, traduzido textos de importantes autores como Irwin Shaw e Peter Weiss. Aprendeu inglês procurando palavra por palavra no dicionário, para traduzir legendas para ?O Cruzeiro?. Mais uma vez o autodidatismo. Viria depois a traduzir Shakespeare, Molière, Aristófanes, Sófocles, Brecht, Fassbinder, Somerset Maugham, Tchekhov, Arthur Miller, Pirandello.

Em 1964, ano em que aconteceria o golpe militar, ele resolveu fazer, sozinho, o jornal alternativo (primeiro da imprensa brasileira) ?Pif-Paf?, nome da coluna que assinava em ?O Cruzeiro?. Publicou oito números antes de o periódico ser fechado pelos militares. Chegou a ir várias vezes nos três períodos do dia ao centro da cidade. Pagou as edições com seu dinheiro.

?Quando o ?Pif-Paf? foi fechado pela polícia, eu não tinha nenhum emprego, nem dinheiro. Mas um belo dia recebi uma carta de um jornal português que, meses antes, havia feito uma proposta de trabalho para mim. O ?Diário Popular?, nome do jornal, vendia 180 mil exemplares, era um tablóide. Eu tinha recusado a proposta deles e pedido três vezes mais do que me ofereciam. Eles não responderam, achei que não tinham concordado. Mas aconteceu o contrário. Comecei a trabalhar para eles e fiquei dez anos publicando no jornal.?

Mais um golpe de sorte. Passou a receber periodicamente cheques de US$ 2 mil, que o salvaram dos problemas financeiros. ?Só parei quando houve a Revolução dos Cravos, em 1974, e fecharam o jornal.? Mas foi nesse período que outro fato importante aconteceu, dessa vez na vida pessoal de Millôr. Aos 24 anos, ele se casou com a mesma mulher com quem vive até hoje e com quem teve dois filhos. Ele já é avô e tem fotos do ainda único neto espalhadas pelo ateliê.

Hoje também, para manter a forma, Millôr (quem diria?) tem uma ?personal trainer? duas vezes por semana. Ela o ajuda a ter disciplina quanto aos exercícios físicos. ?Acho que o corpo é sagrado. Temos que cuidar muito bem dele. Enxergar, por exemplo, é um milagre. Você põe uma comida na boca e quantos gostos pode perceber? Os cheiros que sentimos, nossa memória… É fantástico! E nós ficamos autônomos, perdemos a noção de algumas maravilhas?, fala. ?Se minha vida não fosse o que foi, eu teria sido atleta, minha vocação era essa. Mas, quando eu podia fazer alguma coisa, era tarde. Hoje, se eu não fizer exercícios, me sinto mal.?

Mesmo pertencendo a uma geração de contestadores do sistema, da ditadura, da ordem do mundo, nunca teve atração por drogas. ?Não é da minha natureza.? Diz que na geração dele muita gente fumou maconha, ?quase de brincadeira?. Outros cheiravam cocaína, mas depois ?descheiravam?, sem nenhum problema. ?É como eu tomar dois uísques num dia, mas no outro não bebo nada. Isso não é vício. Quem fuma um ou dois cigarros por dia não é viciado.?

Foi essa mesma geração, à qual pertencem, entre outros, Ziraldo, Henfil, Paulo Francis e Jaguar, que lançou, em 26 de junho de 1969, o tablóide ?O Pasquim?, emblemático de uma época e que se tornaria mesmo um símbolo da chamada imprensa alternativa ou nanica. Ele afirma categoricamente que não participaria de jeito nenhum de uma reedição de ?O Pasquim?, porque não pensa jamais no passado e hoje a época é outra.

No ano em que seria decretado o Ato Institucional número 5 (o AI-5, que instalou a ditadura dentro da ditadura), Millôr estreava na ?Veja? com um texto hilariante e crítico – duas das marcas registradas de seus escritos – chamado ?Autobiografia de Mim Mesmo à Maneira de Mim Próprio?. Escreveu: ?Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e ele me venceu com um sórdido milagre. A segunda com o destino, e ele me bateu, deixando-me só com meu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, vindo parar aqui.?

Isso foi em 1968. Mais de 30 anos depois, o autor ouve, do vizinho que encontra no elevador, que vem escrevendo ?difícil? ultimamente. Rechaça, critica os que escrevem ?fácil?. E pergunta ao vizinho se ele já havia pensado que o inventor do alfabeto era um analfabeto, deixando o homem a refletir. E afiando a língua. Quase do mesmo modo que quando diz não ter votado em Lula e que ?FhC é um bestalhão, mas de outro nível.?"

NOVO JT

"Jornal da Tarde, de cara nova, lança campanha" copyright Valor Econômico, 13/12/01

"Estréia nesta quinta o segundo filme da campanha criada pela Talent para divulgar a reformulação por que passou o Jornal da Tarde, do Grupo Estado. O JT sofreu mudanças no logotipo e no layout de seus cadernos.

O novo comercial, intitulado ?Panda?, mostra ao consumidor um jornal comprometido com a informação, um veículo que produz jornalismo a qualquer custo. Ou ?o jornal que lê São Paulo para você?, como diz a assinatura.

Em uma das cenas, um repórter aparece disfarçado de panda para dar um flagrante em dois políticos corruptos, em outra, entrevista um juiz de futebol no meio de uma torcida indignada para descobrir se o lance que favoreceu o time adversário foi pênalti ou não.

O filme, de 30 segundos, será veiculado pela Globo, SBT, Record, TV Cultura, Rede TV! e Band. A criação é de Ricardo Ribeiro e Ricardo John, com direção de criação de João Livi e Ana Carmen Longobardi."

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