Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > TRANSMISSÃO BUROCRATIZADA

Vamos meter o pau no Parreira

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

TRANSMISSÃO BUROCRATIZADA

José Carlos Aragão (*)

Não gostaria de ficar rebatendo a batida tecla de que o jornalismo esportivo na televisão está cada dia pior, mas as transmissões de futebol e outros esportes não me deixam calar. Pode ser que eu esteja ficando velho ou me transformando inapelavelmente num daqueles saudosistas chatos que acham que antigamente tudo era mais bonito, mais honesto, mais organizado, ou melhor que a nanotecnologia, a fibra ótica, a internet, ou qualquer maravilha da ciência moderna.

Vamos aos fatos.

Imagine que você está diante de um televisor ligado para ver seu time (que chamaremos de Time A) enfrentar um outro time qualquer (que chamaremos de Time B), pela 38? rodada do Campeonato Tal. Já no início da transmissão, os repórteres de campo dão as escalações do Time A e do Time B, suas posições na tabela (classificação, número de partidas disputadas, número de vitórias, empates e derrotas, gols marcados e sofridos, saldo de gols) e, às vezes, destacam a volta de um ou outro jogador que se recuperava de uma contusão ou que foi barrado pelo treinador. Em seguida, vem a escalação de juiz e bandeirinhas ? ou árbitro e assistentes, como preferem os burocratas da Fifa ou seja lá quem foi que inventou essa bobagem de renominar o trio.

Até aí, a coisa vai bem. As informações iniciais sobre a partida e os contendores são como um lide de uma matéria jornalística: esclarecem o indispensável para que o espectador saiba o que está acontecendo.

Lá pelos cinco minutos, na primeira intervenção dos repórteres de campo, você começa a ser bombardeado por informações do tipo: "O Time A vem de uma invencibilidade de três rodadas consecutivas sem perder jogando fora de casa". Ou: "Nas últimas seis partidas disputadas em seu estádio, o Time B sempre marcou nos últimos 15 minutos do primeiro tempo." Ou ainda: "O jogador Fulano de Tal, do Time A, é o que mais atuou pelo seu time nesse campeonato, mas, curiosamente, é o que menos fez gol ? apenas dois, em 37 partidas, o que dá uma média de 0,05 gols por jogo." A partir daí, já desandou o cozido.

Futebologia x futebolmetria

Se, por um lado (e aí eu não sou nem um pouquinho saudosista), os repórteres de antanho pecavam por repetir o óbvio ? descrevendo os "detalhes" do lance que a gente tinha acabado de ver em detalhes ?, os de hoje resolveram nos encher de estatísticas estapafúrdias que pouco ou nada acrescentam à cobertura jornalística.

De que interessa saber se o Time A, jogando com seu uniforme número 2, nunca perdeu para times que têm a letra R no nome; ou se o treinador do Time B nunca venceu uma final contra times que têm listra diagonal em seu uniforme? O que isso tem a ver com estratégia, variações táticas no decorrer da partida, habilidades individuais do craque ou todas essas imponderabilidades que fazem do futebol aquela velha e fascinante "caixinha de surpresas"?

Sinto que estão tentando transformar uma ciência inexata e apaixonada como a "futebologia" em algo frio, matemático e calculável ? uma espécie de "futebolmetria". Será isso alguma migração da telemetria da Fórmula 1 para as nossas transmissões de futebol? Ou isso é mesmo o que andam ensinando aos jovens repórteres em nossas escolas de jornalismo?

Seis por meia dúzia

Há quanto tempo não se ouve um narrador, comentarista ou repórter falar ? bem ou mal, contra ou a favor ? de overlaping, cavadinha, nó tático, quadrado mágico, carrossel, ponto futuro?

Nem falar mal do Parreira se fala mais! O máximo que se diz é que, como técnico da Seleção Brasileira, ele fez tantos jogos, ganhou tantos, empatou tantos e só perdeu tantos, o que lhe dá um índice de x% de aproveitamento. Ninguém parece mais se lembrar que ele é o responsável pela conquista mais vergonhosa do nosso futebol: a primeira e única Copa do Mundo decidida nos pênaltis!

Ninguém lembra que, naquela copa, o Ronaldo estava no auge de sua forma física e técnica, mas ele preferiu escalar o Viola na partida final, porque o Fenômeno era muito jovem (mal comparando, que idade tinha mesmo o Pelé em sua primeira Copa do Mundo?). Ninguém fala que o Parreira é medroso e previsível (justiça seja feita: o Casagrande falou isso no último jogo) e só mexe aos 15 minutos do segundo tempo ou, no desespero, depois que o adversário vira o jogo ? e, quando mexe, é só pra trocar seis por meia dúzia: um volante por outro, um beque por outro etc.

Perda de identidade

Voltando à profusão de abundantes e irritantes estatísticas das transmissões esportivas na TV (pretexto de que fiz uso pra também desancar o Parreira e desopilar meu fígado), acredito que ela é uma triste cópia das transmissões americanas do basquete da NBA. Aliás, não é a única coisa que nossas TVs têm macaqueado das americanas: também já começam a incomodar os excessos de gráficos, replays, merchandisings virtuais, animações de caracteres e outras perfumarias durante as transmissões esportivas.

Privilegiando essa informação matematizada e a estética globalizada (e global, no caso), estamos perdendo nossa originalidade e diversidade em transmissões esportivas. Perdemos também um pouco da nossa identidade cultural, ao sepultar soluções pioneiras, inusitadas, simples, divertidas, informais, eficazes, como as que nos deram locutores e comentaristas de TV e de rádio como João Saldanha, Ruy Porto, Mário Vianna, Geraldo José de Almeida, Waldyr Amaral, Osmar Santos, Sílvio Luiz e até o centenário Ary Barroso.

Em todo caso, a descaracterização de nossa identidade cultural só parece não ser maior que a perda do senso crítico e da capacidade de avaliação de nossos jornalistas esportivos de televisão. Na falta do que falar, repetem todos que o Luxemburgo agora é recordista de conquistas de campeonatos brasileiros; ou que o Zinho superou o Andrade e agora é o jogador que mais títulos brasileiros conquistou em todos os tempos; ou que Zinho também é recordista de jogos pelo Campeonato Brasileiro (337 partidas), superando o ex-lateral Wladimir, do Corinthians (330) ? e por aí vai.

Em resumo, parece que ficou fácil fazer jornalismo esportivo. E muito chato também.

(*) Jornalista, escritor e campeão brasileiro, de Belo Horizonte

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