Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > As estrepolias de Jorge Murad com pleno conhecimento do sogro, cunhados e consorte só começam a aparecer porque a mídia até a semana passada estava completamente omissa.

Vazamentos, grampos & fitas: um caso de moralismo seletivo

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

CASO SARNEY-MURAD

Alberto Dines

Cometeu uma infração quem passou aos semanários
as informações sobre as diligências da Polícia
Federal em curso na sede da empresa de Roseana Sarney, sexta-feira
(1/3). Mesmo que o vazamento tenha antecipado em apenas 48 horas
os resultados da diligência. Um princípio foi transgredido
e os responsáveis devem ser apontados.

Este Observatório é
um dos poucos com autoridade moral para veicular a acusação,
respaldado nos quase seis anos de contínuos e veementes protestos
contra a pragas do "jornalismo fiteiro", contra o vício
da arapongagem jornalística e o abominável pool
denuncista que tanto desmoralizaram nossa mídia e escancararam
sua fragilidade.

Carecem de autoridade aqueles que, a serviço dos clãs
Sarney-ACM, tentam esconder o escândalo e enfiá-lo
debaixo da questão do vazamento de informações
sigilosas. Com o opinionista Elio Gaspari à frente (conforme
seu artigo de 6/3).

O ex-senador ACM com sua equipe de assessores pagos pelo erário
foi um dos maiores fornecedores de dossiês, grampos e fitas
dos últimos anos em benefício de seus interesses políticos,
pessoais e econômicos. E o grupo de jornalistas com o qual
o caudilho baiano tem um "pacto de sangue" fez o trabalho
de retaguarda e de apoio psicológico ? legitimar a pilantragem
conferindo-lhe o galardão de "reportagem investigativa".

Agora essa mesma tropa de choque está procurando esquecer
a enormidade do escândalo Sarney inventando que a ação
da Polícia Federal originou-se num dossiê fabricado
pelo candidato do PSDB e que o diretor da Polícia Federal,
sendo filiado ao partido, agiu politicamente.

Puro engodo, guerrilha de desinformação: a Polícia
Federal num caso desses só pode agir por ordem da Justiça
e esta precisa ser acionada pelo Ministério Público,
que não pode ser impulsionado por dossiês mas por processos
formais decorrentes de investigações legais. O MP
foi incensado por esta camarilha quando lhe convinha. Agora, como
não pode combatê-lo, procura obliterar a sua ação
moralizadora.

Nem Época (que mudou sua principal matéria)
ou Veja (que apenas conseguiu enfiar um box de última
hora) fizeram qualquer coisa que se assemelhe a jornalismo investigativo.
Simplesmente aproveitaram material alheio, previamente investigado,
ao qual deram forma jornalística. Se algum desses ingênuos
jurados que distribuem à rodo prêmios de jornalismo
no fim do ano achar que foi mais um "feito de reportagem",
problema dele. Para nós, não foi.

Jornalismo investigativo verdadeiro, autêntico,
são as denúncias que O Globo vem fazendo a
partir do domingo (10/3), sobre a corrupção de três
magistrados e de um tribunal cariocas. O resto é conversa
fiada.

É preciso que fique bem claro também que se IstoÉ
deixou de aproveitar o vazamento sobre o escândalo Sarney
não o fez por razões deontológicas ou econômicas
(estaria sem recursos para reimprimir a edição, conforme
alegou). O semanário está sob estrito controle de
Orestes Quércia, a quem só interessa o sensacionalismo
contra o atual governo. Razão pela qual armou-se esta exótica
parceria ? ACM produzia as denúncias e Quércia as
divulgava com estardalhaço.

E por que razão o clã Sarney-ACM tenta agora esconder
o escândalo do Maranhão sob a alegação
de que foi produzido às vésperas de um pleito presidencial?
Simplesmente porque no Maranhão não existe um jornalismo
independente. Sarney e seu grupo não deixam. O oligarca brasileiro
do século 21 difere do modelo anterior, que só mandava
nos currais eleitorais. Os de agora, além disso, controlam
os meios de comunicação locais de forma a que o resto
do país ignore os crimes que lá ocorrem.

Só estamos conhecendo agora alguns detalhes sobre o clã
Sarney porque a grande imprensa do eixo Rio-São Paulo desmantelou
sua rede de correspondentes estaduais que até os anos 90
funcionava como antídoto às mentiras veiculadas pela
mídia oligarca.

Quando a pré-candidata do PFL começou a despontar
nas sondagens, a chamada grande imprensa "descobriu" o
Maranhão e mesmo assim tratou-o na base estatística
com índices e rankings obtidos, em sua maioria, nos gabinetes
de Brasília. Poucos se deram ao trabalho destacar correspondentes
para contar, in loco, a história pregressa do clã.
A Rede Globo, que poderia fazê-lo, ficou atada porque o grupo
suspeito é o controlador da sua afiliada no Maranhão
e vizinhanças.

As estrepolias de Jorge Murad com pleno conhecimento
do sogro, cunhados e consorte só começam a aparecer
porque a mídia até a semana passada estava completamente
omissa.
Por economia, preguiça, simpatia ou jogada
política. Idêntico mecanismo deu tamanha sobrevida
a Jader Barbalho no Pará e a ACM, na Bahia.

Tem mais: Paulo Maluf ainda não foi completamente escorraçado
da vida pública simplesmente porque uma das baterias com
maior poder de fogo da mídia brasileira está parcial
e voluntariamente recolhida, resignada ao compromisso de apenas
acompanhar as investigações, auto-impedida de comandá-las.

Sarney tentou a quartelada midiática na semana passada porque
confiava que os fartos benefícios que distribuiu quando ocupou
a presidência ? e ACM o Ministério das Comunicações
? conseguiriam calar os mais exaltados. E esses benefícios
não se resumem à copiosa oferta de concessões
de rádio e TV. A Previdência Social também foi
acionada no período 1985-1990 para facilitar a vida e os
balanços de determinadas empresas jornalísticas.

Confiava Sarney também no engajamento ideológico
de parte ponderável dos opinionistas que preferem criticar
o governo pelas providências legítimas da Polícia
Federal contra a corrupção do que indignar-se ante
o espetáculo daquele milhão e trezentos mil reais
nos cofres de uma pequena empresa de consultoria.

Esta hipocrisia é um dos aspectos mais aterradores do "milagre
de São Luís": alguns articulistas da grande imprensa,
engajados na oposição sistemática, inspirados
na própria tática de alguns partidos de oposição,
não estão incomodados com aquela foto dos milhões
nem com a tentativa de obstrução de justiça,
muito menos com o escândalo que escorre do Maranhão.
Estão apenas pensando nas eleições, fazendo
contas, ajustando as revelações às posições
ideológicas previamente assumidas.

É um caso de moralismo seletivo, indecente e profundamente
desabonador. Claro que um articulista como Clóvis Rossi,
da página 2 da Folha de S.Paulo ? um dos mais tenazes
críticos do governo ? não entra neste jogo militante,
caolho e oportunista de acobertar a corrupção. O mesmo
pode-se dizer de um articulista como João Ubaldo Ribeiro,
que se envolve pouco com política mas que não agüentou
as marotas manobras do clã Sarney para esconder sua pilantragem
debaixo do tapete.

Estamos assistindo em cores e ao vivo a uma tomografia da corrupção
brasileira. Ela é endêmica, profunda, horizontal, vertical
e sistêmica porque é impune. E ela é impune
porque nossa mídia não está cumprindo com uma
de suas principais atribuições ? fiscalizar. A todos,
sem preferências ou relativismo. Com rigor, sem favorecimentos
ou jogadas eleitorais.

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