Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Veja

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

GUERRA NA MÍDIA

"Não dá para desligar", copyright Veja, 3/10/01

"Às 8h49 do dia 11 de setembro, apenas quatro minutos depois de uma das torres do World Trade Center ser atingida por um avião seqüestrado, a rede americana de notícias CNN transmitiu as primeiras imagens dos atentados terroristas que abalaram os Estados Unidos. Desde então, ela acompanha os desdobramentos da tragédia com um batalhão de mais de 1 000 jornalistas mobilizado em tempo integral. Mantém profissionais em alerta em dezessete países considerados ?quentes?, especialmente no Oriente Médio. E é o único canal que ainda conta com dois correspondentes num Afeganistão cada vez mais isolado pela ameaça de guerra. Dez anos após se tornar a principal grife jornalística da TV mundial, com sua estupenda atuação na Guerra do Golfo, a CNN se encontra de novo em terreno que domina como ninguém: a cobertura intensiva de um evento político e bélico de repercussão planetária.

Não têm faltado críticas à emissora, que vem batendo recordes de audiência desde o dia dos atentados (veja quadro ao lado). Acusam-na de fazer ?patriotadas?, de manipular informações, de haver assumido uma linha editorial para ajudar os Estados Unidos a instaurar um clima de opinião que lhe seja favorável. Um ataque inusitado à rede partiu do Brasil – onde as imagens da emissora podem ser conferidas em dois canais pagos, a CNN International, em inglês, e a CNN en Español. Um aluno de sociologia da Universidade de Campinas, Márcio A.V. Carvalho, espalhou na internet o boato de que a CNN exibia imagens antigas como se fossem as de palestinos que comemoravam os atentados do mês passado. O objetivo da emissora seria criar uma onda global de animosidade contra muçulmanos. Tudo bobagem. Ao contrário do que supõem os mal informados, a CNN, fundada pelo milionário Ted Turner em 1980 e hoje pertencente ao grupo AOL Time Warner, está longe de ser um órgão a serviço do establishment americano. Nos Estados Unidos, ela ocupa uma posição à esquerda no espectro político. A direitona patriótica sintoniza mesmo é a Fox News, de propriedade do notório conservador (para dizer o mínimo) Rupert Murdoch. O noticiário da Fox, sim, é de provocar fibrilações nos corações mais liberais. Os críticos brasileiros da CNN logo terão oportunidade de constatar essa diferença – o canal de Murdoch começará em breve a ser veiculado na TV paga do país.

Em suas coberturas de guerras, a CNN invariavelmente enfrenta as restrições à informação impostas pelo governo americano. ?A censura do Pentágono está pior desta vez. Até as notícias mais rotineiras são retidas pelos militares, por medo de que possam ser úteis para eventuais ataques terroristas?, disse a VEJA Eason Jordan, executivo-chefe da emissora. Uma das maiores qualidades da CNN é seu esforço para manter-se presente nas regiões mais remotas e conflituosas. No caso do repórter Nic Robertson, o único jornalista ocidental no Afeganistão quando a crise eclodiu, ele havia sido destacado para registrar o julgamento de oito militantes de ONGs dos Estados Unidos e da Europa, acusados pelo regime islâmico de ?propagar o cristianismo?. Robertson foi expulso do Afeganistão dez dias atrás, mas a emissora conseguiu colocar outros dois repórteres no norte do país, dominado pela oposição ao Talibã.

Nos últimos anos, a CNN vinha passando por uma crise sem precedentes. Em meados da década de 90, duas fortes concorrentes, a Fox News e a MSNB, surgiram para disputar o mesmo nicho de mercado. Entre 1997 e 2000, a CNN perdeu nada menos que um terço de seus espectadores. Para muitos, em momentos de calmaria seu formato noticioso revelava-se ?quadrado? e monótono. A rede passou por reformulações de cúpula, demitiu funcionários e tentou, meio desajeitadamente, introduzir algumas inovações. Criou programas mais leves, na linha do jornalismo-entretenimento, e tratou de contratar apresentadoras de rostinho bonito, como a jornalista Paula Zahn e a ex-atriz Andrea Thompson, que atuou num seriado de TV e até posou nua antes de encarar seu tailleurzinho comportado de âncora de telejornal. As mudanças ainda não tinham mostrado muito efeito quando, de repente, os aviões seqüestrados atingiram as torres do World Trade Center e o prédio do Pentágono. A tragédia foi a chance de a CNN reencontrar sua vocação. E dar um banho na concorrência.

Imagens exclusivas obtidas pela CNN devem-se a uma engenhoca chamada videofone. Foi com ele que o jornalista Nic Robertson mostrou imagens da capital do Afeganistão, Cabul, sendo bombardeada por forças rebeldes menos de um dia depois dos atentados em Nova York e Washington. O mesmo recurso poderá ser usado por Chris Burns e Steve Harrigan – até a semana passada, os dois únicos correspondentes da TV americana em território afegão -, para enviar reportagens ao mundo. Graças ao aparelho, a rede saiu à frente dos concorrentes em outras ocasiões, como a do terremoto que abalou a Índia em janeiro e a do afundamento do submarino russo Kursk, no ano passado. O videofone dispensa o operador de câmara e cabe numa pasta 007. Ali dentro há minicâmara, telefone celular, monitor e microfone. Peso: 8 quilos. Outra vantagem é que se pode ligar o conjunto até no acendedor de cigarro de um carro. Os dados são enviados por satélite. ?Essa é a revolução que fará a diferença nesta cobertura?, acredita a repórter Christiane Amanpour, uma das estrelas da CNN.

 

"Direto do front", copyright IstoÉ, 1/10/01

"Desde a Guerra do Golfo, em 1991, o canal a cabo americano CNN, especializado em jornalismo, virou sinônimo de notícia com sua ampla cobertura em pleno olho do furacão do conflito. Nos recentes atentados contra o World Trade Center, as câmeras da rede foram as primeiras a enviar suas imagens impressionantes para o mundo, num lance de rapidez que fez superar todas as expectativas de audiência. Sozinha, a CNN pode ser sintonizada por 240 milhões de lares ao redor do planeta, mas naquele momento vários outros canais passaram a repetir sua transmissão. Foi o que bastou para reerguer a auto-estima e, principalmente, a audiência do canal, abalada pela ação de concorrentes como a Fox News Network. No ano passado, na tentativa de recuperar os espectadores, a emissora, inaugurada em 1980, na cidade de Atlanta, na Geórgia, chegou a adotar medidas drásticas. Demitiu 400 profissionais, contratou outros tantos e reformulou sua programação. Bastou, contudo, o mundo ocidental se colocar diante de uma guerra para que a CNN voltasse a seus melhores momentos.

As comparações com o sucesso das transmissões da Guerra do Golfo são inevitáveis. Tanto que até já existe em suas fileiras uma espécie de novo Peter Arnett, o correspondente que ganhou fama internacional por ter sido o único jornalista em Bagdá durante os bombardeios americanos. Desta vez, quando tudo aconteceu, foi o inglês Nic Robertson quem se encontrava no Afeganistão. Ele tinha viajado para cobrir o julgamento de oito voluntários internacionais acusados de converter muçulmanos ao catolicismo. Pura sorte profissional. Após os ataques, Robertson conseguiu permanecer oito dias no país. ?É justo dizer que normalmente os afegãos são hospitaleiros, mas agora eles estão muito desconfiados com estrangeiros?, revelou Robertson a ISTOÉ. No momento, sua nova base é Quetta, no oeste do Paquistão, a 130 quilômetros da fronteira do Afeganistão, onde se encontra a salvo.

Antes, porém, o jornalista viveu momentos de muita tensão na fronteira dos dois países. ?Os soldados do Taleban tinham suas baionetas prontas para usar e pareciam bem descontentes com nossa presença.? Durante o período em que esteve em solo afegão, Robertson foi proibido de filmar. Mesmo assim, quando aumentaram as suspeitas sobre Osama Bin Laden, ele passou a produzir suas reportagens ao vivo, recorrendo a um providencial videofone. Trata-se de uma engenhoca de US$ 20 mil, dotada de câmera, tela de cristal líquido e um telefone diretamente conectado a um satélite, que proporciona uma cobertura ao vivo, sem necessidade de grandes aparatos, como antenas ou caminhões de transmissão. Pode ser carregado na bateria de um carro, embora ofereça metade da qualidade de uma transmissão convencional. Mas a maior ironia de toda a história é que, segundo Robertson, oficiais do Taleban quiseram e foram ver as imagens do atentado no escritório improvisado da CNN, num hotel em Cabul, capital do Afeganistão, cujo governo proibiu a televisão. Nic Robertson conta, mas nem era preciso, que a estranha situação provocou extremos calafrios."

 

"A câmera como arma", copyright Folha de S. Paulo, 30/09/01

"Durante a Segunda Guerra Mundial, filmes em que alemães e japoneses representavam o mal tomaram as telas. Hollywood empenhava-se em fazer propaganda negativa dos oponentes em filmes de guerra e espionagem. Os japoneses eram os grandes vilões. Humphrey Bogart investiga um plano deles para destruir o Canal do Panamá em Garras Amarelas (1942), de John Huston. John Wayne trata-os como devoradores de criancinhas em Os Tigres Voadores (1942), de David Miller.

Os alemães apareciam como sádicos movidos por maldade genética ou loucura. Balas contra a Gestapo (1942) mostra Bogart desvendando um plano nazista para explodir um cruzador em Nova York. Os italianos foram poupados, por formar uma grande comunidade nos EUA. Eram pintados como paspalhões.

No pós-guerra, o cinema tentou recuperar a imagem dos antigos inimigos. Em A Casa de Chá do Luar de Agosto (1956), Marlon Brando chega a interpretar um oriental. Já em A Ponte do Rio Kwai (1957) e Pearl Harbor (2001), os japoneses voltaram a ser vilões. O drama teve algumas cenas cortadas para ser exibido no Japão."

    
    
                     
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