Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > TEORIA & PRÁTICA

Veja, uma lição de política

Por lgarcia em 05/06/2002 na edição 175

TEORIA & PRÁTICA

Gilson Caroni Filho (*)

Muito espaço tem sido dedicado à simbiose dos interesses econômicos dominantes com a dinâmica própria do campo jornalístico.Uma observação mais acurada revelará que a imprensa tem procedimentos metodológicos distintos, porém complementares: na cobertura política privilegia o funcionalismo, na análise econômica prevalece o recorte monetarista. Em comum, ambos se prestam a legitimar uma ordem que se apresenta como dada, sem necessidade de esforço investigativo. Não é apenas por deficiência acadêmica (embora ela seja notória) que o press release se transformou na bússola de muitas redações. O jornalismo investigativo solicita sólida formação teórica aliada a uma firme disposição política para ir além das configurações imediatas. E, como todos sabemos, isso pode afetar a taxa de lucro da empresa onde está abrigada a redação.

Os que advogam a predominância do saber técnico em detrimento da formação humanística são, sem o saber, ideólogos de um jornalismo feito sob medida para os interesses corporativos. Pela especificidade do campo midiático, o jovem repórter saberá elaborar um lead. Mas como lhe falta instrumental teórico para percepção crítica dos interesses em jogo, o "por quê" e o "como" da abertura do texto reproduzirão, a contento, os argumentos do conservadorismo na cobertura política ou a lógica do capital que dá o norte das editorias de economia. Como bem destaca Bernardo Kucinski, a fetichização de indicadores econômicos "se afiguram como substitutos do fato político e da crítica social" (Jornalismo Econômico, Edusp, São Paulo, 1996). A consciência crítica cede lugar à convivência com as fontes, seus interesses e ponderações. Assim, os profissionais internalizam a ideologia da empresa, sem que, tal como apregoam os conspiracionistas, haja um comando central a manietar cada entretítulo, legendar cada foto, paginar cada edição.

Quando Marx afirmou que "a ideologia dominante de uma época é a ideologia da classe dominante desta mesma época", atento estava à capilaridade da reprodução social. E, não nos iludamos, a lógica capitalista não habita exclusivamente os núcleos gestores da macroeconomia mas, sobretudo, corações e mentes daqueles que, em tese, a ela deveriam se opor. Quando muito, por se darem conta de que há uma incompatibilidade estrutural entre a livre circulação de capital e o fluxo desejável de informações relevantes. A reificação é, na tradição marxista, um traço constitutivo da produção de mercadorias. Marca o alheamento do produtor em relação ao resultado final do seu trabalho.

Na esfera de bens simbólicos não é muito diferente. A imbricação com os segmentos dominantes não é percebida com inteireza pelos próprios envolvidos. A renúncia ética decorrente faz, no caso específico da imprensa, com que o oficialismo se transforme em sua segunda natureza. Os textos produzidos traem involuntariamente os propósitos iniciais das empresas. São verdadeiras peças de autodenúncia que, claramente, revelam o alinhamento político e o caráter classista da publicação.

Destaquemos que, mais que nunca, as contradições afloram. A produção capitalista, por sua própria dinâmica, traz à tona o que, em tese, deveria ocultar. A convivência promíscua entre imprensa e poder. Em nosso caso específico, o patrimonialismo ainda dá uma pitada de compadrio. A essa altura, os amigos do livre mercado que andam visitando com certa hostilidade o Observatório devem estar espumando com tanta ilação sem base empírica. Decerto estarão pedindo uma prova que corrobore as linhas acima. Apostam na impossibilidade de algo tão explícito e já esfregam as mãos de contentamento. Infelizmente, para os que rezam pela teologia do mundo dos negócios e do jornalismo de balcão, Veja existe. E se manifesta despudorada em momentos cruciais.

Ultimato de sócio

Há quatro anos, em sua edição 1.567 (7/10/1998), a maior revista semanal de informação do país dedicava matéria de capa à reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Assinada por Expedito Filho, a tese central da narrativa eram as possibilidades antinomínicas oferecidas pela crise financeira. Pelo grau de fragilidade da economia brasileira e a volumosa perda de divisas, caberia ao presidente enfrentar colossal desafio. Ser um estadista visionário e vencer a crise ou "resumir seus dois mandatos a rodapé da história". O argumento era reforçado por dois cientistas políticos que são a referência teórica da revista: Bolívar Lamounier e Sérgio Abranches.

O primeiro mandato era, em texto editorializado, definido de forma inconteste: "Nos quatro primeiros anos, o presidente liquidou a inflação endêmica que desafiou todos os seus antecessores, garantiu a estabilidade da moeda, modernizou muito o país e elevou o padrão da política nacional". Observemos que esse trecho não reporta considerações de nenhum especialista ou resulta de síntese de múltiplas opiniões ouvidas pelo jornalista. É um fato "natural", dado axiomático sobre o qual seria "ilógico" pairar qualquer suspeição. Procedimento ideológico que não constitui novidade alguma.

A grande contribuição da matéria viria no desnudamento dos bastidores de campanha. Mostraria um Fernando Henrique Cardoso irritadiço e passando de presidente a pauteiro com a mais absoluta naturalidade. Revelaria o noticiário como construção política de conveniência. Aç&atildeatilde;o orquestrada de grandes empresas que se sentem ameaçadas ante a possibilidade de renúncia de seu candidato. O trecho a seguir comenta a descontração de um presidente até poucos dias se sentindo ameaçado com a ação jornalística: "Fernando Henrique nem parecia mais o candidato-presidente que, em maio passado, encenou um gesto extremo e dramático de ameaçar renunciar à candidatura. Nas pesquisas da época feitas pelo comando da campanha, Fernando Henrique estava com 33%, contra 28% de Luiz Inácio Lula da Silva. Ele caía. Lula subia."

Gesto extremo e dramático que nenhum veículo noticiou. Ou todos ignoraram o fato, ou não deram relevância a ele ou, caindo todas as máscaras, partilharam da angústia de FHC. Mais pedagógico impossível. Para os que não se recordam, o noticiário da época dava conta de saques, seca, invasão de terras e crise econômica. As pesquisas apontavam uma vantagem do presidente de apenas 5%, sendo que nos três estados do Sul havia registro de empate técnico.O sinal vermelho estava aceso. Era a hora de a mídia fazer o seu papel. Ocultar a realidade, tergiversar, substituir o tenso noticiário cotidiano pelo providencial fait-divers. Para tanto, segundo a reportagem, o "príncipe dos sociólogos" chamou os "barões da imprensa" e foi categórico: "?Eu não sou candidato de mim mesmo. Isso comigo não existe. Ou eu tenho apoio ou volto para casa e deixo a farra por conta de vocês. Aí vocês elegem o candidato que quiserem?, disse. Seus interlocutores sentiram a gravidade do momento".

Francamente, há algo mais parecido a um ultimato de sócio majoritário que esse diálogo de um presidente com representantes da mídia? Há necessidade de exegese para esclarecer o papel da imprensa na sustentação do bloco de poder? Sem qualquer ironia, Veja merece um prêmio pelo seu didatismo. O texto enxuto vale por 10 aulas que versem sobre as relações de poder e a ação dos meios de comunicação na reprodução requerida pela classe dominante.

Parceria com o poder

A ação do presidente é relatada em detalhes. Não há qualquer preocupação com disfarces. Seus queixumes e modus operandi parecem traduzir o que Veja considera modernização dos hábitos políticos promovida por FHC, em seu primeiro mandato: "Queixou-se em especial das televisões, que, no seu entender, vinham maltratando o governo com ênfase exagerada em notícias ruins, que acabavam azedando a avaliação popular do próprio presidente. Procurou os donos da Rede Globo, reclamou que o Jornal Nacional tinha ampliado a cobertura de temas como a seca no Nordeste, os saques, o incêndio em Roraima e o arrocho do salário mínimo."

Naturalmente sua ação foi exitosa, e a cobertura da Copa tomou conta do noticiário. Sem contar a transformação do principal telejornal da emissora numa espécie de Globo Ecologia, onde focas, golfinhos e micos-leões substituíram famintos, saqueadores e milhares de sem-terra. Às vezes, o poder solicita uma súbita mudança de ecossistema como forma de rearticulação de forças. E a mídia não hesita em "fazer o sertão virar mar" para garantir mecanismos seculares de dominação.

No que diz respeito ao bloco de poder a historia teve final feliz como atesta este último trecho: "Depois dessas conversas, em que agitou o fantasma da renúncia, teve apoio imediato. A seca desapareceu do noticiário, o aumento do salário mínimo foi esquecido e os pajés apareceram para apagar o incêndio de Roraima. Esqueceu-se a renúncia. Ao mesmo tempo, o governo começou a reagir. Atendeu as vítimas da seca, anunciou pacote de medidas para financiar a casa própria e combater o desemprego."

Talvez sem se dar conta, Veja escreveu a história da imprensa nas eleições de 1998. Mais que isso. Produziu razoável material para reflexão dos estudantes de Jornalismo. Longe da obviedade do senso comum das redações e das mirabolantes conspiratas dos mais delirantes "analistas" pós-modernos, o campo jornalístico é o lugar por excelência para a articulação entre uma infra-estrutura que explora e uma superestrutura que organiza a dominação. Nessa dimensão, não é de causar estranheza que não reaja com veemência à imposição de censura. Pautada, como vimos, pelo Executivo e os interesses econômicos a ele associados, a mordaça talvez tenha se tornado fator constitutivo do empreendimento jornalístico. Só realizável em parceria com o poder que, originariamente, deveria fiscalizar.

(*) Professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso

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