Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ECOS DO VEXAME

Vexame comemora-se com vexame

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

CASO LEWINSKY, 3º ANIVERSÁRIO

Alberto Dines

Se você, leitor-observador, está surpreso com o relatório da CNN sobre a débâcle da cobertura das eleições americanas [veja chapéu ECOS DO VEXAME, na rubrica Imprensa em Questão desta edição], leia o que o jornalista Argemiro Ferreira conta sobre o terceiro aniversário do caso Monica Lewinsky. Você ficará ainda mais arrepiado [veja artigo"Campeão de audiência", na rubrica Jornal de Debates desta edição].

Mas se você estiver procurando emoções mais fortes, veja a cobertura que este Observatório deu ao início do caso, há exatos três anos, na edição de 5 de fevereiro de 1998 [veja remissões abaixo].

Foram Os Dez Dias Negros da Mídia Americana, quando esta jogou-se de corpo e alma para cobrir um escândalo sexual na Casa Branca sem ter a certeza de coisa alguma, fiada apenas fofocas plantadas pelos assessores do promotor especial Kenneth Star.

Os âncoras e toda a parafernália tecnológica da mídia americana estavam instalados em Havana para cobrir a reconciliação de Fidel com o Vaticano. Deixaram tudo pelo meio e foram devassar o Sexgate (ou Clintongate ou Monicagate) esquecidos de que, com isso, eles próprios estavam ajudando a produzir um gigantesco Mediagate.

Como sói acontecer nestas bandas, a reação da mídia brasileira foi idêntica à da matriz, embora alguns de nossos jornalões tivessem acesso aos corajosos textos publicados pelo New York Times e Washington Post condenando os procedimentos dos canais de TV all news, da internet e emissoras de rádio. Escândalo no jornalismo não empolga, não vende. Escândalo no Salão Oval é um elixir para as vendas.

O fato de as fofocas divulgadas sem apuração terem sido confirmadas posteriormente não ameniza a irresponsabilidade de colocar 90% da mídia e 100% da opinião pública americana a serviço de uma suposição. Equivalem e, na realidade, são parte do mesmo processo que levou à divulgação maciça pelo pool das redes abertas, em novembro passado, da prévia eleitoral erroneamente calculada que dava a vitória final a George W. Bush nas eleições presidenciais americanas. O fato de que este, posteriormente, tenha sido proclamado vitorioso por intermédio de decisão judicial – e não eleitoral – não diminui o tamanho da patranha televisiva logo encampada pela mídia impressa.

O pivô do episódio que iniciou o Caso Monica Lewinsky, o fofoqueiro Matt Drudge, acabou produzindo o melhor flagrante das contradições que hoje corroem o sistema mediático mundial e o processo democrático que dele depende. Ao defender-se da acusação de divulgar um boato sem investigá-lo, Matt declarou: "Sou repórter, não sou jornalista". Com isso, classificava como atividades opostas a busca de informações e as responsabilidades dos engajados na sua divulgação.

Matt Drudge é o festejado criador de um novo padrão. Pai da reportagem sem jornalismo, paradigma de um sucesso profissional que vai acabar com os fundamentos da profissão.


Leia também

Edição nº 38 (5 de fevereiro de 1998)

Os dez dias que aviltaram o jornalismo americano

Midiagate, ou com o rabo entre as pernas – Alberto Dines

Publicar ou não publicar: detonando o circo – A.D.

Se Clinton é vítima, por que Newsweek fugiu do furo? – Argemiro Ferreira

Sexo dos líderes, escândalo que escandaliza – Nahum Sirotsky

Aqui é ‘Sexgate’, lá é ‘Mediagate’ – A.D.

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Jornal de Debates – texto anterior


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