Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

PRIMEIRAS EDIçõES > Um jornal que mergulha profundamente nos assuntos sedutores para descobrir o que está por trás, mantendo-se rigorosamente do lado de fora para não ser engolfado pelo redemoinho: eis uma definição de jornalismo que, entre todas, vale a profissão

Vexames no andar de cima

Por lgarcia em 21/10/2003 na edição 247

O AFFAIRE SCHNEIDERMANN

Alberto Dines

Crise sistêmica ou coincidência de erros? Embora este não tenha sido o título do 9? Seminário de Comunicação do Banco do Brasil (Brasília, 15-17 de outubro), os sobressaltos e sacolejos sofridos pela mídia estiveram presentes em quase todos os painéis. E não foram poucos os palestrantes que enunciaram a questão com esta mesma formulação [veja notícia sobre o seminário no Jornal de Debates, nesta edição].

Os acontecimentos no Le Monde, que culminaram com a demissão do crítico Daniel Schneidermann, foram referidos en passant na mesa que reuniu os observadores Bernardo Kucinsky e Bernardo Ajzenberg ("A imprensa como instituição pública: os casos Jayson Blair e David Kelly").

O affaire Schneiderman é mais recente ? foi levantado por este Observatório [veja remissão abaixo] e completa um estranho triângulo composto pelas mais respeitadas instituições jornalísticas do mundo desenvolvido: o americano New York Times, a britânica BBC e, agora, o vespertino francês. Fica faltando o espanhol El País para que se possa afirmar que as contradições da Era da Informação arrastaram os seus mais expressivos representantes.

É evidente que os três casos situam-se no andar de cima: não podem se comparar ao caso Gugu Liberato. Muito menos ao vexatório pleito da mídia privada brasileira junto às fontes oficiais de financiamento. Ou à miopia dos nossos empresários de mídia que acreditaram piamente nas suas páginas de economia e embarcaram de olhos fechados em loucas miragens.

Mesmo em outro nível, os episódios são emblemáticos. Levam o nome de seus protagonistas apenas para facilitar a menção. As fraudes praticadas por Jayson Blair são menos importantes do que a rigorosa reação do New York Times. O grande jornal americano levou às últimas conseqüências o compromisso impresso no cabeçalho ? "All the news that?s fit to print" (todas as notícias que podem ser impressas) ? e flagelou-se publicamente. Falhou como qualquer jornaleco do interior, mas reconheceu.

Donos da verdade

O provável suicídio do cientista inglês David Kelly simboliza a manipulação das informações. O verbo inglês "to sex-up", muito utilizado no jargão jornalístico saxão, significa tornar atraente, esquentar, anabolizar ou bombar uma informação. A BBC pretendeu demonstrar sua independência acusando o governo inglês de esquentar um relatório dos serviços secretos sobre o potencial iraquiano de fabricar armas de destruição em massa. E, para isso, também esquentou as opiniões em off do cientista David Kelly num programa de rádio de grande audiência (Today). Acabrunhado com a exposição pública a que foi submetido, tudo indica que Kelly tenha se matado.

Qualquer que seja o laudo final sobre a sua morte, pode-se dizer que David Kelly foi vitimado pelo furor sensacionalista. Mesmo no âmbito político-ideológico ? onde se pretende que os sublimes fins justifiquem os mais sórdidos meios ? este sensacionalismo não se distingue do reles denuncismo policialesco.

A sóbria BBC, padrão internacional de jornalismo público e responsável, embaralhou-se na arrogância e comportou-se como uma empresa privada seduzida pela idéia de protagonismo e ambição pelo poder.

O affaire Schneidermann leva o nome da vítima sacrificada pelo velho corporativismo. Ou centralismo. Admissíveis num órgão partidário mas impensáveis numa empresa concebida como modelo de gestão democrática, na qual os jornalistas são acionistas e, portanto, livres dos patrões. Mesmo assim, Schneidermann foi punido por "deslealdade".

Crítico de mídia, escreveu um livro como pessoa física, desaprovando o comportamento da pessoa jurídica Le Monde diante de uma denúncia publicada num outro livro. Schneidermann acreditava no seu jornal, por isso queria uma defesa menos burocrática. E o disse sem meias palavras.

O coletivo dos redatores decidiu por sua demissão. O coletivo comportou-se exatamente como um "chefão" do sistema capitalista onipotente e onisciente [clique em TEXTO ANTERIOR, no pé desta página, para ler a entrevista de Schneidermann ao Observatório].

O livro de Schneidermann, Le couchemar médiatique (O pesadelo midiático, Editions Denoël, Paris, 2003, 281 pp.) é um trabalho exemplar de crítica da mídia. Trata de cinco casos paradigmáticos, um deles de repercussão internacional e muito conhecido do público brasileiro: o livro L?Effroyable imposture" (A terrível impostura), no qual tenta-se provar que no 11 de Setembro o Pentágono não foi atingido por um avião seqüestrado, mas por poderosa carga de explosivos deixada em seu interior.

Schneiderman transcreve todos os debates televisivos dos quais participou o autor (Thierry Meyssan) e também a argumentação contrária. Obviamente, dá a sua opinião sobre o caso mas expõe com uma clareza assustadora a ingenuidade (ou má-fé) daqueles que se aproveitaram da tragédia para dar vazão à paranóia política.

Encerra o último capítulo (sobre o Monde) de forma antológica:


"(…) Cronista do Monde, sim e, mais do que nunca, orgulhoso de sê-lo. Sempre soube que ? em nome do papel que um jornal deve exercer e por mais difícil que isso seja ? jamais deveríamos nos conformar com a nossa caricatura (…).

"(…) O Monde deve ser aquele que resiste ao poder de um pesadelo e que observa o campo de batalha de uma posição inatacável. Isso exige, como freqüentemente repete Edwy Plenel na fórmula emprestada por Péguy, de ?pensar contra si mesmo?, o que para mim é sua própria razão de ser. Nestes momentos em que os limites se apagam e nos quais ninguém tem mais certeza sobre coisa alguma, o leitor necessita de um jornal assim.

Um jornal que mergulha profundamente nos assuntos sedutores para descobrir o que está por trás, mantendo-se rigorosamente do lado de fora para não ser engolfado pelo redemoinho: eis uma definição de jornalismo que, entre todas, vale a profissão. Para descobrir como ela é verdadeira basta perceber que o tumulto criado na mídia com tantos encantamentos tornou-se a forma mais eficaz de censura."


Le Monde castigou Daniel Schneidermann. Os donos da verdade não admitem contestações. A crise da mídia não é sistêmica ? é visceral.

Leia também

O pesadelo de Daniel Schneidermann ? Leneide Duarte-Plon

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem