Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA E ELEIÇÕES

Vida mediada e democracia

Por lgarcia em 20/09/1998 na edição 53

(*)

Victor Gentilli

 

O

jornalismo é uma atividade essencial nas sociedades contemporâneas. Nas sociedades de massas do presente, a ninguém mais é dado o privilégio de viver apenas pela vivência. O que parecia uma obviedade – vivência é viver a vida – tornou-se algo impossível. Nossa vida hoje não é mais apenas vivida, é mediada – pelos meios de comunicação.

O exercício da escolha é um ato do ser humano, é um ato do consumidor, é um ato do cidadão. Cidadão, ser humano, consumidor somos todos nós, contemporâneos deste mundo presente. Para o mercado, somos consumidores; para a democracia, somos Cidadãos. Mas as nossas escolhas enquanto cidadãos dependem da qualidade da informação que consumimos dos jornais, revistas, telejornais ou radiojornais.

Diante da infinidade de escolhas disponíveis na sociedade da informação, os jornais funcionam como filtros: selecionam, organizam e hierarquizam o que consideram mais importante. Portanto, estabelecem, dentro da infinitude de ocorrências cotidianas, o que é e o que não é noticiável. Cada uma das ocorrências consideradas noticiadas precisa ser compreendida pelo jornalista para que ele possa explicar, traduzir, esclarecer seu leitor, ouvinte ou telespectador.

Creio que os cientistas políticos precisam debruçar-se diante desta nova realidade, disto que suponho ser um novo modelo de democracia representativa, que arriscaria chamar de democracia representativa midiática.

Na história, tivemos primeiro a democracia grega e ateniense. Nela, nem todos eram cidadãos, mas os cidadão participavam plena e diretamente do exercício do poder. A praça pública era o executivo, o legislativo e o judiciário, termos desconhecidos na época.

Entre a democracia grega e a democracia moderna tivemos a longa idade média. O modelo de democracia que surgia a partir do século 18, depois da Revolução Francesa, distinguia o privado do público, ao mesmo tempo em que separava o representante do representado. Surgia o ator político, o representante, aquele que abria mão de parte de sua privacidade em troca do mandato concedido para exercer o poder público por um certo período de tempo e de acordo com regras bem estabelecidas anteriormente.

Não viveríamos ainda este modelo de democracia? Sim e não. Grosso modo, sim, mas há um dado novo, radicalmente diferente dos primeiros modelos de democracia representativa, razão pela qual ouso arriscar a idéia de um novo modelo. Se na democracia representativa os cidadão delegam a outros o exercício do poder público, a novidade é que a relação pessoal entre representante e representado deixou de existir.

Nas duas últimas eleições presidenciais diretas que tivemos no Brasil, em 1989 e em 1994, e nesta de 1998, há um dado fundamental que exige de nós uma reflexão. Quase a totalidade dos eleitores fez sua escolha sem condições de acesso, uma conversa pessoal, um contato com Fernando Collor, com Lula, com Enéas, com Fernando Henrique etc.

No entanto, todos foram considerados suficientemente informados para fazer suas escolhas de modo consciente.

Quem opera esta mediação? Jornais e jornalistas mediam a relação entre os diversos segmentos sociais. Na política, tal mediação tem uma importância decisiva, já que a qualidade da democracia (e a qualidade das condições em que os eleitores realizam suas escolhas) é diretamente proporcional à qualidade da informação acessada por cada um dos eleitores/cidadãos.

No primeiro interregno democrático do pós-guerra, a grande imprensa brasileira jamais conseguiu emplacar o brigadeiro Eduardo Gomes ou Juarez Távora como presidentes. Jânio Quadros foi um caso à parte, assim como Fernando Collor, último e primeiro presidentes eleitos antes e depois da ditadura militar. Ganharam mas não levaram.

Da velha Lei Falcão ao Horário Eleitoral Gratuito tivemos uma longa transição. Mas na origem de ambas a evidência de que o jornalismo praticado pelas emissoras de rádio e TV eram insuficientes para o esclarecimento político da cidadania.

Hoje, vemos uma campanha eleitoral com um jornalismo burocrático ao extremo, consagração dos vícios do jornalismo declaratório, não-investigativo e denuncista. Temas substantivos estão completamente ausentes dos jornais, que preferem o factual, a isenção ornamental e o tratamento superficial das questões. No fim das contas, todos os brasileiros ficam com uma sensação de angústia por desinformação. Isso vale para todos, eleitores de Fernando Henrique, Lula, Ciro Gomes, Enéas ou Sirkis. Os jornais nem contam que os outros não contam.

(*) Resumo da palestra proferida pelo professor Victor Gentilli (pesquisador-associado do Labjor-Unicamp e editor de Área Acadêmica do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA) no seminário Mídia e Democracia nas Eleições 98 [leia texto complementar abaixo], patrocinado pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), com apoio da Comissão Européia, realizado no auditório da Embratel, no Rio, em 17 de setembro, com transmissão direta da TV Educativa.

 


 

A

campanha eleitoral deste ano está sendo objeto de estudo em diversas universidades e escolas de jornalismo no Brasil. O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA apóia estas iniciativas e dispõe-se a divulgá-las. Veja abaixo um relato sucinto de algumas delas.

 


 

O

desempenho dos jornais e telejornais dos últimos 30 dias que antecedem as eleições de 1998 está sendo milimetricamente estudado pelo Labjor-Unicamp.

A pesquisa está sendo feita a pedido da Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) e FIJ (Federação Internacional de Jornalistas), com o patrocínio da Comissão Européia.

O professor Victor Gentilli, do Labjor e da Ufes, está coordenando a pesquisa A Mídia nas Eleições, trabalho que pretende avaliar o desempenho de jornais e telejornais brasileiros na cobertura da sucessão presidencial deste ano. Os jornais Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo e Gazeta Mercantil e os telejornais Jornal nacional, Jornal da Record, Jornal da Manchete, Jornal da Band e Notícias de Última Hora, do SBT (durante o horário nobre), estão sendo minuciosamente analisados por estudantes de jornalismo do Espírito Santo, no Nexo, onde a equipe de pesquisa está sediada.

A metodologia do projeto foi desenvolvida pelos professores Christa Berger (UFRS), Fernando Sá (Ibase e PUC-Rio), Maria Immacolata Vassalo de Lopes (ECA-USP) e Victor Gentilli (Ufes e Labjor-Unicamp), sob a coordenação do jornalista Daniel Herz, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação.

 


 

N

a ECA-USP, o comportamento ético da mídia durante a campanha eleitoral está sendo monitorado por três turmas de alunos do curso de Jornalismo: duas da disciplina “Ética”, do curso de graduação e a outra da disciplina “Ética Comparada em Jornalismo”, do curso de pós-graduação. Orienta os trabalhos o professor José Carlos Rocha. O objetivo da pesquisa é tomar o pulso da mídia num momento crucial de sua atuação, considerando-se que o jornalismo é uma prática comunicativa a serviço da democracia e que as eleições constituem uma oportunidade excepcional para o esclarecimento dos eleitores e para o exercício da cidadania.

A pesquisa abarca 30 dias da campanha presidencial, de 20 de agosto a 20 de setembro e inclui o seguintes veículos:

Jornais: Folha de S. Paulo, Diário Popular (SP), O Globo, Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo;

Revistas: Veja, IstoÉ, Época;

TVs: Globo, Bandeirantes, Record, Manchete e Cultura (transmissões de São Paulo).

A pesquisa tem uma fase quantitativa e outra qualitativa. Abrange todo o material editorial desses veículos relacionado à campanha. Ao final, será gerado um relatório analítico. O principal marco referencial da pesquisa é o trabalho de José Maria Desantes: La información como derecho, Madrid, Ed. Nacional, 1975. Outras referências são O Código de Ética da Fenaj, Os dez princípios éticos do jornalismo, da Organização das Nações Unidas, a Lei de Imprensa e a Lei Eleitoral 9.96/97.

A campanha também estará sendo discutida em outra disciplina de graduação: Comunicação Organizacional e Política, com análise das estratégias de campanha dos diversos partidos e coligações. Mais informações com o chefe do Departamento de Jornalismo da ECA-USP, professor Bernardo Kucinski <bkucinski@usp.br>.

 


 

A

professora Carmem Pereira, da Universidade Gama Filho, acompanha o desempenho dos jornais do Rio de Janeiro na cobertura das eleições para o Senado e o governo do estado. Este trabalho já faz parte das iniciativas da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa, proposto na edição do dia 5 de julho de 1998.

 


Vera Chaia (*)

 

A

s mesas redondas realizadas pelo Neamp (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política), da PUC-SP, tiveram como objetivo discutir o atual processo eleitoral brasileiro para presidente, governadores, senadores e deputados, procurando destacar e avaliar o papel que a mídia (imprensa escrita e televisão) exerce nesta atual conjuntura política.

A 1ª mesa tratou de Campanha Eleitoral: entre a mídia e a política, e dela participaram os jornalistas Mauro Malin, do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, Fernando de Barros e Silva, da Folha de S. Paulo e Gabriel Priolli, da PUC-SP, com coordenação de Vera Chaia, do Departamento de Política da PUC/SP.

Mauro Malin, além de analisar o sentido político dos noticiários da televisão, deteve-se na análise das primeiras páginas dos principais jornais brasileiros, abordando a construção feita por esta mídia da crise econômica e das eleições no país. Apontou as dificuldades teóricas para a análise da mídia – trabalhando simultaneamente com as idéias de “lógica da máquina comunicativa” e “lentidão do olhar”. Elaborou e apresentou ao público uma surpreendente curva horária de nossos telejornais, cruzando tipos de jornais e qualidade da informação. Tratou também da cobertura diferenciada entre o telejornalismo da TV aberta e o da TV a cabo, mostrando as especificidades destes meios. Para exemplificar, analisou o Jornal Nacional do dia 14/9/98, chamando atenção para a insuficiência da cobertura do processo eleitoral. (Ver abaixo.)

Fernando de Barros e Silva iniciou sua exposição chamando atenção para a cobertura diferenciada dos telejornais da Globo na TV aberta e na TV a cabo. Para este jornalista, existe um apartheid interno à Rede Globo, ao se considerar que os respectivos telejornais produzem matérias jornalísticas com conteúdos e cuidados formais díspares: na TV aberta estes são superficiais, enquanto na TV a cabo a cobertura tende a ser aprofundada, problematizando-se o noticiário. Como um entrave na relação entre mídia e política, facilitando um consenso jornalístico, destacou que parte dos jornalistas estariam despreparados para acompanhar as mudanças ocorridas no Brasil nestes quatro anos de governo de FHC. Fazendo referência à atual campanha eleitoral, afirmou que a crise econômica ganhou tal significado que ela é que pressionou e entrou na campanha. Lembrou, ainda, que se verifica uma tendência de privatização do noticiário, devido principalmente ao esfriamento da política, fenômeno de âmbito mundial.

Gabriel Priolli, presente virtualmente, em depoimento gravado em vídeo, afirmou a existência de parcialidade nos meios de comunicação, denunciando a cobertura tendenciosa destes meios. A vida política e os políticos são representados negativamente e devido a esta abordagem indiferenciada, transmite-se a idéia de que todos os políticos são corruptos, incapazes etc. A generalização desqualifica os políticos e a vida democrática brasileira. Também discorreu sobre o uso político das pesquisas eleitorais e a desqualificação que a mídia faz do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral.

Os pesquisadores do Neamp – Judi Cavalcante, Paula Papis e Carlos Alberto Furtado de Melo – apresentaram clipping eletrônico dos principais telejornais nacionais e locais (24 a 30/8), e discutiram as implicações políticas com uma análise minuciosa do tratamento dado aos candidatos e ao processo eleitoral.

A 2ª mesa redonda, intitulada “O sistema político e as eleições 98: conjuntura e perspectivas”, contou com a participação dos professores Maria D’Alva Gil Kinzo, do Departamento de Ciência Política da USP, Brasílio Sallum Júnior, do Departamento de Sociologia da USP, e Cláudio Gonçalves Couto, do Departamento de Política da PUC-SP, coordenada por Francisco Fonseca do Departamento de Política da PUC-SP.

Brasílio Sallum Júnior estruturou sua exposição em torno da proposta da existência de dois macroprocessos que vêm caracterizando a política e a economia do Brasil: a transnacionalização da economia e a democratização da sociedade. Estes dois processos definiram a abertura política brasileira e, com pesos diferenciados conforme a conjuntura política, estão presentes no atual debate político. Nas eleições de 1989, quando os candidatos eram Fernando Collor de Mello e Lula, esta dicotomia transnacionalização (Collor) e democratização (Lula) foram corporificadas por estas candidaturas. Esta polarização foi desaparecendo e hoje pode-se afirmar que FHC é democrático e atende às políticas liberais, mas existe em seu governo, esporadicamente, uma postura desenvolvimentista. Um outro aspecto analisado foi a presença de uma equipe heterogênea no governo de FHC.

Para Maria D’Alva Gil Kinzo, duas questões são importantes para analisar o atual processo eleitoral: o significado e a especificidade destas eleições e a consolidação ou não do sistema partidário brasileiro. Com relação à primeira questão, a expositora afirma que estas eleições não despertaram tanto interesse em comparação às anteriores, e isso deve-se a dois fatores: quanto maior a certeza dos resultados eleitorais, menor a participação; e a existência de uma rotinização das eleições, provocando desinteresse por parte do eleitorado. No que diz respeito ao sistema partidário brasileiro, estas eleições não auxiliam na consolidação dos partidos, por uma série de fatores, entre os quais se destacam a questão das coligações partidárias, a ausência de envolvimento dos partidos em outras esferas do próprio sistema político e o histórico de nosso sistema partidário.

Cláudio Couto analisou a atual conjuntura política, tomando por base os mecanismos institucionais de governo e referenciando-se pela política econômica atualmente adotada. O indicador fundamental de sua exposição girou em torno da agenda governamental. O expositor analisou o Plano Real e o atual governo, ressaltando a existência de duas agendas: emergencial – uso de medidas provisórias, adoção de uma política monetária sem envolver outros setores, senão o Executivo -; a estrutural – abertura econômica, reforma tributária, dentre outras. A opção do governo FHC foi a de realizar certas reformas constitucionais, por serem mais fáceis de negociação. Além do mais, destacou o fato de o Brasil ser o único país latino-americano cuja Constituição releva temas econômicos, enquanto as demais priorizam temas políticos.

Os pesquisadores do Neamp – Marco Antônio Carvalho Teixeira, Maria Salete Amorim e José Angel Teran – prepararam também para esta mesa um clipping eletrônico sobre as campanhas eleitorais, a partir do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (24 a 30/8). As observações feitas pelos pesquisadores destacaram o pouco significado dos partidos políticos nas propagandas eleitorais e a personalização das candidaturas. Os pesquisadores destacaram ainda a interferência do marketing político no processo democrático brasileiro.

(*) Pesquisadora do Neamp e professora do Departamento de Política da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC/SP

 


M.M.


R

esumidamente, eis as informações apresentadas na mesa-redonda da PUC em 15 de setembro:

Manchetes dos quatro jornais mais importantes do país.

Dia 2/9, quarta-feira

O Globo

Alta recorde nos EUA reduz

clima de pânico nas bolsas

Dia 3/9, quinta-feira

O Globo

Diminui diferença de FH

para adversários no Ibope

Folha de S. Paulo

Governo prepara ajuste do Plano Real

O Estado de S. Paulo

FHC cai, mas

ainda vence

no 1° turno

Dia 5/9, sábado

O Estado de S. Paulo

Campanha de FHC decide tratar da crise

Dia 6/9, domingo

Folha de S. Paulo

Medo da

crise nas

Bolsas

ajuda FHC

A manchete dominical da Folha marca o divisor de águas da reta final da campanha (se não houver surpresas entre 20 de setembro e 4 de outubro): a crise era assustadora, mas de tão assustadora acabou sendo funcional para a campanha de Fernando Henrique.

Dia 12/9, sábado

Jornal do Brasil

Bolsas sobem em dia calmo e

saída de dólares continua alta

Folha de S. Paulo

Bolsa reage, mas dólar continua a sair

O Estado de S. Paulo

G-7 e EUA podem socorrer Brasil

O Globo

Juros altos e aval de EUA e FMI

reduzem pressão sobre o país

Nesse mesmo dia, em que não havia panorama róseo, o Jornal Nacional falava de outro país:

Jornal Nacional, Rede Globo – 12/9/98

Socorro a pescadores na cidade de Rio Grande, RS.

Clinton – popularidade em alta nas pesquisas, mas editoriais do New York Times e do Washington Post pedem degola.

Casamento coletivo em Minas Gerais graças a ação do Procon.

Jovens agora têm dinheiro eletrônico.

Fórmula 1.

Futebol.

Só texto: funcionários do Incra que haviam sido seqüestrados no Rio Grande do Norte por sem-terra são libertados.

Um bicho, a cuíca, salva a Mata Atlântica em Pernambuco. (É o “boa-noite”.)

Dia 13/9, domingo

Jornal do Brasil

Luiz Paulo cresce e Rio

pode ter segundo turno

Folha de S. Paulo

FHC articula pacto contra a crise

O Estado de S. Paulo

Mercado pede

ajuste fiscal

com urgência

O Globo

BC diz que ainda tem

armas contra crise

Dia 14/9, segunda-feira

Jornal do Brasil

Torre de Furnas

é sabotada com

dinamite no Sul

Folha de S. Paulo

País espera

ter apoio na

reunião de

hoje do G-7

O Estado de S. Paulo

Sabotagem reduz fornecimento de energia

O Globo

EUA querem

discutir no G-7

a crise na

América Latina

 

Jornal Nacional, Rede Globo – 14/9/98

20h – Manchetes:
– bomba em torre de Furnas interrompe Itaipu

– Rafael, do conjunto Polegar, preso por assalto; uso de drogas

– A luta dos deficientes físicos

– Governo britânico quer controlar todos os cidadãos

– Clinton aparece em cena suspeita com jovem na Casa Branca

– Casa Branca apela para que países ricos ajudem países pobres

– Bolsas começam a semana em alta

20h01 – Reportagem sobre bomba em torre de transmissão de energia elétrica. Repórteres em Nova Tebas, Paraná, e no Rio de Janeiro (sede de Furnas). Duração de 3 minutos e meio.

20h04m30 – Rafael Alves Pereira era cantor de grupo mirim e virou bandido. Em São Paulo. Duração de 2 minutos.

20h06m30 – Chamadas:
– Cadeia para um falsificador de remédios

– A Justiça vai ao povo para decidir as questões na hora

20h08m40 – Preso em Belo Horizonte dono de distribuidora que vendia remédio falsificado contra o câncer. Duração de meio minuto.

20h09m20 – Tribunal itinerante funciona na periferia de São Paulo (possível entrever símbolos do governo de São Paulo). Duração de 2 minutos e meio.

20h11m50 – Mulher vai conhecer sepultura no São João Batista e morre em acidente de automóvel. Duração de meio minuto.

20h12m20 – Chamadas:
– Os prédios que se transformam em armadilhas

– Um rosto suado se transforma em novo capítulo no escândalo de Bill Clinton

20h13m40 – Só texto. Gerente do Iate Clube de Vitória diz que área da regata em que Lars Grael perdeu a perna estava perfeitamente demarcada. Duração de 20 segundos.

20h14 – Osasco, onde shopping explodiu e templo da Igreja Universal desabou, está sempre em perigo. Há na cidade centenas de prédios sem saídas de emergência, por negligência da prefeitura. Caco Barcelos mostra escolas onde não é possível encontrar as saídas de emergência para caso de incêndio. (Reportagem que prejudica Rossi, do partido de Brizola.) Duração de 2 minutos.

20h16 – Meteorologia. Duração de 25 segundos.

20h16m30 – Clinton e outra moça (depois de uma corrida, em 1993). “Programa sensacionalista da TV americana”. “Casa Branca: a moça é amiga antiga da família e estava com sede depois da corrida”. Duração de um minuto e meio.

20h18 – Chamadas:

– Presidente americano pede que as grandes potências ajudem a América Latina

– País que quer vigilância total sobre habitantes

20h20m20 – Presidente dos EUA convoca países desenvolvidos a ajudar América Latina. Discurso estimulou a alta das bolsas e a valorização dos títulos brasileiros. Gustavo Franco festeja iniciativa americana. Bolsas sobem. Mercado tranqüilo o suficiente para venda do Bemge com ágio de 85,5%. Governo parecia mais aliviado, mas amanhã haverá reunião da comissão encarregada de estabelecer corte de gastos do governo. Duração de um minuto e 50 segundos. [Globonews, 22h: saíram do país 800 milhões de dólares.]

20h22m10 – Justiça suspende despejo de ácido no porto de Rio Grande, RS. Imagens antigas. Duração de 10 segundos.

20h22m30 – Ameaça de vigilância total sobre o cidadão. Controle se dará via telefones celulares, mesmo desligados, e provedores de acesso à Internet. Relatório da Comissão Internacional de Juristas condena: Justiça contra espionagem da vida do cidadão. Matéria “fria” feita de Londres. Duração de um minuto e 40 segundos.

20h24m10 – Chamadas:
– Barreiras no caminho dos deficientes vão muito além do preconceito

– Preservar espécies ameaçadas ajuda a salvar a Mata Atlântica

20h26m30 – Como melhorar a vida de 15 milhões de pessoas no Brasil. (Emocionante, mas só problemas, nenhuma solução.) Duração de um minuto e meio.

20h28 – Florestas estão sendo salvas por ambientalistas de Minas Gerais. (É o “boa-noite”.)

Algumas considerações.

Existem curvas horárias de idiotização da TV em rede aberta (dos dias úteis, dos sábados e dos domingos).

O máximo de inteligência geralmente é no início da manhã, quando o mínimo de gente da “base da pirâmide” social vê televisão. O mínimo é logo em seguida, durante os programas “infantis” (que Deus nos perdoe). Há uma subida na hora do almoço (noticiários), nova queda, subida na hora do jantar (noticiários), quedas diferenciadas segundo as emissoras (novela na Globo, zoológico nas outras), na Globo uma subida no horário do Jornal da Globo, quando, novamente, pobre está dormindo. Tudo isto num levantamento preliminar, feito apenas ad argumentandum tantum.

É necessário perceber claramente as diferenças. Por exemplo, entre jornalismo de rede aberta de televisão e de TV por assinatura. Daí advém uma dificuldade teórica: generalizar; extrair um sentido geral do movimento.

Método proposto:

– Levar em conta a lógica da prática. A prática das máquinas: Jornal Nacional, capas de jornais (e revistas). Aí se condensa todo o mecanismo. Mas, novamente, cuidado para não perder de vista as diferenças.

– Refazer a trilha da máquina, seguir sua lógica, mas com velocidade inversa. Aquilo que se lê ou se vê rapidamente, ler-se ou ver-se detidamente. Por exemplo: títulos, fotos, legendas.

O “crime” está fartamente documentado. Veja-se o que aconteceu com o noticiário da seca em fins de maio.

Precisamos passar para a etapa seguinte. Quais são os melhores caminhos para enfrentar a situação? Reforma política, reforma eleitoral, nova atitude da cidadania.

Não adianta apenas dizer que há facciosismo e desequilíbrio no noticiário. É o óbvio. Acontece que o equilíbrio, se houvesse, também não resolveria: a não ser que haja cataclismo, não existe alternativa para o oficialismo. Existe, sim, toda uma gama de cálculos e ações dentro de um quadro bem pobre. Ninguém discute esse quadro, o tamanho da moldura.

Coda: fui virar a capa da Folha, antes de me desfazer dela, encontrei ponderação de Mangabeira Unger da melhor qualidade: é preciso haver muita discussão para se chegar a uma união nacional. Não entro no mérito da proposta de união nacional, fico com a necessidade de discussão. E este é o ponto crítico. A mídia, tal como montada hoje, abafa a discussão. Na melhor das hipóteses, empobrece-a miseravelmente.

 


Margarethe Born (*)


A

meu ver, o melhor espaço de debate político brasileiro nesse momento dá-se no plano econômico e no internacional. Para uma análise das relações entre mídia e política, portanto, é preciso ir além do que as editorias de política estão mostrando.

Quando a campanha consegue ultrapassar a demagogia e a mesmice e passa ao terreno das idéias, boa parte da débacle eleitoral entre FHC e Lula centra-se hoje na crise econômica internacional e na avaliação das medidas mais corretas para proteger nossa economia.

Lula acusa FHC de privilegiar interesses eleitoreiros e de pintar um cenário róseo, tendo evitado medidas impopulares necessárias (leia-se desvalorização da moeda) logo que a tormenta assomou no horizonte.

Toda a campanha de FHC optou por ignorar o cenário internacional, ao ponto de assessores do presidente terem afirmado que “a crise das bolsas é problema do governo, não é problema do povo”.

FHC revida questionando a competência de Lula para avaliar o tamanho da crise. Tenta dar lições de otimismo e diz que o cenário internacional não é tão desfavorável assim. A crise internacional transforma-se, do ponto de vista do atual governo (e de boa parte da mídia), na “crise russa” – uma crise localizada (e bem longe daqui), com inevitável evocação do fracasso socialista em pano de fundo. As últimas edições de Veja reforçam o argumento.

FHC tem a tranqüilidade do respaldo de Washington e de que, em último caso, talvez o deixem raspar o tacho do FMI – se a Rússia não levar tudo. Aliás, para nós, é aí, principalmente, que estaria “o temor que vem da Rússia” (título de Veja, 2 de setembro).Mas o presidente americano Bill Clinton já avisou ao líder Boris Yeltsin que a fonte vai secar.

Curiosamente, não é só o destino de FHC que parece amarrar-se à economia e ao cenário internacionais. Também Clinton, desde que se meteu na corda-bamba do caso Lewinsky, passou a depender de imagens de estabilidade e prosperidade interna para garantir seu final de mandato.

O presidente do Fed (banco central americano), Alan Greenspan, já sinalizou com uma queda dos juros. Trata-se agora de ressuscitar o cadáver político da Clinton após esse sexgate. Já houve uma primeira tentativa, à base de movimentação internacional na Rússia e na Irlanda. com o apoio de Tony Blair.

Mas o peso dessa movimentação como fator de virada na opinião pública americana é duvidoso. Não é de hoje que governantes criam ou exploram conflitos externos na tentativa de amenizar crises internas.

Vejam Fujimori na guerra Peru-Equador e o próprio Clinton na (fracassada) tentativa de acirrar o conflito com o Iraque. Parece que, para Clinton, a melhor chance de virada está mesmo é no cenário interno, dependendo do que o Sr. Alan Greenspan faça com a política do Fed. Afinal, turbulências econômicas que sacolejam o poder em países da periferia também podem repercutir nos índices Dow Jones. E o americano médio é mais ligado ao mercado financeiro do que qualquer brasileiro.

Pode-se dizer que o sucesso de FHC na campanha depende de como ele vai conseguir monitorar os efeitos da crise internacional ao nível da economia interna. Pedro Malan e Gustavo Franco são, nesse momento, seus melhores cabos eleitorais.

Ainda assim, os assessores de campanha de FHC jogam também com a sua imagem de “presidente-chanceler”.

No horário gratuito da TV, FHC aparece como grande figura do cenário internacional ao lado de governantes europeus. Pergunta-se ao eleitor qual candidato brasileiro teria igual estatura. O mote é mais ou menos assim: “Os EUA têm Bill Clinton, a Grã-Bretanha tem Tony Blair, a Alemanha tem Helmut Kohl, a França, etc. etc. E o Brasil?”

Uma imagem de um FHC pacifista e mediador foi construída à época em que se dispôs a mediar o conflito entre Peru e Equador e, depois, quando interferiu nas eleições paraguaias. Mais recentemente, disputou com Lula o abraço de Nelson Mandela diante dos fotógrafos. E o de Fidel Castro.

A idéia de compensar desprestígio interno por brilho internacional também se aplica à atual campanha do chanceler Helmut Kohl pela reeleição na Alemanha, em 27 de setembro. Kohl tenta reabilitar uma imagem desgastada pelo desemprego e pelos pesados encargos da reunificação. Lança mão dos bilhões que jogou na economia russa e do vigor que ainda demonstra na condução da política européia. Seu concorrente, o social-democrata Gérard Schroeder, não tem expressão internacional.

Para o povo brasileiro – que vai pagar a conta quando vierem as medidas duras – é difícil vender o charme de um FHC como premiê ou chanceler. Como para Clinton, é o prestígio das medidas tomadas ao nível interno que pode decidir a eleição. Embora a crise das bolsas interesse a toda a sociedade, o eleitor quer saber é do seu bolso e de como vai pagar as contas no final do mês. A estabilidade do real ainda é o melhor argumento de campanha.

O que FHC não explica é como vai continuar garantindo o seu “real forte” diante das pressões da balança de pagamentos, clamando por incentivo às exportações (um real desvalorizado barateia nossos produtos no mercado externo) e diante da fuga de dólares dos investimentos voláteis (se a moeda americana rareia, sobe seu valor em relação ao real). O que FHC não explica é como vamos nos livrar da dependência do capital externo.

A disputa maior, portanto, continua a acontecer no território da política econômica. Quem quiser entender melhor o papel da mídia na atual campanha política tem que passar pela análise do cenário econômico internacional. Tal como ele é representado em matérias como as de Veja, nas últimas edições.

(*) Chefe do Departamento de Comunicação Jornalística da PUC-SP

 


“Textos e títulos sobre pesquisa Datafolha publicados ontem na Primeira Página e nas págs. Especial 1 e Especial 5 (Eleições) afirmam equivocadamente que 47% dos eleitores ouvidos pelo Datafolha desaprovam ações do governo federal contra a crise financeira internacional. Na realidade, 45% são contrários às medidas. No texto Rossi cai e fica em 2º com Covas, na pág. Especial 3, foi informado incorretamente que o candidato Francisco Rossi (PDT) caiu de 27% para 19%. Na realidade, a intenção de voto no pedetista passou de 25% para 19%.
Na edição do Folhateen do dia 14/9, há incorreções na reportagem Participação política está em baixa, na pág. 7-5, que utiliza pesquisa Datafolha sobre intenção de voto. No item rejeição, o candidato Orestes Quércia (PMDB) não é o menos citado pelos jovens de 25 a 34 anos, mas menos citado do que nas outras faixas etárias da pesquisa. Quércia teve 40% de rejeição entre os eleitores da faixa de 25 a 34 anos, e não de 25 a 40 anos, como foi publicado. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) teve 47% de intenção de voto na faixa de 25 a 34 anos, e não de 25 a 35 anos. No quadro que acompanha o texto, Thereza Ruiz (PTN) tem 15% de rejeição, e não 3%.”

“Erramos”, copyright Folha de S. Paulo, 17/9/98

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