Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > SALVE JORGE

Villas-Bôas Corrêa

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

SALVE JORGE

"Depoimento da gratidão", copyright no. <www.no.com.br>, 7/8/01

"Não sei se os moços de hoje, na trepidação do mundo globalizado, com a sedução da Internet, das múltiplas ofertas da televisão, das disparadas em carros e motos, com as facilidades de locomoção e a alucinante velocidade das mudanças conseguem vagares e a reserva de ingenuidade para a fascinante experiência de vida da descoberta da literatura.

Discutível privilégio preservado na memória dos velhos, que a morte de Jorge Amado me fez reviver e registrar neste depoimento emocionado.


O hábito da leitura

A paixão da leitura, que me escraviza há mais de seis décadas dos meus 77 anos e meio, brotou com a alfabetização do curso primário, ali pelo segundo ano. Com a inevitável iniciação pelas raras revistinhas infantis, com desenhos e diálogos bobocas. Colecionadores cuidadosos e bibliotecas conservam exemplares para a consulta de improváveis interessados.

Das histórias em quadrinhos e dos primeiros livros em voga de aventuras, de capa e espada, de Tarzan, saltei para o deslumbramento dos livros de Monteiro Lobato. E foi uma revelação, o choque de disparar os batimentos cardíacos e uma intimidade de anos. Anunciado o lançamento de novo livro, contávamos nos dedos os dias para a delícia da compra do exemplar e mergulhar na leitura, de uma assentada, da primeira à última página. Esquecendo a fome, perdendo a hora do almoço, do lanche, do jantar, espantando o sono pela ansiedade de chegar ao fim. E, quantas vezes, emendando o bis da releitura, cacoete que nunca perdi.


De Lobato a Jorge Amado

De Monteiro Lobato, sem jamais abandoná-lo, em fidelidade que se prolongou na sua obra para marmanjos, atravessei a ponte para Jorge Amado. Não posso precisar, tantos anos decorridos, o primeiro livro que li da saga baiana do desbravamento e das lutas pela conquista da terra, da série que se inicia em 1933 e se estende até 1946.

Da linguagem solta, no estilo do excepcional contador de história e criador de tipos, com a força do Antônio Balduíno, o negro boxeador de Jubiabá; ao falso, mas fascinante menino de rua Pedro Bala, de Capitães de Areia, dos coronéis implacáveis, dos jagunços, das prostitutas e da procissão de pobres, miseráveis, explorados que desfilam na eterna marcha da miséria.


Viagem pela Bahia

Espichei a magreza de garoto a rapaz cultivando o encanto intacto por Jorge Amado. Na expectativa do novo livro, na empolgação da leitura de um fôlego. Viajei por Terras do Sem Fim; percorri toda a ?Seara Vermelha?, banhei-me nas águas do Mar Morto, conheci São Jorge dos Ilhéus. Numa prateleira da modesta biblioteca na minha casa de Nova Friburgo, perfilam-se, com o luxo de encadernações, os velhos exemplares das primeiras edições e da segunda, dos romances que popularizam a Bahia e imortalizam tipos inesquecíveis. Com algumas falhas de alguns dos últimos livros que esqueci de comprar e de outras tantas de volumes emprestados e não devolvidos ou surrupiados pelos descuidistas.

Com o amadurecimento, o interesse pela crítica literária, a ampliação do círculo de leitura aos autores portugueses, espanhóis, franceses, russos, ingleses, americanos, latinos, se passei a ler com outros olhos a Gabriela, recendendo a sensualidade, a cravo e a canela; o Quincas Berro d’Água da novela de enredo tão envolvente quando a do capitão de longo curso Vasco Moscoso do Aragão; e a dengosa e luxuriante Dona Flor, nas transas com seus dois maridos, nunca perdi o encanto nem abafei a emoção de leitor fiel aos seus deveres e compromissos com a gratidão.


Vício abençoado

Claro que a minha galeria de escritores favoritos não cabe nas paredes de uma sala. A reeleitura das obras completas de Machado de Assis, de Eça de Queiroz, de Graciliano Ramos, de Guimarães Rosa são persistentes e prazerosas lições de estilo.

Mas, devo a Monteiro Lobato, ao velho Eça da minha abençoada mania e ao baiano Jorge Amado o despertar da paixão da leitura, o vício que me acompanha pela vida e do qual nunca tentei curar-me."

 

"Dois mortos", copyright O Globo, 11/8/01

"?Só é universal quem for profundamente nacional?, diz Ariano Suassuna, exemplificando com Cervantes, Camões e Shakespeare. Poderia acrescentar à lista ele mesmo, que é um português nordestino, pronto a pegar no bacamarte para caçar o batavo pelos sertões, e, sobretudo, Jorge Amado, síntese desse misturado povo baiano, o mais brasileiro de todos, exceto, talvez, os mineiros.

Podem estranhar que eu escreva hoje, num s&aacuaacute;bado, sobre dois grandes mortos, pois costumo reservar os sábados para contar coisas boas, do Brasil que o seu povo constrói, movido pela generosidade e pela esperança. Mas a morte faz parte da vida. É a renovação da natureza, inevitável como o nascimento, ainda que mais perene. Só morre de verdade quem é esquecido e nenhum dos meus dois personagens de hoje, Jorge Amado e Betinho, corre tão cedo esse risco. Amado menos que Betinho, porque o seu ofício era trabalhar o mais imorredouro tema da humanidade, que são as paixões, os ódios e os conflitos da alma humana.

Tive a sensação da perenidade das palavras andando pelas ruínas gregas de Siracusa. Os templos tombaram com o tempo, os deuses morreram, mas, no teatro, representava-se naquela noite a tragédia ?Medéia?, de Eurípedes, com o mesmo intacto texto que foi pela primeira vez encenado num teatro de Atenas, 2.600 anos antes. É possível que as obras de Jorge Amado não durem tanto como as dos autores do teatro grego, mas, traduzidas em 38 línguas, inclusive 12 da antiga União Soviética, certamente serão ainda lidas por várias gerações.

Tive com Betinho um convívio mais freqüente do que com Jorge Amado, mas de Jorge guardo a inesquecível lembrança de uma tarde perambulando pelo velho Mercado Modelo de Salvador, que um incêndio destruiu. Contava, divertido, que um transatlântico italiano aportara em Salvador, trazendo a bordo o conde Lambretta, fabricante da minimotocicleta que fez tremendo sucesso no pós-guerra. Lambretta ficou radiante com a popularidade de que gozava na cidade. Descobriu que dera o nome a um petisco local, uma conchinha dupla, que os baianos apimentavam com molho e faziam acompanhar de uma talagada de cachaça. Os balcões dos bares do mercado ficavam com meio metro de casquinhas pelo chão.

?O conde se entusiasmou tanto que foi carregado de volta ao navio, completamente de porre?, contou Jorge, com um riso malicioso.

Andar com Jorge pelo mercado era um caminhar constantemente interrompido pelos abraços das baianas e a prosa dos vendedores, que o conheciam todos e por ele eram também reconhecidos. Parecia candidato a vereador em campanha.

Política foi a nossa última conversa, no Rio. Fui lhe levar um manifesto de intelectuais contra a tortura e a violência policial. Ele assinou logo e me autorizou a incluir seu nome nos manifestos do gênero que acaso fossem necessários. Felizmente nunca precisei usar essa procuração verbal.

O quarto aniversário da morte do Betinho, 9 de agosto, foi lembrado por manifestações contra a fome e mobilizações pela cidadania em diversas cidades. Nosso mais conhecido santo cívico tem um número crescente de adeptos e sua lembrança continua a servir de inspiração aos milhares de brasileiros dispostos a investir voluntariamente seu tempo e seu talento na tarefa de melhorar a vida dos mais pobres. A campanha Criança Esperança é um espetacular exemplo dessa disponibilidade.

Na quarta-feira, uma delegação de entidades dedicadas à promoção da cidadania e ao combate à fome teve uma audiência com o presidente da Câmara, Aécio Neves. Os representantes do Coep, comitê de entidades de combate à fome e pela vida, do Ibase, instituto criado pelo Betinho, da CNBB, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs e do Fórum de Segurança Alimentar apresentaram um projeto de lei criando o dia nacional de mobilização pela vida, em homenagem ao Betinho, quando os três poderes da República, incluindo órgãos da administração direta, fundos especiais, autarquias, fundações e empresas públicas, deverão apresentar um balanço social, referente ao que fizeram no ano anterior pela valorização da vida e pela dignidade da pessoa humana. Nesse balanço deverão estar incluídas informações relativas a recursos desembolsados e resultados referentes a iniciativas voltadas para a população de baixa renda, no atendimento aos direitos sociais incluídos no artigo 6 da Constituição, ou seja, educação, saúde, trabalho, lazer, segurança, previdência, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados.

As entidades esclarecem que a criação do dia de mobilização social busca transformar a luta contra a fome e a miséria na prioridade número um. Aécio aceitou a proposta e pretende transformá-la num projeto de lei da própria Mesa, o que deve acelerar a tramitação."

 

"Não se deve amar sem ler Amado, copyright O Globo, 11/8/01

"É difícil falar de Jorge Amado depois de tudo o que já foi dito, mas é também impossível deixar de falar, para quem, como eu, nasceu junto com o seu primeiro grande livro, ?O país do carnaval?, de 1931. Minha geração foi criada aprendendo a ler a vida e o Brasil em sua obra.

Nos seus livros, nos encharcamos das cores, dos odores e dos sabores brasileiros. Ali lemos os primeiros palavrões, descobrimos a força da sensualidade e do erotismo, aprendemos que era bom fazer sexo com raparigas, que eram lindas as mulheres da vida, que havia injustiça social, que se devia derrubar os preconceitos. Cheia de excluídos quando nem se usava o termo, era a nossa maior obra literária de inclusão.

Quando se negava o Brasil sem saber bem o que ele era, Jorge Amado nos ajudou a descobri-lo. Ele nos ensinou o país e trouxe povo para a cena, não por meio de lições ou conceitos, mas pela emoção e pelo afeto, por seus personagens e suas histórias, pela fabulação. O seu grande ensinamento foi pelo imaginário.

Ele foi o primeiro grande escritor a fazer a opção preferencial pelo leitor, não pela crítica; pelo povo, não pela elite. Nunca chegou a ser totalmente perdoado por isso. Sempre houve quem torcesse o nariz para um certo cheiro que emanava de seus romances: de mistura de raças, de miscigenação e sincretismo.

Num autor de mais de 30 romances e 500 personagens, preferiu-se às vezes enfatizar os pontos fracos a exaltar os pontos culminantes. Muitos dos clichês e lugares-comuns que se julga encontrar na obra de Jorge Amado só o foram depois de usados por ele. Curiosamente, boa parte da crítica que nega suas qualidades literárias quase sempre o faz por meio de seus próprios estereótipos e lugares-comuns, acusando-o de populista, conformista, folclórico, repetitivo, não-experimental, conservador.

Diga-se o que quiser, mas a obra de Jorge Amado foi uma revolução. Numa época em que o Brasil não aceitava o fato de que era um país mestiço e que até intelectuais mulatos, como Sílvio Romero, Nina Ribeiro e Tobias Barreto, temiam que o sangue mestiço proliferasse no país, inquietando-se pelo futuro de uma nação de raças mistas, foi o criador de teresas, gabrielas e tietas quem contaminou o nosso imaginário, que contagiou a nossa alma coletiva com as imagens da miscigenação. Se foi Gilberto Freyre o primeiro a nos dizer que racialmente éramos o que éramos; foi Jorge Amado quem nos ?mostrou?, nos fez sentir na carne como isso era bom.

Em 1994, João Salles fez um documentário, ?Jorge Amado?, em que há revelações que não vi publicadas. Por isso, resolvi transcrevê-las. Eis algumas:

? Uma vez um crítico querendo diminuir minha literatura disse que eu não passava de um romancista de putas e vagabundos. Nunca ninguém me fez um elogio maior. Eu sou um romancista de putas e vagabundos.

? A ideologia você quer saber o que é? É uma merda.

? A minha novelística nos seus inícios é extremamente marcada por uma condição limitada. Os ricos são ruins, os pobres são bons. A vida não é assim. A vida é bem mais complexa.

? Toda a primeira parte de minha obra traz um discurso politico que é uma excrescência. Nós éramos stalinistas, terrivelmente stalinistas. Para mim, Stalin era meu pai, era meu pai e minha mãe. Para Zélia, a mesma coisa.

? Num momento, o que o partido fez, sem querer provavelmente, foi acabar com o Jorge Amado escritor para ter o militante Jorge Amado.

? Eu sou um velho brasileiro. Isso significa que tenho todos os sangues.

? As meninas brasileiras eram inocentes, não sabiam as coisas. As francesas nos ensinaram o refinamento do sexo.

? No fim do ano de 55, eu soube que a polícia socialista torturava os presos políticos tão miseravelmente quanto a polícia de Hitler. O mundo caiu sobre minha cabeça.

? Meus amores (na juventude) não foram com donzelas, foram com raparigas, com mulheres-damas.

? Quando eu era rapaz de 18, 20 anos, a perseguição religiosa contra as demais religiões que não fossem a católica, sobretudo as de origem africana, eram na base da violência a mais total e completa. Eles invadiam as casas de santo, levavam presos os pais-de-santo e as mães-de-santo. Eu sou Obá de Xangô não é por acaso. Porque desde aqueles tempos eu me bati contra esses preconceitos religiosos.

? Eu aprendi que só há uma maneira possível de terminar com isso (com o racismo) , não é uma maneira fácil: é na mistura de sangue, na mistura de raça, na mistura de credos, na mistura de culturas que um dia vai chegar aí. Disso eu estou inteiramente convencido.

Por tudo isso é que a perda de Jorge Amado nos dá a sensação da perda também de um pedaço enorme do Brasil. Enterramos uma de nossas mais generosas porções. Ele amou esse país tanto quanto foi amado."

    
    
              

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