Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > JOGOS DE PALAVRAS

Virgilio Abranches

Por lgarcia em 06/01/2004 na edição 258

JOGOS DE PALAVRAS

“Metáforas do presidente contaminam fala dos ministros”, copyright Folha de S. Paulo, 28/12/03

“?O Brasil está na reta final para deixar a segundona, chegando à primeira divisão dos investimentos.? Não, apesar do estilo metafórico, a frase não é do presidente Lula em mais uma tentativa para explicar as medidas de seu governo recorrendo ao futebol. O autor é o secretário do Tesouro, Joaquim Levy, um dos nomes fortes do ministério da Fazenda.

Assim como Levy, outros nomes do alto escalão do governo gostaram da idéia e, pouco a pouco, transformaram as discussões de políticas públicas em jogos de palavras. Como no caso de Lula, o futebol é a principal fonte de inspiração. O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, encarou os países que mantêm o protecionismo aos produtos agrícolas como adversários no gramado. Em julho, garantiu: ?Eles vão levar bola nas costas?.

No mesmo time de Rodrigues joga o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, que, além de participar das formulações da mesa-redonda federal, ainda ?escalou? um outro colega: ?O ministro da Fazenda, num time de futebol de 11, é o goleiro. Tem de cuidar para não tomar gol dos adversários e, de vez em quando, não tomar gol contra?, disse em novembro, sobre as ?defesas? de Antonio Palocci Filho na área econômica.

Se no time de Lula tem goleiro que ?pega todas?, tem também jogador que pede para não sair, ergue os braços e reclama: ?O presidente é o técnico do time. Enquanto eu estiver escalado, continuo jogando?. Foi o que disse o ministro José Graziano (Segurança Alimentar), neste mês, sobre a reforma ministerial.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, também entrou na onda para driblar a marcação da opinião pública sobre a política monetária: ?Muitas vezes estamos perto do fim de um jogo de futebol, há um pênalti para ser batido, e o jogo está empatado. Evidentemente isso configura uma possibilidade grande de vitória, mas o pênalti tem de ser batido corretamente, eficazmente e com categoria porque a vitória comemorada antes de sua batida pode levar, inclusive, o chute para fora?, declarou.

?É o efeito ?Lula-Mendonça?, diz o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, da Unicamp: ?É uma preocupação em falar linguagem popular para manter uma falsa interlocução com as massas?.

Mas os que não gostam de entrar em campo também têm vez no governo. Benedita da Silva (Assistência Social) mostrou, neste mês, que sabe associar o trabalho do governo às tarefas do dia-a-dia. Ao defender que a equipe de Lula está construindo o socialismo no Brasil, ela declarou: ?O sal fora da massa não tem efeito, é como fermento fora da massa?. Os afazeres domésticos também inspiram o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos: ?Reprimir sem prevenir equivale a secar o chão com a torneira aberta?, disse em setembro.

?É uma contaminação?, analisa Garcia dos Santos. ?Eles acham que isso está dando certo com o Lula porque ele, apesar de fazer uma política antipopular, mantém uma taxa de popularidade muito alta?, opina.

Se na visão dos colegas Palocci é um goleiro, o próprio faz questão de não se distanciar de sua profissão de origem. Em outubro, para conter os ânimos entre o secretário e o corregedor da Receita, ameaçou: ?Vocês sabem que sou cirurgião e sei cortar?.

O ministro Gilberto Gil (Cultura), num discurso, invadiu a área da colega Marina Silva (Meio Ambiente): ?Tenho insistido na idéia de que este governo deve praticar diariamente a fotossíntese política, trabalhando sempre à luz do dia, sem filtros ou anteparos de qualquer natureza?. Outro que buscou inspiração na área alheia foi Cristovam Buarque (Educação), ao explicar o novo sistema de avaliação dos cursos superiores. ?Tem doente que acha que basta tirar a temperatura para ter o diagnóstico. Antigamente, o provão tirava apenas a temperatura do doente. Agora, vamos apresentar o diagnóstico completo e dar a receita?.

Para Alessandra Aldé, professora da Universidade do Estado do Rio, usar figuras de linguagem é uma saída para quem não quer ser cobrado pelo que diz. ?Quando se usa uma metáfora, tem-se um grau menor de comprometimento. Não dá para as pessoas cobrarem objetivamente um discurso metafórico.?”

“Bando de palavras”, copyright Jornal do Brasil, 29/12/03

“?Eu os identifico todos. E são muitos deles os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar.?

Era agosto de 1964. Ocupava a presidência da República o marechal Humberto de Alencar Castello Branco.

Algumas palavras cumprem temporadas em nossa vida política. É o caso de ?impeachment?, designando o recurso que derrubou o então presidente Fernando Affonso Collor de Mello, mesmo depois de apresentar renúncia, em 29 de dezembro de 1992.

?Impeachment? é palavra estranha à língua portuguesa, mas, à semelhança de outras, vindas de outras línguas, não pode ser traduzida. É também o caso das palavras latinas ?habeas corpus?, que fizeram escala no inglês, antes de chegarem ao português. E o inglês não as modificou para designar conhecida ação judicial que tem o fim de evitar que o direito de liberdade e de locomoção seja lesado ou ameaçado por ato abusivo de autoridade, segundo nos informa o dicionário Houaiss.

Estamos em dezembro de 2003. Ocupa a presidência da República o paisano Luiz Inácio Lula da Silva. Não está no cargo por obra de revolução, golpe, arruaça, baderna, sebaça, confusão ou qualquer outra palavra que designe rompimento da ordem constitucional. É o segundo, desde 1960, a ali chegar eleito pelo povo.

Em almoço de fim de ano no Clube do Exército, em Brasília, no último dia 15, diante de 140 generais, o presidente Lula, referindo-se aos militares, pronunciou a palavra ?bando?.

Será que ?bando? espalhou ?cizânia? e causou ?celeuma? entre os militares, ?atentando? contra os valores mais sagrados da instituição encarregada de zelar pela pátria? Será que foi intenção do presidente ?destilar? a ?insidiosa? ?peçonha? da ?perfídia? no ?seio? do Exército?

Estão entre aspas no parágrafo anterior palavras que surgiam ou ressurgiam com insólita freqüência em denúncias assinadas por baixas, médias ou altas patentes militares, que atendiam a ?vivandeiras alvoroçadas?, que vinham aos ?bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar.?

O general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, chefe da Comunicação Social do Exército, assinou interpretação que atenua a polêmica: ?fica evidente que não houve, por parte do senhor presidente da República, ao empregar o termo bando, nenhuma intenção de dar-lhe sentido pejorativo?.

Com efeito, ?bando? às vezes é pejorativo; outras vezes, não. Mas quando é e quando não é? Nenhuma gramática pode ter a onipotência de definir o contexto. Há, não apenas a intenção de quem a pronunciou, mas também a intenção de quem, ao ouvir ou ao ler a declaração do presidente, quis dar-lhe outro significado.

A palavra ?bando? procede do gótico bandwa, sinal, marca, bandeira ou senha que identificava um grupo. Dali viajou para o latim tardio bandum, conservando alguns significados e alterando outros. Os grupos armados dos povos que Roma combatia, às vezes não passavam realmente de bandos de malfeitores. Quando, porém, eventualmente agregados às tropas vencedoras, o bando era redimido.

Por fim, um bando de pássaros não é um bando de pássaros malfeitores. Pode ser um bando de inocentes pombas, símbolos da paz e não da guerra. E cabe aos que têm mais escola o esforço de entender quem teve menos. E não o contrário. O povo usou outros critérios para avaliar o então candidato. Um deles é que o presidente Lula fala de um modo que o povo entende. Se fizesse a campanha com o português do marechal Castello Branco ou o das denúncias obtidas pelas vivandeiras (fofoqueiras) que o procuravam para endurecer o regime, quem o entenderia?”

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