Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > 5)

Virtudes-fantasma

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

RBS NA BERLINDA

Alexandre Bach (*)

Tenho sofrido com a mediocridade de algumas “análises” feitas por estudantes e profissionais da imprensa em relação ao trabalho dos jornalistas aqui no Rio Grande do Sul durante o governo Olívio Dutra. Apesar do sofrimento, confesso que, em alguns momentos, são bem divertidas.

Mas também não posso sofrer nem me divertir quando vejo um fato envolvendo o meu trabalho (e, principalmente, o trabalho de uma equipe comandada por mim) ser deturpado ao sabor de interesses. O Sr. Rafael Limberger, que parece ser estudante de Jornalismo (aliás, não vai passar disso se continuar citando fatos sem ter o compromisso com a apuração dos mesmos, pedra basilar da profissão), em artigo desta semana, pede a um colega para lembrar “a volta da editoria de polícia justamente no governo Olívio (lembramos que no anterior a editoria policial havia sido banida)”. Quer, com isso, mostrar a má vontade de Zero Hora com o atual governo.

Pois exatamente durante três dos quatro anos do governo anterior, de Antônio Britto, fui editor de Polícia na Zero Hora, numa reformulação proposta por Augusto Nunes quando andou por aqui. E não me consta que fui funcionário-fantasma da empresa, a menos que o OI julgue necessário que o próprio Augusto confirme isso.

Saí da editoria de Polícia no último ano do governo Britto para integrar a editoria de Política. E meu cargo foi ocupado por outro colega. Na época, tínhamos uma equipe fixa de seis pessoas (um editor, um subeditor e quatro repórteres). Hoje, por força de uma outra mudança editorial, feita no início do governo Olívio Dutra, a equipe fixa de Polícia de ZH é de três pessoas (um editor, um subeditor e um repórter). Se o Sr. Limberger se der o trabalho de usar um pouco da matemática, concluirá que durante o governo Olívio houve, sim, uma diminuição na editoria de Polícia de Zero Hora. E nunca um banimento.

Como manda o figurino

E para não dizer que não falei de flores ou que fiz jornalismo-fantasma no comando de uma equipe-fantasma: durante o governo Britto noticiamos, com o devido destaque que as situações mereciam:

1) A onda de assaltos a carros-forte com fuzis AR-15 em diversos pontos do Rio Grande do Sul (uma modalidade de crime que não era comum aqui no estado no fim dos anos 90).

2) A crise gerada entre a Brigada Militar e a Polícia Civil com a falta de policiais pelas ruas de Porto Alegre (que acabou na demissão do chefe da Polícia Civil, depois de um debate com um coronel da Brigada Militar num programa da Rádio Gaúcha).

3) A intervenção da Brigada Militar nos presídios para conter as rebeliões (operação que foi arduamente criticada pelo PT e pelos Direitos Humanos, mas mantida durante todo o governo Olívio).

4) As fugas de presos do Palácio da Polícia, onde ficavam as principais delegacias da Polícia Civil e o gabinete do chefe da corporação (uma destas fugas, inclusive, com a ajuda de um policial civil ainda em estágio probatório, que só foi apurada porque o jornal denunciou a armação que estava sendo feita para proteger o policial).

5) A onda de seqüestros-relâmpago, uma modalidade de crimes que ganhou força aqui e foi abafada pelas autoridades com a anuência de vítimas endinheiradas (e que só foi tornada pública quando um repórter da editoria conseguiu confirmar a história com um conhecido empresário local, uma das vítimas).

Não é novo que jornalismo é um processo que precisa estar constantemente sendo discutido, para sabermos se, de fato, estamos trabalhando como manda o figurino, se estão corretos os valores que usamos para tomar dezenas de decisões todos os dias nas redações (algo com o que nem sonham estudantes como o Sr. Limberger). Agora, por favor, façamos uma discussão séria, em cima de fatos, não em cima de passionalismo político. Ou de virtudes-fantasmas.

Jornalista (*)

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