Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > CRIME NO RIO

Visão do New York Times

Por lgarcia em 09/12/2003 na edição 254

CRIME NO RIO

Ricardo Martins Grigório (*)

Ao que me parece, o Sr. Tony Smith, jornalista do New York Times, foi um tanto parcial em sua (infeliz) matéria [leia abaixo] sobre o assassinato do executivo da Shell, e de sua mulher, na cidade do Rio de Janeiro. Esse senhor parece confundir violência urbana com um atípico crime praticado por sabe-se lá quem.

Noticiar um fato ocorrido, relatando as reações da população local, tudo bem. O problema é o tom pejorativo da reportagem. A começar com "Diariamente, (os detetives da divisão de homicídios do Rio de Janeiro) caçam matadores em uma das cidades mais perigosas do mundo". Em seguida, "(o crime) horrorizou uma cidade que estava tentando limpar sua imagem, antes de sediar os Jogos Pan-Americanos de 2002". Segue com "O bairro (Barra), de praias, coqueiros, shoppings e condomínios fechados, parece querer ser Miami" (!). Talvez eu esteja um pouco aquém da classe jornalística (principalmente a norte-americana), mas não consigo compreender essas colocações.

Há, por parte do "Tio Sam", uma pretensa superioridade em relação aos demais países do mundo, e no jornalismo não parece ser diferente.

Em um outro trecho, menciona que "Antony Garotinho, o novo (?) secretário estadual da Segurança Pública, disse que a polícia estava lidando com ?um crime muito atípico?. Ele queria convencer o púbico que os assassinatos não eram outro sinal da degradação social de sua cidade, onde apartamentos de US$ 1 milhão (cerca de R$ 3 milhões) dão as costas para as favelas feitas de tijolos, papelão e latas". Não vem ao caso o que penso a respeito do secretário de Segurança Pública do Rio, mas que esse crime é realmente atípico, é.

Diante do que foi escrito, pergunto: É assim que se faz jornalismo nos EUA?

(*) Assistente administrativo


"Assassinatos cruéis de americanos chocam uma cidade acostumada à violência

Tony Smith [The New York Times, 5/12/03]:

Rio de Janeiro ? Os detetives da divisão de homicídios do Rio de Janeiro são experientes, acostumados aos horrores de crimes violentos. Diariamente, caçam matadores em uma das cidades mais perigosas do mundo.

No entanto, um crime medonho, ocorrido no final de semana passado, chocou até mesmo os policiais mais embrutecidos, por sua maldade e aparente perfeição.

Zera Todd Staheli, 39, executivo de uma empresa petrolífera americana, foi morto e sua mulher, Michelle, 34, ficou em coma até o início de quinta-feira (4/12) quando morreu em virtude dos ferimentos, segundo a Reuters. De acordo com o chefe de polícia Álvaro Lins, os Staheli foram golpeados no rosto e na cabeça com um instrumento pesado e afiado -provavelmente um machado ou um cutelo. Eles estavam dormindo em sua casa, em um condomínio fechado na Barra da Tijuca, subúrbio afluente de classe média, na noite de sábado para domingo.

Os cariocas, como são chamados os habitantes do Rio, estão acostumados com a guerra de gangues de traficantes que transborda das favelas. Esse crime, porém, horrorizou uma cidade que estava tentando limpar sua imagem, antes de sediar os Jogos Pan-Americanos de 2007. O Rio de Janeiro tem uma das mais altas taxas de assassinatos -50 em cada 100.000 habitantes morrem de mortes violentas por ano.

Os moradores têm poucas esperanças de que as coisas vão melhorar tão cedo, apesar de aprovarem a campanha pública recente para acabar com a corrupção policial. ?Fico constantemente preocupada com a violência crescente?, disse Teresa Carvalho, 40, que mora com seu marido executivo e duas filhas em uma casa na Barra. O bairro, de praias, coqueiros, shoppings e condomínios fechados, parece querer ser Miami. Os Staheli foram encontrados agonizando, por um dos seus quatro filhos, de 10 anos de idade. Ele foi para o quarto dos pais atraído pelo barulho do despertador, marcado para acordar a família às 6h30, para ir para a igreja. Eles são mórmons praticantes de Spanish Fork, Utah.O menino encontrou sua irmã mais nova, de 3 anos, dormindo entre as penas de seus pais. (Mais tarde, ela disse à polícia que achava que eles estavam apenas ?sujos de lama?.) Então, ele procurou sua irmã mais velha, de 13 anos, que deu o alarme, chamando uma família americana vizinha.

A polícia não divulgou os nomes das crianças. Staheli, que trabalhava para a Shell, já estava morto quando a ajuda chegou. No entanto, sua mulher foi levada em coma para o Copa d’Or, hospital perto da praia de Copacabana. ?Nos meus 20 anos de trabalho como detetive no Rio, nunca vi nada igual. Não há pistas, não há arma do crime e todas as hipóteses parecem absurdas?, disse o detetive Jose Renato Torres, o primeiro a chegar na cena do crime, no domingo.

Anthony Garotinho, o novo secretário estadual de Segurança Pública, disse que a polícia estava lidando com ?um crime muito atípico?. Ele queria convencer o público que os assassinatos não eram outro sinal da degradação da rede social de sua cidade, onde apartamentos de US$ 1 milhão (cerca de R$ 3 milhões) dão as costas para favelas feitas de tijolos, papelão e latas. Os detetives, porém, admitem abertamente que têm poucas pistas. Exceto pelo que foi encontrado na cama do casal e na parede atrás dela, que tinha respingos até o teto, não havia traços de sangue na casa. Tampouco havia sinais de arrombamento e não foram levados objetos de valor do casal -o Rolex de ouro do marido e as jóias da mulher foram encontrados intocados em pequena caixa de madeira na cabeceira. O portão eletrônico da casa só pode ser aberto por dentro. O motorista da família e a empregada doméstica não estavam trabalhando no final de semana. Ambos foram interrogados e liberados pela polícia.

Para matar Staheli e sua mulher em rápida sucessão -as crianças disseram não ter ouvido gritos- seria preciso força e habilidade, de acordo com o diretor do Instituto Médico Legal do Rio, Roger Ancillotti, que examinou o corpo de Staheli.

?É como se uma ninja tivesse magicamente aparecido no quarto, atacado o casal e desaparecido em uma nuvem de fumaça?, disse ele. Como a família tinha se mudado para a cidade apenas três meses antes, tem sido difícil encontrar pessoas que as conhecessem bem o suficiente para dar indicações de um possível motivo. Preocupada com as aparentes contradições nas declarações da irmã mais velha aos detetives, a polícia quer que ela preste um depoimento completo e sob juramento, antes de deixar o país. Ela também vai registrar o depoimento do menino de 10 anos.

Lins disse que não se podia descartar o envolvimento de um parente. ?Não estou acusando ninguém, mas como não há sinais de invasão, pode ter havido algum tipo de colaboração?.

A polícia também está questionando os colegas de Staheli na Shell, onde tinha sido nomeado recentemente vice-presidente de gás natural e energia para a região sul da América do Sul. No entanto, os executivos do setor não acreditam na possibilidade de ele ter sido morto por razões ligadas ao trabalho, alegando que não há intrigas sérias, políticas ou comerciais, na indústria na região.

Sendo ou não resolvidos, os assassinatos aumentaram inevitavelmente a sensação dos cariocas de que o crime está fora de controle, disse Carvalho. No início do ano, ela entregou uma van novinha a ladrões, sob a mira de um revólver. ?Parece que, hoje em dia, os criminosos não acham legal apenas roubar, mas querem matar e maltratar da forma mais espetacular?."



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