Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Vlado, 22 anos

Por Victor Gentilli em 05/11/1997 na edição 33

Datas redondas são mais propícias para lembranças. Os 30 anos da morte de Guevara justificam o volume de noticiário em torno do guerrilheiro argentino. Embora, como alguém já lembrou, os 10 anos e os 20 anos da morte tenha passado quase em silêncio.

Mas no dia 25 de outubro passado completaram-se 22 anos de uma outra morte, muito mais significativa para a história do Brasil. A data não é redonda, mas a coincidência do sábado, o lançamento do livro do general Ernesto Geisel e a presença aqui mesmo, no convívio dos jornalistas, dos personagens centrais do episódio mereceriam registros mais contundentes.

Hoje, Audálio Dantas está no Diário Popular; Dilea Frate é uma das principais produtoras de Jô Soares; George Duque Estrada continua o grande artista gráfico; Luis Weiss é jornalista e colabora no Estadão; Marco Antônio Rocha continua no jornalismo econômico; Paulo Markun é repórter do Jornal Nacional; Ricardo Moraes está na Gazeta Mercantil em Brasília; Rodolfo Konder é secretário de Cultura; Sérgio Gomes está no jornalismo sindical com seus projetos sempre otimistas.

Um jovem de hoje imaginaria que estas pessoas já foram vistas e apresentadas como ameaçadoras para a nação? Pois há pouco mais de 20 anos, um grupo de militares colocou estes jornalistas no centro do cenário nacional, como perigosos comunistas, do então clandestino Partido Comunista Brasileiro. Eles e mais outros tantos que somavam quase quinhentas pessoas estavam nos cárceres da ditadura, com a exceção de Audálio que, com coragem, presidia o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

Num mesmo 25 de outubro, igualmente num sábado, no sombrio ano de 1975, sob o governo Ernesto Geisel, estes e outros jornalistas constituíam "uma das maiores ameaças à soberania nacional". O general Ednardo D’Ávila Melo comandava o II Exército, que os acusava de "subversão".

No dia 25 de outubro de 1975, um sábado, Vladimir Herzog se apresentaria pontualmente às 8 horas na sede do Doi/Codi, na rua Tutóia, em São Paulo. Às duas da tarde, depois de interrogado por Pedro Mira Grancieri, estaria morto. A versão oficial foi de suicídio. O rabino Henry Sobel enterrou-o em área nobre do Cemitério Israelita do Butantã. Na tradição judaica, os suicidas são enterrados nos cantos, encostados aos muros. Herzog morrera sob tortura.

Perdemos há pouco o irmão do Henfil, que já voltou e já se foi, mas nem todos conhecem por inteiro a história da Clarice, mulher de Vlado, que chorou em 1975.

A morte do jornalista Vladimir Herzog, diretor da TV Cultura à época, no sábado, 25 de outubro de 1975, iniciou uma nova fase no combate à ditadura militar.

O lançamento do livro de Ernesto Geisel mostra que já está passando da hora de alguém contar melhor esta história. Seria falsidade dizer que inexistem textos e trabalhos sobre a morte do Herzog. Mas o distanciamento do tempo e a presença entre nós de boa parte dos personagens envolvidos poderia permitir uma interpretação do que de fato significou aquele momento histórico.

Para usar um lugar comum: ainda há lacunas a preencher nesta história.

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