Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Voz da experiência

Por lgarcia em 05/09/2000 na edição 97

A.D.

Ivan Pedro Martins, 86 anos, é jornalista, publicitário, romancista, tradutor e economista. Foi um dos introdutores de Marshall McLuhan no Brasil, de quem traduziu O meio é a mensagem e Guerra e paz na Aldeia Global. Escreveu os romances Fronteira agreste (1944) e Caminhos do sul (1945), além do livro de contos Do campo e da cidade, reeditado este ano. Viveu de 1977 a 1985 em Londres, como assessor de imprensa da embaixada brasileira. Vive em Cascais (Lisboa) desde 1985 colaborando em diversos jornais portugueses.

Como era a imprensa nos anos 30? Venal, independente? Havia reportagem ou tudo era panfleto?

Ivan Pedro Martins – Em 1930 o Brasil não chegava a ter 40 milhões de habitantes e 85% eram analfabetos. Os jornais eram poucos: o Diário de Notícias, com o velho Orlando Dantas, A Noite, O Globo, no Rio; o Estadão, o Diário de São Paulo e a Gazeta, em São Paulo; o Correio do Povo, em Porto Alegre; o Jornal do Comércio de Recife, o Jornal do Comércio carioca e outros mais. Era coisa séria, nem panfleto nem ordinarice.

A grande imprensa deixou-se impregnar pelas idéias do fascismo italiano? Assis Chateaubriand gostava delas, o Hearst também…

IPM – Informação, opinião e circulação eram relativamente limitados. A grande imprensa não se deixou impregnar pelo fascismo italiano, mas havia jornal fascista italiano em São Paulo e também circulava A Ofensiva, dos integralistas. Chatô e Hearst não tinham no Brasil peso para grande coisa.

Como foi a experiência de A Manhã na véspera da revolta comunista de 1935? Eles também entraram na paranóia das "condições pré-revolucionárias"?

IPM – A Manhã, com Pedro Motta Lima, foi uma experiência positiva e ajudou o crescimento da ANL (Aliança Nacional Libertadora). Mas a "intentona" acabou com o que chamam paranóia pré-revolucionária: no dia da revolta A Manhã lançou uma edição convidando para a luta armada.

Barbosa Lima Sobrinho, recém-falecido, apoiou Getúlio no golpe do Estado Novo. Já estava ali delineado um projeto nacionalista?

IPM – Barbosa Lima ainda não era guru – nem podia ser como político regional e apoiante de Getúlio. Mas já tinha coloração nacionalista.

E as agências de propaganda? Os intelectuais tinham vergonha de fazer réclames?

IPM – As agências de propaganda contratavam intelectuais, mas havia alguns, como Bastos Tigre, que tinham sua própria agência e com seu próprio nome. Aliás, foi nela que comecei, aos 17 anos, minha vida profissional. Orígenes Lessa, Olympio Guimarães são nomes que me ocorrem como profissionais de propaganda.

O que significou o rádio no panorama midiático dos anos 30?

IPM – O rádio era um fascínio que não se pode dizer que atingisse as massas: ainda era movido por galena, mas ia crescendo como meio de comunicação de massas, vertiginosamente.

Como foi o racha trostquista no Brasil? Muitos trostquistas bandearam-se para a direita?

IPM – O racha trotsquista foi coisa pequena. Mesmo porque eram minoria da minoria dentro do Partidão. Em termos de "massas" não foi nada ou pouco mais. Não se pode falar em "direita" trotsquista; eram a esquerda da esquerda.

E o pacto Hitler-Stalin, calou a turma do Partidão?

IPM – O pacto Hitler-Stalin me pegou como exilado no Uruguai e foi um terrível golpe psicológico nas hostes de esquerda.

Como foi a incursão americana para conquistar corações e mentes brasileiras para a causa dos aliados?

IPM – É difícil responder sobre a incursão americana para conquistar corações e mentes brasileiras, pois eu estava no exílio e sabia relativamente pouco sobre o quotidiano nacional. Mas sei que o rastro da ANL permitiu que com ou sem os gringos a simpatia nacional fosse para os aliados.

Como foi o esforço de guerra na mídia?

IPM – O esforço de guerra na mídia me é algo distante: eram milhares de quilômetros de distância. Só com os afundamentos nos navios da marinha mercante brasileira e as mortes dos náufragos é que a mídia se unificou contra o Eixo.

E no pós-guerra? Foi nesse momento que o Brasil esqueceu a Europa e voltou-se para o Tio Sam?

IPM – Não sei se você não simplifica demais ao perguntar se o pós-guerra é o momento em que o Brasil esqueceu a Europa e voltou-se para o Tio Sam. Não creio que o Brasil esqueceu a Europa nem que voltou-se para Tio Sam. Houve e há uma quantidade considerável de vermes bem pagos. Mas há Brasil e há vermes.

E a propaganda naquele tempo? Foi a época da chegada da Coca-Cola, do programa radiofônico Um milhão de melodias, com orquestra sinfônica…

IPM – Por estar ausente no Uruguai até 1946, não posso responder sobre a propaganda naquele tempo do pós-guerra.

Samuel Wainer foi boicotado pelos barões da mídia?

IPM – Samuel Wainer é um caso especial na imprensa brasileira. Primeiro lançou uma revista semanal, Diretrizes, e depois o diário Última Hora e ganhou repercussão nas massas. Isso teve conseqüência nos anunciantes que queriam clientes sem olhar as diferenças. É claro que os barões da mídia detestavam Wainer, mas ele durou bastante para a base que tinha, apesar da aliança com Getúlio Vargas.

Como foi o fim dos impérios jornalísticos e dos barões da imprensa nos anos 50 e 60?

IPM – A TV chegou em 1950 e os media se rearticularam. Veja como hoje há impérios jornalísticos em forma de multimídia confessada e não confessada.

Como era a relação de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek com a mídia?.

IPM – Vargas usava o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) para corromper jornalistas e jornais; e JK lutava para obter simpatias sem DIP para ajudar.

Qual o impacto das teorias de MacLuhan? Que revisão se pode fazer delas em 2000?

IPM – Tomei conhecimento de McLuhan através do Ivan Lessa e, depois, traduzi quatro livros dele, Marshall. Impacto ele teve sobre um grupo relativamente pequeno de profissionais, mas não atingiu massas sequer através da mídia.

McLuhan revisto no ano 2000? Acho que ele previu a globalização em termos subversivos, não como a tentativa de criar-se o "império americano", mas com a informação tornando o mundo uma entidade global com diferenciações regionais. Aqui em Portugal, sem referência a ele, fala-se muito em "todos iguais todos diferentes". É uma boa simplificação; e diria mesmo que um mundo entrevisto por McLuhan tem mais a ver com um humanismo igualitário e diferente que qualquer outra teoria política.

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