Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO TIM LOPES

Vítima da banalização e da lascívia

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

CASO TIM LOPES

Fernando Conceição (*)

Deixando a hipocrisia de lado, quanto Elias Maluco, o sujeito apontado como executor do jornalista Tim Lopes, da TV Globo, desviou de verbas do Ministério da Saúde? Quanto ele e sua gangue surrupiaram da Previdência Social, do sistema bancário nacional, do leite das criancinhas, do erário, da educação? Violou ele o painel do Senado? Embolsou verbas do Orçamento destinadas a construção de obras inacabadas? Fraudou as eleições? Congelou o salário do funcionalismo público por oito anos? Levou o país ao desemprego estrutural como este a que agora se assiste?

Tim Lopes, jornalista de tino aguçado. Como Charles Anjo 45, da música de Jorge Benjor, defensor dos fracos e dos oprimidos. Será? Porque o Charles, na música que Caetano Veloso interpreta num dos seus primeiros discos, representa, pela verve do então Jorge Ben, se não falha a memória, Luis Encina "Escadinha", ex-dono do pedaço nos morros cariocas. Preso há uma década, virou anjo. Um dia Charles marcou bobeira. Um dia Tim Lopes marcou bobeira: foi assassinado, pelo que consta, por Elias Maluco e sua gente. Tendo por moto a denúncia de bacanal num baile funk, em que garotas fazem sexo ao vivo.

Nos bacanais da Globo, a coisa se dá de outro modo? Façam uma garapa! No Jornal Nacional da noite do dia 10 de junho, os dois primeiros integrantes presos da gangue teriam contado como se deu o crime. Os sujeitos, magros, negros e sem camisa, pareciam tranqüilos. Não borravam as calças, como bandidos amadores que choram e negam o crime. Pelo contrário, pareciam donos de si. Conhecedores do traçado. Pareciam dizer ao Brasil: o que é que há? A Globo é um dos nossos principais clientes. No prédio da Globo no Jardim Botânico, como na maioria das redações, estúdios e agências de publicidade e entretenimento, está um dos maiores focos de consumo dos nossos produtos. Todos sabem o quanto artistas e sua entourage pagam pelas drogas que nós fornecemos. Todos sabem o quanto a TV Globo é criminosa.

Na mesma noite, Jornal Nacional encerrado, demagogicamente, com aplausos para Tim Lopes puxados por William Bonner e a galera da sua redação, a TV Globo, logo a seguir, levava ao ar uma cena de sexo no Big Brother. Isso mesmo: às 22h30, o Brasil assistia a mais um episódio dessa apelação pornográfica que são os reality shows em busca de audiência rasteira.

É a Rede Globo de Televisão a principal responsável pela banalização popular do crime e da violência gratuitos. Estudos acadêmicos já mediram o volume de crimes exibidos por seriados, enlatados, filmes, novelas e programas ditos infantis da televisão comercial brasileira ? da qual a Globo é líder. A Rede Globo assaltou o Tesouro Nacional, recentemente, ao pleitear do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) aporte financeiro equivalente a 1 bilhão de reais. A Rede Globo recebeu da Caixa Econômica Federal, em meados de 90, empréstimo de 15 milhões de dólares para construir o Projac ? megalômano estúdio em Jacarepaguá. Esse empréstimo, com carência de 25 anos (isto é, primeira prestação a ser paga somente depois de uma geração), foi concedido em condições especialíssimas, quase sem juros ? algo a que somente um grupo como a Globo tem direito, num país como o Brasil, que é manipulado, vivido e vivenciado nas telas da Globo. País de salário mínimo de 200 reais.

Tim Lopes foi fazer o quê no morro que ele já conhecia de outras denúncias? Denúncias essas que, certamente, prejudicavam os negócios dos traficantes? Era Tim Lopes inocente a ponto de desconhecer que, como o negócio do jogo do bicho, o mundo do tráfico não tolera investidas que atrapalhem seu comércio? Aliás, lógica similar a outros ramos de negócios ditos legais, como o das privatizações brasileiras? Sabendo dessa crua realidade, solicitou Tim Lopes proteção aos meios de segurança do Rio de Janeiro? Pediu retaguarda a seus superiores da Globo? A TV Globo, sabendo dos riscos que seu funcionário corria, permitiu que fosse desguarnecido ao local? Sabia o Estado do Rio da existência de cemitérios "clandestinos" (para quem?), ao lado de quadras esportivas da Prefeitura, no pico dos morros cariocas?

Se as respostas a essas questões forem afirmativas, a família de Tim Lopes deverá ingressar na Justiça solicitando milionária indenização que nem mesmo o oba-oba global pós-assassinato de seu repórter poderá evitar. O fato é que, se de forma genérica e corporativa a morte de Tim Lopes tem de ser condenada e ele mereça a solidariedade piegas de até mesmo tornar-se nome de "salas de imprensa" (como demagogicamente fez a Assembléia Legislativa do Rio), olhando-se pelo prisma da racionalidade tratou-se de mais um episódio banal da vida brasileira.

Tim Lopes nunca foi um jornalista excepcional (quem, fora da roda dos seus conhecidos, já tinha dele ouvido falar antes de seu assassinato?). Não é o herói da liberdade de imprensa que dele estão querendo fazer. Caco Barcelos, da mesma Globo, tem serviços prestados de maior relevância ao país ? e seus riscos não foram menores. Vale dizer que "correr riscos" é parte inerente da atividade jornalística. Ossos do ofício. Quem não o quiser vá ser contabilista, mestre-cuca ou quituteiro. A emissora para a qual Tim trabalhava foi e é responsável por muito do que é hoje o Brasil, desde o sanguinário regime militar que tantos jornalistas matou. Elias Maluco e seus asseclas nada mais são que fruto disso. Fruto de uma sociedade "apartheidiana", cuja elite ? branca, loura, cocainômana ? freqüenta o império de Roberto Marinho e suas afiliadas. Império que é abastecido, em sua luxúria sexual e vício, por esses negrinhos que mataram Tim Lopes. Não há heróis nessa história. Se hoje o pior está no Rio e em São Paulo é tudo uma questão de tempo.

Salve-se quem puder

Salvador, em 10 anos, no ritmo em que vão as coisas, terá sua vez. Quando a secretária de Segurança Pública da Bahia, como agora, resolve cassar todas as autorizações de porte de armas, há algo no ar a ser investigado. O crime organizado, buscando sobreviver, procura outras paragens. Por enquanto a polícia baiana resiste a sua infiltração. Aqui, ao contrário daqueles outros locais, o Estado ainda tem força para controlar a polícia. Até quando, só o tempo dirá. Somente imbecis, como sindicalistas ingênuos que saíram condenando a medida da secretária, não o vêem. É hilário falar que há um confronto entre o Estado legal e um suposto "Estado paralelo", de gente como Elias Maluco. Há só um Estado, representado, nesse caso, pela Globo e, em cada região do país, por seus similares. E há os párias sociais, no episódio representados justa e oportunamente por Elias Maluco e sua gangue, que têm o direito e a legitimidade de agirem como agem.

O lúmpen pode e deve reagir à violência de um Estado e de uma casta de privilegiados que se locupletam e tratam com desdém o restante da sociedade, a menos que um dos seus integrantes seja atingido ? como nessas e noutras ocasiões acontece, provocando alarde e declarações "sérias", posto que vazias de sentido.

Uma leitura de Hobbes, no Leviatã, de Marx, no Capital, de Viviane Forrester, no Horror Econômico, ou de Milton Santos, em seus livros mais recentes, talvez fosse útil nessa hora. Senhores, menos alarmismo, mais parcimônia! Distribuir renda, quem o quer? Passado o frisson, tudo retorna a seu eixo. Bem o sabem os moradores dos morros, abandonados à própria sorte e à lógica das gangues. Por isso, silenciosos. O Estado atual brasileiro, com seus nichos de criminalidade e corrupção, saberá se acertar com os líderes do morro, dos quais depende o equilíbrio das coisas. A esquerda brasileira que tem voz, em seus princípios cristã, está fora desse debate, uma vez que seu discurso não consegue compreender a voz das favelas. Vai a reboque, engole mosca. É o salve-se quem puder absoluto.

(*) Jornalista, editor responsável da Província da Bahia, professor da UFBA

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