Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Walcyr Carrasco

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

WALTER AVANCINI, 1935-2001

"Mesmo doente, tinha disposição invejável", copyright Folha de S. Paulo, 27/09/01

"Conheci Walter Avancini na extinta TV Manchete, quando fui convidado a escrever ?Xica da Silva?. Ele não me conhecia como autor, mas me recebeu de braços abertos. Marcamos de conversar sobre a sinopse no dia seguinte. Passeamos no calçadão de Copacabana e disse: ?Faça todas as críticas, estou aberto. Você é muito mais como diretor do que eu como autor?.

Dali surgiu uma parceria, uma química rara de acontecer. Entramos no projeto de cabeça e com loucura. Eu escrevia com o pseudônimo de Adamo Angel. Avancini vinha [do Rio? me ver [em São Paulo? com frequência, e os repórteres o seguiam tentando descobrir o misterioso autor de ?Xica?. No telefone, nos divertíamos com as especulações, com o segredo. Brindávamos o sucesso.

Ao terminar ?Xica?, recebemos uma viagem de presente da emissora. Fomos para Las Vegas! Acredite ou não, ganhamos nos caça-níqueis! Não uma fortuna, mas o suficiente para pagar certos luxos. Como ver uma luta de boxe (ele adorava boxe) em um excelente lugar. E para comer panquecas de caviar todos os dias. Idéia minha, porque dos dois sempre fui o guloso. Desde então, sempre pensávamos em voltar a Las Vegas. Às vezes, porém, quando perdia um grande amigo, ele dizia: ?É mais um pedaço de mim que vai embora?.

Suspeitava que estivesse doente, mas nunca comentava. Era como se a enfermidade fosse algo que o diminuísse. Ele ficou na Manchete, e eu fui para o SBT. Mas sempre nos falávamos. Às vezes, quando nem tudo ia muito bem -pois a Manchete acabou fechando-, ele comentava, com sabedoria: ?Um dia, tudo será pó. A gente tem que saber disso?.

Quando voltou para a Globo, ele se lembrou de mim. Fui para lá e escrevi ?O Cravo e a Rosa?. Outro grande sucesso de nossa parceria. Já estava doente, mas adorava trabalhar. Tinha disposição invejável. A idéia original de ?A Padroeira? é dele. Mas, para nossa tristeza, não pôde levar o projeto à frente.

Continuamos a nos falar com alguma frequência. Falamos, é claro, sobre novos projetos. Eu sofria, pois não acreditava que fossem acontecer. Mas lá dentro eu torcia para que houvesse uma reviravolta e fizéssemos pelo menos mais um trabalho juntos.

Espero que, seja onde for, exista uma máquina caça-níquel para ele brincar de vez em quando. De fato, é também um pedaço de mim que se vai. (Walcyr Carrasco é autor das novelas ?Xica da Silva? (Manchete, 1996/97, a qual escreveu com o pseudônimo de Adamo Angel, porque era contratado do SBT), ?O Cravo e a Rosa? (Globo, 2000/01) e ?A Padroeira? (2001), todas dirigidas por Avancini.)"

 

"O rei do gado", copyright No (www.no.com.br), 27/09/01

"Tinha alguma coisa de maluco genial. O sujeito olha para a Sônia Braga, uma baixinha de 1m50 metida numa fantasia patética do Vila Sésamo, e percebe que aquela mulherzinha trepada no telhado do seu Nagib pode fazer a cena de sensualidade mais safada da história da televisão brasileira. Só mesmo Walter Avancini.

Quando a televisão brasileira entrou no ar, em 18 de setembro de 1950, ele estava num dos estúdios da TV Tupi de São Paulo trabalhando como ator de um humorístico de Manuel da Nóbrega. Foi contra-regra, produtor, iluminador, roteirista, operador de câmera e principalmente diretor de novelas, como Gabriela, Cravo e Canela, a tal em que transformou Sônia Braga num mulheraço. Avancini saiu do ar ontem, aos 66 anos, morto numa clínica do Rio de Janeiro por um câncer de próstata.

Num escrete dos grandes da televisão brasileira ele jogaria no time titular ao lado do Bôni, Walter Clark, Cassio Gabus Mendes, Lima Duarte, Chico Anysio, Carlos Manga, Dias Gomes, Daniel Filho, Janete Clair e Chacrinha. Walter Avancini era de uma época em que os diretores trabalhavam olho no olho com o ator. Miguel Falabela lembra de sua estréia na televisão com Avancini. O diretor bateu-lhe no ombro: ?Cara, você vai ser um bicheiro, mas faz esse bicheiro como se ele fosse um anjo, que você vai voar longe na carreira.?

Ele gostava de atores. Sabia como fazer para que eles colocassem anjos, demônios e algo mais para fora. Regina Duarte era apenas a garota propaganda de uma margarina quando Avancini a transformou na namoradinha do Brasil, com A deusa vencida, novela de 1965, da Excelsior. Mas gostava também de câmera. Mexeu, como sempre pioneiro, com os brinquedos de modernidade que o veículo foi recolhendo pelo caminho. Era o diretor de Saramandaia, em 1976, o primeiro momento de deslumbramento das novelas com os efeitos especiais, e não teve nenhum pudor em explodir Wilza Carla, a dona Redonda, ou colocar o maluco-beleza Juca de Oliveira voando.

O premiadíssimo Morte e Vida Severina, de 1981, na Globo, talvez seja o trabalho que melhor sintetize a obra de Walter Avancini, um craque no equilíbrio entre tradição e modernidade. Tinha tudo para ser um manifesto panfletário sobre as desigualdades sociais e outros clichês que o diretor deve ter ouvido quando passou pelo partido comunista nos anos 50. Tudo bem pontuado por uma estética namorada do realismo russo, ainda curtido naqueles tempos. Mas que nada!

Avancini transformou Morte e Vida num marco de virada da televisão brasileira, a ponto de acharem que, se não foi dirigida por Guel Arraes, foi ali que o novo darling da direção televisiva aprendeu tudo. Tinha Elba Ramalho cantando ?é uma cova grande/ para teu pouco defunto/ mas estará mais ancho/ que estavas no mundo? – e o Brasil só não marchou para a reforma agrária no dia seguinte porque não quis. Mas assim como João Cabral recomendava que não se perfumasse a rosa, Avancini, comuna sofisticado, percebia que não se devia salgar e secar ainda mais o nordeste. ?A busca da identidade nacional sempre orientou meu trabalho?, discursou na época. Mas a câmera que movimentou entre seus atores famélicos não tinha nada de denúncia. Ela desliza como cobra, rasteira como uma caatinga daquelas – mas quanto bom gosto nos planos!

Foi uma carreira, sob todos os pontos de vista, espetacular. Avancini ajudou a inventar a televisão brasileira, uma arte bastante polêmica mas que, olhando a pintura que este país produziu, olhando as esculturas, o cinema e a literatura, até que não faz feio. Em 1968, ele fez na TV Tupi o mesmo que a juventude estava fazendo nas ruas. Jogou tudo para o ar e dirigiu Beto Rockfeller como se estivesse no Quartier Latin pichando ?A imaginação no poder?. Dirigiu minissérie histórica na Globo (Vargas,1999), novela didática na Bandeiranes (Chapadão do Bugre, em 197) e, no desespero de tirar a Manchete do fundo do poço, a pornografia hilária de Xica da Silva, com a participação até da Cicciolina. Foi embora jovem, mas divertiu-se.

É uma pena que Avancini, depois de tanto sucesso, depois de ter ensinado com rigor, às vezes pagando o preço de uma imagem antipática, uma multidão de jovens e técnicos a trabalhar na televisão – é uma pena que ele tenha se mandado em baixa. Sua última assinatura pôde ser vista em A Padroeira, um monumental fracasso, ainda no ar, do horário das seis da Globo. Avancini dirigiu apenas algumas cenas e, doente, passou o bastão. Não teve culpa. Se fosse sucesso, também não seria o responsável.

O diretor de novela hoje não assina. Não marca. Luis Fernando Carvalho talvez tenha sido o último. O diretor é apenas o controlador do fluxo, como aquele colega da Kibon. As pessoas sabem que Marcos Paulo dirige Porto dos Milagres porque, numa coincidência daquelas, sua mulher foi escalada para o papel principal, acrescentando tremendo gosto de nepotismo ao já cheiroso cacau baiano da região. Mas ninguém se lhe percebe o dedo na coisa, quer dizer, o dedo de Marcos na estética final dos capítulos. As novelas viraram enormes e burocráticas fábricas de produção de emoções, não permitem mais uma direção autoral. O diretor, plagiando Hitchcock, apenas tange o gado. Avancini, que foi o rei do gado, preferiu dar uma de Sônia Braga e subiu no telhado."

    
    
                     

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