Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Wall Street é o único Estado-nação?

Por Julio Moreno em 20/11/1997 na edição 34

Depois da recente convulsão das bolsas internacionais, uma pergunta torna-se inevitável: o conceito de Estado-nação foi para o brejo? Ou seja, a economia globalizada é o começo e fim de tudo?

Antoninho Marmo Trevisan, conceituado auditor paulista, em artigo publicado pelo Jornal da Tarde, só tem uma explicação para o fato de impulsos aparentemente cadenciados e harmônicos atingirem, em curto prazo, continentes tão distantes, impactando a vida de povos diferentes, com culturas particulares, mercados específicos e bolsas de valores próprias. "Sim, os povos são diferentes, mas no fundo, os investidores são os mesmos. É a era da globalização que, ao contrário do que muitos pensavam, em vez de diluir riscos, vem, na verdade, concentrando poder e contaminando economias. A gestão dos capitais está cada vez mais nas mãos de poucos, muito poucos, e as nações se tornam cada vez mais parecidas nas formações de blocos econômicos e na busca interminável de fusões e megafusões entre empresas".

Quase na mesma linha, Clóvis Rossi escreveu na Folha de S.Paulo que "a globalização não é apenas, talvez nem principalmente, econômica. É também cultural, o que inclui desde a informação instantaneamente globalizada até o predomínio do inglês, o idioma da globalização. (….) Se a CNN, a rede global de TV, deu o pontapé inicial à informação em escala planetária, é a Internet, a rede de computadores, que tece, dia após dia, vínculos crescentes entre os que estão nela plugados. Tece para o bem ou para o mal".

Há outros, contudo, menos pessimistas. Andrew Grahan, economista da Universidade de Oxford, no Reino Unido, garantiu ao The Independent (Londres) que o fluxo digital de informações, sem fronteiras, não representa qualquer ameaça ao Estado-nação. Para ele, muitos mitos foram criados em torno da Internet, entre eles o de que o fluxo de capitais atravessará países sem controle governamental. As pessoas nunca confiarão em um mercado virtual, a menos que a Internet seja regulamentada e suportada como qualquer banco.

Enfim, o debate está apenas começando, pois de fato nosso mundo e nossas vidas estão sendo transformados por duas tendências opostas: a globalização da economia e a identidade da sociedade. São pressões contraditórias sobre um Estado-nação que já não funciona direito, enquanto os políticos perdem credibilidade como representantes dos povos. Em alguns casos, há ainda os complicadores criados pelos movimentos regionalistas ou nacionalistas.

"O Estado-nação baseado na soberania das instituições políticas sobre um território e numa cidadania definida por tais instituições parece ser cada vez mais uma construção obsoleta que, sem desaparecer, deverá coexistir com um conjunto mais amplo de instituições, culturas e forças sociais". É o que opina o sociólogo espanhol Manuel Castells, autor bastante conhecido de FHC. "As conseqüências desse fenômeno – continua ele em artigo publicado por El Pais (Madri) – são enormes, uma vez que todas nossas formas políticas de representação e de gestão estão baseadas nessa construção que começa a desmoronar-se por detrás de uma fachada ainda imponente".

O Estado-nação, diz ele, parece efetivamente cada vez menos capaz de controlar a globalização da economia. A unificação eletrônica dos mercados de capitais e a capacidade dos sistemas de informação para transferir enormes massas de capital em questão de segundos tornam praticamente impossível que os Estados e seus bancos centrais decidam sobre o comportamento dos mercados financeiro e monetário.

Processo semelhante acontecem nos circuitos de informação científica, tecnológica ou cultural, que circulam globalmente cada vez com maior liberdade. Sem falar na globalização do crime frente a rigidez de burocracias estatais de cada governo. E a identidade das pessoas se expressa cada vez mais num âmbito territorial distinto do Estado-nação `moderno, como é o caso do Euskadi dos bascos espanhóis, ou da Escócia, "nações sem Estado".

Tudo isso é verdade e pode ser considerado, mas é precipitado dizer que Wall Street passa a ser daqui para a frente o único Estado-nação, na opinião do sociólogo espanhol. Para Manuel Castells, o que começa a ocorrer, de fato, é uma profunda transformação do Estado, na medida em que uma nova forma política molda nossas relações políticas: "o Estado rede".

A Comunidade Européia, por exemplo, é um Estado constituído pela união de Estados nação, de nações sem Estado, de governos autônomos e instituições de toda ordem. Em comum, todos estão articulados em redes de organizações não governamentais e organismos intermediários, que permitem um maior entrosamento com os processos econômicos, sociais e culturais. Essa rede política, por sua vez, se instrumenta cada vez mais com base na tecnologia da informação, ou seja, na rede de computadores que nterconecta a todos.

"Portanto, não estamos ante o fim do Estado, nem sequer do Estado-nação, mas sim diante do surgimento de uma forma superior e mais flexível de Estado que engloba as anteriores, agiliza seus componentes e os torna operativos, com a condição de que governos e partidos renunciem ao mando e entendam essa nova forma de fazer política.(….) Não chegamos ao fim do Estado superado pela economia, mas sim ao princípio de um Estado alicerçado na sociedade. E como a sociedade informatizada é multifacetada, o Estado-rede é igualmente multiforme. Em lugar de mandar, temos que navegar".

É o que eu vou tentar explicar ao gerente do banco onde tenho um cheque especial.

(*) Jornalista. Exerce, atualmente, o cargo de diretor de pesquisa e desenvolvimento da Agência Estado, SP.

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